Um raio X da corrupção que corrói o Afeganistão

Políticos transformam país em 'Estado de gângsteres'

DEXTER FILKINS / THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

11 de setembro de 2010 | 00h00

O governo do presidente Hamid Karzai pode estar mergulhado na corrupção e no suborno, mas se percorrermos os corredores mal conservados dos ministérios afegãos, encontraremos facilmente uma pessoa honesta.

Uma delas é Fazel Ahmad Faqiryar, que no mês passado assumiu a tarefa politicamente perigosa de tentar processar membros dos altos escalões do governo. Há duas semanas, ele foi demitido do cargo de vice-procurador geral - aparentemente, por ordem do próprio Karzai.

"A lei neste país é apenas para os pobres", disse Faqiryar. Sua demissão mostrou não apenas o desmando que permeia a administração de Karzai e o restante do Estado afegão, como também levantou uma questão fundamental para os líderes americanos e europeus que financiam o governo: a corrupção oficial pode ser mais perigosa do que o Taleban.

Desde 2001, segundo uma das premissas incontestáveis da política americana e da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), os afegãos comuns não veem a corrupção do governo do mesmo modo que os americanos e outros cidadãos do Ocidente.

Diplomatas, oficiais militares e funcionários de alto escalão vindos de Washington muitas vezes afirmam, não oficialmente, que, embora a corrupção pública seja perniciosa, não vale a pena tentar aboli-la - e fazê-lo poderia levar à destruição do próprio governo que o Ocidente ajudou a constituir.

"O que é aceitável para os afegãos é diferente do que é aceitável para você ou para mim ou para o nosso povo", disse um funcionário ocidental em Cabul, menosprezando os temores de fraude nas próximas eleições parlamentares, pedindo para sua identidade não ser revelada, como fazem frequentemente muitos importantes funcionários ocidentais. "Eles têm suas próprias expectativas, e estas são ligeiramente diferentes das que tentamos impor."

Talvez. Mas a premissa do funcionário - de que os afegãos toleram mais a corrupção do que as pessoas no Ocidente - se cumpriu. Hoje, o Afeganistão é amplamente reconhecido como um dos principais países dominados por gângsteres. A Transparency International classifica o Afeganistão em 179.º lugar em matéria de corrupção, entre 180, melhor apenas do que a Somália.

O pior é que o raciocínio apresentado pelo funcionário ocidental - segundo o qual os afegãos não se preocupam em tolerar certo grau de suborno e de roubo - revela-se terrivelmente errada. Agora está claro que a corrupção oficial é absolutamente desprezada pelos afegãos comuns, e constitui talvez o único fator preponderante que os leva a entrar nas fileiras dos taleban.

Não é preciso muito esforço para encontrar um afegão, no governo ou fora dele, que sente aversão pelos atos criminosos de seus líderes. Ouvem-se muitas coisas aqui - que os cleptocratas são pouco numerosos; que a maioria dos afegãos sabe quem eles são; que o país estaria muito melhor se esta camarilha gananciosa tivesse um fim violento.

Por que não livrar-se deles? Às vezes, parece que líderes americanos e afegãos sofrem de um tipo de cegueira deliberada. Em junho, Karzai foi para Kandahar para falar numa reunião com cerca de 400 representantes tribais locais sobre uma operação militar pendente.

Os líderes tribais locais estavam reunidos em uma ampla sala, a maioria deles sentada no chão, e Karzai, depois de se fazer esperar por muito tempo, entrou, fez um breve e vigoroso discurso e logo se retirou. Nem Karzai nem qualquer um dos seus assessores - e nem os americanos - pareciam particularmente interessados no que estes líderes tribais tinham para dizer.

E na realidade, eles tinham muito para dizer. Mais tarde, em entrevistas, contaram histórias desalentadoras e notavelmente semelhantes. Nenhum dos homens tinha o menor amor pelo Taleban. Mas tinha menos amor ainda pelos líderes afegãos.

Injustiça. Como por exemplo Hajji Mahmood, um líder tribal de uma aldeia a oeste de Kandahar. No início deste ano, ele comprou um lote do governo local e investiu vários milhares de dólares para construir nele algumas lojas.

Meses depois, chegaram funcionários do governo e derrubaram com tratores as lojas de Mahmood, reclamando a posse do terreno para a prefeitura. O agente local que Mahmood havia pago embolsou o dinheiro e não registrou a venda.

Não é que os americanos e seus parceiros da Otan não conheçam os afegãos corruptos. Os funcionários americanos e as equipes de combate à corrupção elaboraram gráficos complicados destacando os sindicatos do crime em que se entrelaçam as elites afegãs de empresários e políticas. Até deram um nome aos gráficos: "Redes de atores malignos" (MAN, na sigla em inglês). Olhando alguns destes gráficos - com suas linhas cruzadas ligando políticos, traficantes e rebeldes - é fácil concluir que o Afeganistão não é governado nem pelo governo nem pelo Taleban, mas pelo MAN.

Evidentemente, os mesmos "atores malignos" contra os quais os diplomatas e os funcionários esbravejam estão na folha de pagamento da CIA. Pelo menos até pouco tempo atrás, dizem funcionários americanos, um deles era Ahmed Wali Karzai, irmão do presidente.

A dificuldade real, afirmam os comandantes americanos, está no fato de que tirar do poder os maiores políticos afegãos poderia abrir um vácuo de autoridade. E isto poderia criar uma instabilidade da qual o Taleban poderia se aproveitar. Os funcionários americanos têm todo o direito de temer esta instabilidade, mas o problema deste argumento é que, cada vez mais, há sempre menos estabilidade para administrar.

Quanto a Faqiryar, aos 72 anos, ele é hoje um ícone nacional. Um recente editorial do Kabul Weekly, um jornal local, instava Faqiryar a continuar sua luta contra o Estado de gângsteres que seu país se tornou. Mas o editorial tinha um tom menos irado e mais pungente, como se o tempo estivesse se esgotando. "Somos uma nação que precisa desesperadamente de mais heróis", afirmaram os editores. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

É CORRESPONDENTE

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