Um quarto dos humanos em risco

Mudanças climáticas estão colocando em perigo população do Golfo de Bengala, que já foi caminho entre Índia e China

THE NEW YORK TIMES,

15 de outubro de 2013 | 02h18

Quase uma em cada quatro pessoas na Terra vive em países à beira do Golfo de Bengala. A região é estrategicamente vital para as potências em ascensão da Ásia. Seu litoral baixo - incluindo regiões costeiras da Índia Oriental, Bangladesh, Sri Lanka, Mianmar, Tailândia, Malásia e Sumatra - hoje abriga mais de meio bilhão de pessoas vulneráveis à elevação do nível dos mares. As tempestades são uma ameaça constante; no último fim de semana, um ciclone, Phailin, saiu do golfo para atingir a costa da Índia, provocando a retirada de cerca de 800 mil pessoas.

O golfo já foi um caminho marítimo entre a Índia e a China, e depois foi moldado por monções e migração quando potências europeias exploraram a região por seu café, chá e borracha. Hoje, está sendo reconfigurado pelo crescimento populacional e a mudança climática.

A escala e o ritmo desses desafios demandam uma cooperação regional urgente. Mas os países que circundam o golfo precisam se colocar acima de suas profundas divisões e abraçar a interatividade de sua história.

As costas do Golfo de Bengala estão sendo atacadas em cada dimensão: por conflitos por água no Himalaia e pela perfuração de poços de petróleo e gás em águas profundas. O golfo é um escoadouro de poluição alimentado pelos grandes rios que nele deságuam, incluindo o Ganges, o Brahmaputra e o Salween. Construções de represas na China e na Índia ameaçam comunidades à jusante na Índia, Bangladesh e no Sudeste Asiático continental. Com a elevação do nível do mar e a sedimentação de terras dos deltas, a intrusão de água salgada em terras agrícolas se acelerou, com graves consequências para a produção de alimentos.

O clima turbulento do golfo jogou um papel significativo na história da região. Marinheiros cruzavam suas águas desde os tempos antigos; suas rotas comerciais ligaram Índia, China e Sudeste Asiático por séculos. Sua generosidade natural atraiu as potências europeias, fazendo dele uma arena de competição imperial e vitalidade econômica. Mas as monções e sua precipitação sempre foram voláteis: secas periódicas e tempestades perigosas colocavam uma ameaça recorrente e moldaram a região.

Na segunda metade do século 19, investidores famintos por terras num Império Britânico em expansão criaram conexões mais estreitas por todo o golfo. A migração atingiu proporções imensas na era da navegação a vapor. Mais de 25 milhões de pessoas cruzaram o golfo entre os anos 1870 e os 1930.

Este aumento da migração coincidiu com dois dos piores casos em que as monções não trouxeram as necessárias chuvas. Episódios especialmente intensos de fenômenos conhecidos como El Niño - o aquecimento periódico das águas superficiais no Pacífico equatorial - trouxeram secas para grandes regiões da Ásia nos anos 1870 e de novo nos 1890. Na Índia, milhões morreram nas fomes que se seguiram. Milhares tentaram a sobrevivência no além-mar. Muitos mais se deslocaram localmente. As pessoas se tornaram mais interdependentes. Mas somente famílias com acesso a crédito e a redes sociais suficientemente amplas poderiam aproveitar as oportunidades no exterior.

A depressão da economia global dos anos 1930, seguida pela 2.ª Guerra Mundial, estancou migração e comércio. Após conquistarem a independência nos anos 1940, os novos Estados da Ásia policiaram suas fronteiras contestadas e controlaram a migração.

Como muitos líderes de sua geração, o primeiro-ministro da Índia, Jawaharlal Nehru, acreditava que a ciência moderna havia "reduzido em grande medida a tirania e os caprichos da natureza". Mas a tirania e os caprichos da natureza não foram tão facilmente domados, e assumiram um curso perigoso.

A mudança climática inaugura uma imprevisível nova fase na vida do Golfo de Bengala. Cientistas preveem um aumento da frequência e da intensidade dos notórios ciclones que atingem o golfo. Na última década, mais de 18 milhões de pessoas foram afetadas diretamente por ciclones tropicais.

Ao mesmo tempo, socialmente, se não politicamente, o golfo hoje lembra mais os anos 1890 do que os anos 1950. A migração intrarregional recomeçou. O Alto Comissário das Nações Unidas para Refugiados calcula que, de 2012 para cá, mais de 13 mil pessoas tentaram cruzar o Golfo de Bengala em barcos de contrabandistas com destino a Malásia e Tailândia. Centenas morreram nas tentativas; os que sobrevivem à viagem enfrentam uma recepção dura.

O Golfo de Bengala precisa urgentemente de uma cooperação mais efetiva para a proteção ambiental - regulando a pesca, protendo os manguezais e reduzindo as emissões de poluentes persistentes e de dióxido de carbono. Políticas mais humanas e coordenadas para migração também precisam ser desenvolvidas. A esperança de um novo regionalismo repousa no reconhecimento de que a história do golfo, assim como a sua ecologia, transcende as fronteiras nacionais. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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