Thomas Mukoya/Reuters
Thomas Mukoya/Reuters

Um terço da África já faz parte da classe média

Segundo estudo, pelo menos 34% dos africanos vivem com mais de US$ 2 por dia

Talita Eredia, O Estado de S.Paulo

29 de maio de 2011 | 00h00

Um estudo do Banco Africano de Desenvolvimento aponta que um em cada três africanos faz parte da classe média. Apesar de otimista, a avaliação mostra sinais alarmantes: dos 34% que conseguiram escapar da linha da pobreza, cerca de 20% ainda vivem com até US$ 4 por dia (cerca de R$ 6,50). Em busca de justiça social, essa nova parcela da sociedade é a maior responsável pelas revoluções populares.

Em três décadas, a classe média africana triplicou, passou de 111 milhões para 310 milhões. As conquistas, porém, são frágeis e estão longe de ser consolidadas. Segundo o relatório, os avanços são sustentados pela alta nos preços das matérias-primas, mais acesso à informação (principalmente a celulares e a internet) e pela forte migração da população rural para as cidades.

"A classe média impulsiona o dinamismo da economia, aumenta o consumo e está mais integrada no sistema financeiro. É um grupo com mais instrução, que tem mais consciência das desigualdades, como o desemprego. Esse grupo é crucial, já que exige seus direitos e catalisa mudanças democráticas, como as que ocorreram no Egito e na Tunísia, países com as maiores classes médias do continente", disse ao Estado Mthuli Ncube, vice-presidente do Banco Africano de Desenvolvimento.

A análise divide a classe média em três grupos: alta (vive com até US$ 20 por dia), baixa (entre US$ 4 e US$ 10) e a oscilante (entre US$ 2 e US$4), com mais risco de voltar à linha da pobreza. O valor é extremamente baixo se comparado com a classe média no Brasil, por exemplo. Ncube justifica que esse grupo oscilante tem mais oportunidades em comparação com os que estão abaixo da linha da pobreza (mais de 60% do continente).

A grande maioria da população africana ainda vive na miséria absoluta. Pelo menos 16% vive com menos de US$ 2 por dia e 44% (mais de 180 milhões de pessoas) sobrevive com menos de US$ 1,25 (cerca de R$ 2 por dia). A Libéria lidera o ranking da pobreza (86%). Em seguida, aparecem Tanzânia (82,4%), Burundi (81,3%) e Ruanda (74,4%). Sem garantias de segurança para realizar a pesquisa, Sudão, Líbia e Somália ficaram de fora do relatório.

No caso da Libéria, arrasada por mais de duas décadas de guerra civil, a classe média ainda está em reconstrução e deve ser formada por pequenos empresários e por alguns universitários. Sem grandes resultados, os cidadãos que fugiram do país devem demorar ainda para voltar.

Os países do Norte da África, palco dos movimentos por democratização, são os líderes no ranking da classe média. A Tunísia tem a maior porcentagem (89,5%, sendo que quase 44% desse total são considerados oscilantes). Em segundo lugar aparece o Marrocos (84,6%) e o Egito (79,7%).

Na África do Sul, maior economia do continente, a classe média representa 43,2% da população, dos quais 23,5% são oscilantes. Em geral, o grupo tem residência fixa com água encanada, saneamento, eletricidade e sistema de telefonia.

De acordo com o estudo, depois da implementação da política de ação afirmativa conhecida como Black Economic Empowerment, na década de 90, o país desenvolveu uma classe média negra com maior poder aquisitivo do que os brancos. Ainda assim, cerca de 20% da população vive abaixo da linha de pobreza.

A Nigéria, país africano mais populoso, tem somente 22% de seus cidadãos incluídos na classe média. A origem do grupo, porém, está na nova expansão do setor privado: indústrias, telecomunicações e serviços terceirizados em áreas urbanas.

Impulso. O relatório estima que o crescimento da classe média deve incentivar a chegada de novas companhias privadas ao país, principalmente estrangeiras. De olho no mercado consumidor, elas devem contribuir para a criação de empregos e garantir maior estabilidade às economias africanas. O vice-presidente do Banco de Desenvolvimento Africano aposta ainda nos investimentos domésticos e no crescimento das pequenas empresas, ainda que de forma lenta.

Sem investimentos externos, a África Subsaariana concentra os menores índices de crescimento. Na região, Gabão e Botsuana, ricos em petróleo e diamantes, foram os primeiros colocados no ranking da classe média (46,6% e 47,6, respectivamente.

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