Wilton Junior/Estadão
Wilton Junior/Estadão

‘Um radical não é necessariamente um terrorista’

Apontado como líder de grupo acusado de promover o EI no Brasil diz que era infiltrado em busca de extremistas

Entrevista com

Welington Moreira de Carvalho, preso em operação da PF de combate ao terrorismo e solto esta semana

Tulio Kruse, enviado especial a Paracambi, Rio de Janeiro, O Estado de S.Paulo

25 de novembro de 2018 | 05h00

O principal acusado da Operação Átila, que deteve 11 suspeitos de promover o grupo Estado Islâmico no Brasil, foi liberado e está de volta a sua cidade natal após quase um ano em um presídio federal de segurança máxima. Welington Moreira de Carvalho, de 47 anos, foi parcialmente absolvido no caso - condenado por apologia ao crime e corrupção de menores e inocentado da acusação de terrorismo. 

Welington insiste que foi um colaborador informal da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) e sua atuação como infiltrado o levou à prisão. Registros em seu correio eletrônico contêm relatórios sobre muçulmanos no Rio de Janeiro. Ele enviava os textos a um e-mail institucional na Abin. A Justiça não acreditou na alegação. A Abin, por sua vez, respondeu que não poderia confirmar nem negar a informação. 

Você foi absolvido da acusação de promover o terrorismo, mas condenado por apologia ao crime e a corrupção de um menor. Concorda com essa interpretação?

Acredito que essa Lei Antiterrorismo acaba sendo uma lei “anti-islâmica”. Se uma pessoa é presa na rua por porte de arma e não for muçulmana, vai receber uma sentença apenas por porte de arma. Se for muçulmana, ela talvez tenha uma sentença por planejar, por estar indo cometer um atentado. 

Por que você acha que foi envolvido nesse caso?

No ano de 2014, eu fiz um contato com a Abin via e-mail institucional e recebi dois agentes na cidade de Ubá. Fizemos um acordo. Eu vi uma oportunidade ali, porque estava chegando a Copa do Mundo e depois haveria a Olimpíada. Eu sempre fui contra o terrorismo. A mussala (sala de oração) estava fechada. Eu reabri a mussala em 2014 com o próprio apoio financeiro da agência, como se ela fosse uma “arapuca”. Ali, eu estaria monitorando todos os estrangeiros que chegavam ao Rio. 

Os agentes da Abin eram de Ubá, em Minas?

Não. Eu era de Ubá, eles foram até lá me conhecer e fazer uma contratação informal. Várias pessoas foram contratadas. Em todas as cidades que eram sedes da Copa do Mundo ou da Olimpíada, todas as mesquitas eram monitoradas, como forma de controle de quem estava chegando ao Brasil. Naquela época, o Estado Islâmico (EI) estava no auge. Hoje, o EI é 3% (do que foi), praticamente já está aniquilado. Acredito que o Brasil nunca vai ser alvo de terrorismo. Não mandou tropas para o Afeganistão, não mandou tropas para a Líbia, não mandou tropas para o Iraque. O Brasil é bem visto lá fora. Então a gente, talvez só teria uma ameaça na Copa e na Olimpíada, por causa das delegações estrangeiras no Brasil. (Fui preso) porque a (Polícia) Federal não sabia. A PF sabia que havia pessoas infiltradas, mas não sabia quem era.

O MPF diz que você fazia sugestões, que algumas ideias partiam de você. Como informante, era necessário sugerir planos?

Só para eu manter eles ‘cozinhando em banho-maria’. Tanto é que eu mudava o tempo todo. Uma hora falava uma coisa, outra hora mudava.

Você foi acusado por policiais federais de ser uma espécie de “mentor” ou “líder” do grupo. O que você acha da interpretação?

Essa é uma interpretação um pouco equivocada. Não tem como você ser líder “online”. Você tem de se encontrar em algum lugar. Essa minha liderança poderia ter sido no sentido de estar atraindo as pessoas para dentro da ‘arapuca’. É por isso que eu não tenho mágoas por ter sido preso, porque acredito que eles não sabiam (do trabalho na Abin).

Entre os envolvidos no caso, há algum que você considera radical ou perigoso?

Não. Tem gente que é radical. Existe uma frase que a gente fala muito: “Todo radical é wahabita, mas nem todo wahabita é um terrorista”. Ser radical não significa necessariamente que a pessoa é ou será terrorista. Vi muito maluco e fanfarrão, pessoas com distúrbios. Quando cheguei lá na prisão, vi que a maioria não fazia oração. Eu não faço oração porque sigo a tradição mais esotérica. O próprio Islã tradicional não considera sufismo como Islã, como parte dos muçulmanos. 

Na acusação do MPF contra vocês havia, por exemplo, reproduções de conversas sobre um ataque no carnaval em Salvador e a formação de um grupo paramilitar no Norte do País. Por que essas coisas estavam sendo discutidas ali?

Eu acho que as pessoas discutem muita coisa, mas acabam não fazendo. Esse do carnaval, eu só fiquei sabendo no próprio processo, porque era um fato isolado de um acusado. O outro fato, eu conheci, sim. Eles se conversavam muito, o Mohamed Abdul Assam (Harrisson), né? Conversava-se muito sobre montar esse grupo paramilitar. Mas eu sempre levava isso… Não a sério. Quando eu o conheci pessoalmente, eu vi que não tinha know-how para isso. Ele praticava Islã, praticava umbanda, misturava religiões. Eu acho que, se tiver radical no Brasil, ele vai querer ir para fora. Não vai querer ficar no Brasil. O Brasil não tem o ambiente propício para viver o radicalismo. O radical vai querer ir para o Oriente Médio, viver lá com algum desses grupos e morrer por lá. 

Por que você acha que foi o único réu mantido em prisão preventiva?

Não sei, essa é uma verdade. Não sei se me mantiveram lá para me proteger. Essa é uma incógnita para mim. Muita gente acaba sendo presa como bode expiatório.

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