Um retrocesso para os planos dos americanos

Cenário: David E. Sanger / NYT

O Estado de S.Paulo

13 de março de 2012 | 03h01

A indignação com o episódio da queima do Alcorão e com o assassinato de pelos menos 16 civis afegãos no domingo, supostamente por um único soldado americano, põe em risco o que o governo de Barack Obama considerava um plano bem organizado para 2012: acelerar o treinamento de forças afegãs para que elas possam assumir as missões de combate e, ao mesmo tempo, atrair o Taleban para negociações.

Obama e seus assessores esperavam que, a esta altura, os americanos já teriam convertido o Taleban numa força desgastada obrigada a aceitar negociações de paz e reconhecer que jamais poderiam retomar o poder. Mas, no domingo, representantes do Exército e do governo dos EUA reconheceram que os episódios dariam impulso às vozes mais radicais do Taleban - que não pretendem negociar com uma força prestes a deixar o país, preferindo usar os próximos dois anos para apelar à compreensível aversão nacional à ocupação estrangeira.

"O grande temor é o de que os incidentes, tomados em conjunto, sejam apropriados pela retórica do Taleban, segundo a qual maltratamos deliberadamente a religião e o povo do Afeganistão. E, por mais que saibamos o quanto essa versão é falsa, tal percepção negativa afeta o combate de maneira significativa", disse um membro do Exército dos EUA.

Os americanos descobriram isso no Iraque. Em 2005, fuzileiros navais assassinaram 26 iraquianos desarmados, incluindo mulheres e crianças, em Haditha - uma cidade na Província de Anbar. O episódio contribuiu para agravar um período que correspondeu a alguns dos piores meses da guerra. Ninguém prevê o mesmo resultado no caso afegão, em parte porque os EUA já deixaram absolutamente claro que estão de saída.

Na semana passada, em depoimento ao Senado, o almirante James G. Stavridis, comandante-geral das forças da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), declarou: "Acredito que teremos uma parceria duradoura entre a Otan e a República do Afeganistão" para além de 2014. A velocidade com que Washington reagiu à notícia das mortes no domingo sublinhou o grau de preocupação com a possibilidade de tal parceria tornar-se cada vez mais difícil de ser aceita pelo presidente Hamid Karzai, que há muito é acusado de mostrar excessiva subserviência aos americanos.

Tanto Obama quanto o secretário da Defesa americano, Leon Panetta, telefonaram para Karzai, prometendo uma investigação completa e manifestando seu pesar, além de garantir punição ao autor do crime. Na Casa Branca, o vice-conselheiro de Segurança Nacional, Benjamin J. Rhodes, reconheceu que os eventos no Afeganistão representavam "momentos dificílimos e extremamente comoventes, cuja superação exige muito tempo e esforço de ambos os lados".

Mas ele acrescentou que os EUA aprenderam com o incidente da queima do Alcorão. "Quando nossa resposta é apropriada, reforçamos a confiança que os afegãos depositam em nós", disse. Mas, para muitos americanos de ambos os partidos - até os que apoiaram a missão no Afeganistão -, os incidentes e a inevitável reação a eles apenas sublinham a necessidade de apressar a retirada de uma guerra cujo resultado parece hoje mais incerto do que quando Obama assumiu a presidência. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.