Um segundo Despertar Sunita?

Derrotar o Estado Islâmico exigirá grande esforço dos EUA, mas isso pode ser feito sem muitos soldados americanos

FAREED ZAKARIA, THE WASHINGTON POST/O Estado de S.Paulo

30 de agosto de 2014 | 02h02

Quais são as forças do Estado Islâmico (EI)? Fiz esta pergunta para dois observadores com profundo conhecimento da situação - um diploma europeu e um ex-funcionário americano de alto escalão - e o quadro traçado por eles é preocupante, embora não desesperador. Derrotar o grupo exigirá um grande e persistente esforço estratégico por parte do governo do presidente Barack Obama, mas que pode ser levada a cabo sem envolver um grande número de soldados americanos.

O diplomata europeu, com base no Oriente Médio, viaja sempre para a Síria e tem acesso ao regime e às forças de oposição. Ele concorda com a opinião quase unânime de que o Estado Islâmico adquiriu uma força militar e econômica considerável nos últimos meses. Ele calcula que o grupo vem arrecadando US$ 1 milhão por dia na Síria e o mesmo valor no Iraque com a venda de petróleo e gás (embora, segundo especialistas americanos, no caso do Iraque esse valor é exagerado).

A estratégia militar do Estado Islâmico é brutal, mas também inteligente. Relatórios detalham seus métodos e seus sucessos militares para impressionar seus financiadores e apoiadores. Os vídeos postados online das execuções são bárbaros, mas também estratégicos. Seu objetivo é semear o terror na mente dos oponentes que, no confronto em campo com os combatentes do EI, fogem em vez de lutar.

No entanto, para o diplomata, o aspecto mais perigoso do EI é seu apelo ideológico. O grupo tem recrutado jovens sunitas descontentes e marginalizados na Síria e no Iraque, que se sentem governados por regimes apóstatas. Este apelo ao orgulho sunita tem funcionado muito bem em razão das políticas sectárias adotadas pelos governos em Bagdá e Damasco. O Estado Islâmico, contudo, também consegue persuadir por causa do colapso de instituições e grupos moderados, seculares e até islamistas - como a Irmandade Muçulmana - por todo o Oriente Médio.

Desafio. Como enfrentar este desafio? Para o americano, antigo funcionário de escalão do governo, não devemos nos deixar dominar pelo pessimismo. "O Estado Islâmico não é tão forte como era a Al-Qaeda no seu auge no Iraque", observou ele, reduzindo a importância de notícias recentes segundo as quais as forças militantes contam com elementos aterradores do Exército dissolvido de Saddam Hussein.

"Combatemos esse Exército. Não impressionou tanto", disse ele. O EI pode ser derrotado, mas para isso será necessária uma ampla e persistente estratégia, como aquela adotada no reforço de tropas no Iraque.

"A primeira tarefa é política", e nesse sentido ele apoia os esforços da Casa Branca para pressionar o governo iraquiano a ser mais aberto, com a inclusão das minorias étnicas do país. "Hoje temos mais influência do que nos últimos anos e o governo a está usando."

O próximo passo será criar a mais poderosa e eficiente força de infantaria que consiga fazer frente ao Estado Islâmico - e que não seria uma espécie de Exército Sírio Livre, mas um Exército iraquiano reestruturado. Formado, treinado e equipado pelos Estados Unidos, seriam unidades de combate bastante eficientes", afirmou.

Ele destacou que foram essas forças que recapturaram a barragem de Mossul recentemente. O Exército vinha se saindo mal porque nos últimos três anos o então premiê Nuri al-Maliki transformou-o numa força totalmente leal ao regime.

A reorganização das unidades do Exército iraquiano vai exigir a demissão dos comandantes xiitas nomeados por Maliki. O que novamente espelha a fase do envio de reforço ao Iraque pelos EUA, período em que 70% dos comandantes iraquianos foram substituídos com o objetivo de criar uma força de combate mais poderosa, com soldados de todas as etnias do país.

Quando o Exército iraquiano se mostrar eficiente e combativo, deverá usar uma tática adotada também durante o período do reforço militar, de limpeza e controle de áreas. No entanto, a chave para isso será conquistar a confiança das populações sunitas locais.

Esta mesma estratégia pode ser adotada na Síria, com o Exército Sírio Livre oferecendo dinheiro e proteção para conseguir o apoio dos moradores que são contra Bashar Assad, mas agora estão aliados com o Estado Islâmico, mais por medo do que por convicção.

Desastre político. Os dois observadores concordam que existe um perigo crucial. A tentação de obter vitórias militares imediatas contra o Estado Islâmico pode significar que os EUA poderão acabar implicitamente se associando ao regime Assad na Síria. Caso em que haverá ganhos militares no curto prazo, mas será um desastre político no longo prazo.

"Isso alimentará a ideia de que os sunitas estão derrotados, uma aliança "cristã-xiita" os persegue e todos os sunitas devem resistir à invasão estrangeira", afirmou o diplomata. "O importante é os sunitas estarem na liderança da luta contra o Estado Islâmico. Eles têm de estar na frente da batalha."

A estratégia que pode funcionar contra o EI é nada menos do que um segundo Despertar Sunita. Um enorme desafio, mas, ao que parece, a única opção com uma plausível chance de sucesso. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

* É escritor e jornalista

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