Um retorno arriscado ao Irã

Cientista afirmou que tinha sido sequestrado pela CIA e Teerã diz que ele era agente duplo, mas há dúvidas sobre seu futuro

David E. Sanger, O Estado de S.Paulo

23 de julho de 2010 | 00h00

THE NEW YORK TIMES

Quando o cientista iraniano Shahram Amiri pegou os agentes da CIA de surpresa, escapando para Teerã, ele apostou sua vida nesse ato. Será que ele acabará como Vitaly Yurchenko, o espião da KGB que há exatamente 25 anos fugiu para Washington, revelou alguns dos mais extremos segredos de um império em colapso e depois escapou dos agentes da CIA num restaurante francês em Georgetown e retornou a Moscou?

Por incrível que pareça, Yurchenko ainda está por aí. E Amiri só pode esperar ter o mesmo destino.

Isso porque há um outro tipo de fim para dramas como esse que o cientista iraniano certamente nem deseja pensar. Como foi o caso de Hussein Kamel, genro de Saddam Hussein. Ele fugiu do Iraque para a Jordânia em 1995 e forneceu para o Ocidente dados sobre os projetos de pesquisa de armas químicas e biológicas iraquianos. Kamel também voltou a seu país, com a promessa de que seria perdoado. Alguns dias depois foi fuzilado.

Sob um determinado aspecto, a decisão de Amiri de voltar a seu país é uma excelente propaganda para os iranianos. Durante meses, eles insistiram que o cientista tinha sido sequestrado na Arábia Saudita em junho de 2009 pela CIA, depois drogado e torturado para falar sobre o programa nuclear secreto do Irã.

Mas por outro lado, o caso Amiri pode ser bastante desestabilizador para os iranianos. Se você acreditar apenas numa parte da versão americana - segundo a qual o especialista forneceu informações por alguns anos para a CIA, depois desertou e ofereceu ainda mais dados - então os líderes iranianos devem refletir sobre essas revelações sobre seu programa e o quanto ele ficou comprometido.

Como observou Ray Takeyh, especialista do Council on Foreign Relations, não existe nenhum precedente iraniano quanto ao tratamento de desertores da área nuclear que voltam ao país. "Acho que devem adotar o enfoque soviético - vão querer usá-lo como propaganda", disse o especialista. "Creio que ele ainda estará por aí durante mais ou menos um ano. Mas não creio que, depois, as coisas estarão bem para ele. As autoridades precisam deixar claro aos potenciais desertores que há um custo a ser pago."

Esta semana, o governo iraniano garantiu que Amiri era um agente duplo, enviado para espalhar desinformações e descobrir quais dados o serviço de inteligência dos EUA tinha sobre o Irã.

Agora que Amiri está de volta a Teerã, claro que são os iranianos que devem se preocupar se ele não seria um agente duplo americano. Como disse Takeyh, "quem confiará nele o suficiente para permitir seu retorno ao programa?" Basta perguntar a Yurchenko: o ex-espião da KGB foi interrogado durante anos sobre o que sabia e o que relatou aos americanos.

Na melhor das hipóteses, o cientista iraniano parece fadado a esse mesmo tipo de interrogatório por muitos anos. Sua esperança, naturalmente, é que consiga viver o tempo necessário para explicar a complicada história de suas misteriosas viagens a seu filho pequeno quando ele for adulto o bastante para compreendê-la, e talvez quando o mundo descobrir se o Irã estava em busca da bomba ou abandonou o seu projeto. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É COLUNISTA E GANHADOR DO

PRÊMIO PULITZER

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