Tom Jamieson/NYT
Tom Jamieson/NYT

Um recital de órgão, com uma injeção contra o coronavírus

Catedral de Salisbury, no Reino Unido, funciona como centro de vacinação e oferece música a imunizados

Redação, O Estado de S.Paulo

27 de janeiro de 2021 | 07h00

SALISBURY, INGLATERRA - Em uma tarde de sábado, Margaret Drabble, 83, sentou-se sob os arcos elevados da Catedral de Salisbury, no Reino Unido, balançando as pernas para frente e para trás sob a cadeira.

Minutos antes, em uma cabine perto da entrada da catedral, ela havia recebido sua primeira dose da vacina Pfizer-BioNTech contra o coronavírus. Mas não era por isso que estava tão feliz, afirmou. O motivo era o som de órgão que reverberava suavemente no interior da catedral.

"Eu simplesmente amo o órgão", afirmou. "É tão lindo que quase me faz chorar toda vez que escuto".

Drabble, uma professora aposentada, conta que sempre quis tocar o instrumento. Ela havia sido instruída a permanecer ali por 15 minutos após a injeção, para se certificar de que não desenvolveria uma reação alérgica à vacina.

A Grã-Bretanha iniciou uma campanha de vacinação em massa, correndo para combater o vírus enquanto uma nova variante se alastra pelo país. Até agora, cerca de 6,3 milhões de pessoas, pouco menos de 10% da população, receberam a primeira dose.

A Catedral de Salisbury é um dos grandes espaços selecionados pelo governo britânico para funcionar como centros de vacinação. Na segunda-feira, foram anunciados 33 novos contratos, incluindo com centros esportivos, arenas de shows e um estádio de futebol em Oxford.

Na Catedral, as vacinas são aplicadas duas vezes por semana para cerca de 1.200 pessoas por dia. As sessões duram cerca de 12 horas e, na maior parte desse tempo, David Halls e John Challenger, os organistas da catedral, fornecem um suporte musical, que vai de hinos a obras clássicas.

É um dos poucos lugares do país onde se pode ouvir música ao vivo no momento. Com grande parte da Grã-Bretanha sob lockdown pela terceira vez, teatros, museus e salas de concerto foram forçados a fechar.

Mas nas últimas semanas, a corrida do governo britânico para vacinar sua população proporcionou um sopro de vida a espaços culturais.

Alguns - como o Thackray Museum of Medicine em Leeds, no norte da Inglaterra, e o Hertford Theatre, ao norte de Londres - tornaram-se centros de vacinação, aproveitando seus grandes e bem ventilados espaços e a experiência no manejo de multidões. Os visitantes agora fazem fila para receber as doses, em vez de olhar para as vitrines ou cantar.

A Catedral de Salisbury é, obviamente, mais um espaço religioso do que cultural. Mas, além do acompanhamento de órgão, qualquer pessoa inoculada no edifício gótico do século 13 também pode se maravilhar com sua arquitetura e contemplar várias obras de arte em todo o terreno, incluindo uma enorme figura reclinada do escultor Henry Moore e uma tapeçaria do artista contemporâneo britânico Grayson Perry.

No sábado, poucos visitantes olhavam para as obras, mas vários ouviam atentamente a música.

“Eu moro na região, e todos nós temos perguntado: 'você já foi ao recital de órgão?'”, conta Pam Scoop, 86. “Nós não perguntamos 'você já tomou a vacina?', acrescentou. Ela então fechou os olhos para ouvir a apresenção de Jesu, Joy of Man’s Desiring, de Bach.

Nicholas Papadopulos, reitor da catedral, disse que ofereceu o prédio ao governo assim que soube que uma vacina bem-sucedida havia sido desenvolvida. “Pensamos em muitas pessoas idosas e vulneráveis que não tinham saído muito de suas casas no ano passado", afirmou, acrescentando que a equipe queria “criar um ambiente acolhedor, reconfortante e relaxante. ”

“A solução óbvia era fazer música”, disse.

Halls, o diretor musical da catedral, disse que começou tocando peças clássicas famosas de nomes como Bach, Mozart e Handel. Ele disse que então decidiu diversificar a apresentação, tocando músicas como Old Man River e I Do Like to Be Beside the Seaside, na esperança de que despertassem memórias felizes entre os ouvintes mais velhos.

“A frase 'clássicos suaves' foi o que veio à mente”, disse Halls. 

John Challenger, o diretor musical assistente da catedral, disse que alguns residentes locais começaram a enviar pedidos por e-mail. Alguém sugeriu uma obra do organista e compositor australiano George Thalben-Ball, disse ele; no sábado, outra pessoa mandou um e-mail pedindo uma peça de Olivier Messiaen, incluindo o tempo em que gostaria que a obra fosse executada.

“É estranho o que as pessoas querem, não é?” perguntou Challenger.

Dan Henderson, um dos médicos que supervisionam o centro, disse que a catedral é um espaço perfeito para vacinações, já que seu amplo espaço com correntes de ar diminui o risco de contrair o vírus. A música foi um bônus, acrescentou, mas teve um benefício médico porque diminuiu a ansiedade das pessoas. “É mudar isso de uma intervenção médica para um evento”, disse ele, “e isso realmente deixa os pacientes à vontade”.

Havia apenas uma desvantagem ocasional, acrescentou. “Tivemos pacientes sentados na área de observação por meia hora ouvindo a música, quando eles deveriam estar lá por apenas 15 minutos”, disse Henderson. “Então, às vezes, isso está realmente impedindo o fluxo de pacientes. Mas acho que é um problema adorável de se ter. ”

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