Kevin Coombs/ Reuters
Kevin Coombs/ Reuters

Um teste para a dama de lata

A premiê britânica brinca de dama de ferro, por isso é importante ter parlamentares que evitem uma saídadestrutiva da União Europeia

Timothy Garton Ash*, O Estado de S.Paulo

08 de junho de 2017 | 05h00

Ao votar hoje, os eleitores britânicos têm de entender que a Grã-Bretanha está correndo riscos nas negociações com a União Europeia (UE). Uma vez que o Brexit é decisivo para a Grã-Bretanha nos próximos cinco anos, os britânicos devem dar prioridade à eleição de um Parlamento que dê ao Reino Unido o menos ruim dos acordos com o Brexit e mantenha o país na UE o maior tempo possível até que o acordo seja concretizado. Portanto, os britânicos pró-europeus têm de votar estrategicamente.

Antes, porém, uma palavra sobre esses riscos que se aproximam rapidamente. Conversei nas últimas semanas com alguns líderes europeus. Foi chocante: todos disseram que as conversações sobre o Brexit entre os britânicos e os 27 membros restantes da UE provavelmente vão fracassar. Os riscos de fracasso? 90 %, segundo um dirigente; 60%, de acordo com outro. Isso poderia ocorrer ainda nos próximos seis meses, antes de um novo governo alemão tomar posse, girando em torno de quanto o Reino Unido deve pagar à UE por seu excepcional comprometimento. No momento, o Reino Unido precisa de uma Câmara dos Comuns que diga: “Segura aí, primeira-ministra. Nenhum acordo é pior que um mau acordo - portanto, volte à mesa de negociações”.

Pressão. Mesmo que as conversas não terminem em ruptura, a melhor chance de os eleitores influenciá-las é manter os parlamentares sob vigilância e pressão. Certamente, não podem confiar nessa primeira-ministra para chegar ao melhor acordo. Theresa May, líder do Partido Conservador, diz que se trata da eleição do Brexit, a mais importante de sua vida, mas não consegue dizer como será esse Brexit. Ela afastou os parceiros negociadores da UE com sua patética retórica subcriptochurchiliana de enfrentar os “agressivos” europeus, desperdiçando assim a boa vontade criada por sua abordagem inicialmente construtiva.

May não perde a oportunidade de perder uma oportunidade. Ela se apresenta como uma nova dama de ferro, mas na verdade é feita de lata. Uma vez que os britânicos não podem confiar em sua dama de lata, eles precisam de um Parlamento que defenda os interesses nacionais. Sim, há grandes diferenças políticas entre os partidos e numa eleição normal isso pode ser decisivo. Mas esta não é uma eleição normal.

Como, então, votar estrategicamente? Há duas escolas online que orientam o eleitor. A escola da aliança progressiva, que inclui o website More United e o guia tático de voto do Guardian, procura em cada distrito eleitoral o candidato alternativo mais progressista entre os tories (conservadores). O site The Best for Britain, fundado por Tina Miller, a empresária britânica que conquistou fama ao ganhar um julgamento no Supremo sobre a saída britânica da UE, e o site In Facts, comandado pelo jornalista e marqueteiro Hugo Dixon, oferecem orientações detalhadas com base na posição dos candidatos sobre a questão europeia. Os eleitores só precisam entrar com o código postal ou nome do distrito eleitoral para os websites sugerirem em quem votar naquele distrito com a melhor chance de evitar um Brexit extremo e destrutivo.

Onde quer que os Liberal Democratas (Lib Dem) pró-europeus ou os verdes tenham uma chance de vencer, devem ser apoiados. O pedido do Lib Dem de um segundo referendo sobre o resultado das negociações do Brexit tem poucas chances de vingar, mas é importante que exista. Escócia e Irlanda do Norte são casos a parte, com seus partidos nacionalistas celtas fortemente pró-europeus: Partido Nacional Escocês (SNP), Sinn Fein, da Irlanda do Norte, e o muito mais fraco Plaid Cymru, do País de Gales.

In Facts traz uma lista de 9 parlamentares trabalhistas pró-Brexit e outra de 64 trabalhistas pró-Europa que vêm trabalhando ativamente contra um Brexit destrutivo. Segue-se uma lista de parlamentares trabalhistas que apoiaram o anti-Brexit, mas mudaram de lado para seguir o líder trabalhista Jeremy Corbyn e sua política em cima do muro de “o povo decidiu assim”.

Diferentemente de outros sites, In Facts recomenda votar em 14 candidatos conservadores decididamente pró-Europa em distritos em que partidos mais pró-europeus não tenham chance, assim como em dois candidatos conservadores onde a escolha é entre tories anti-Brexit e o Partido pela Independência do Reino Unido (Ukip). Obviamente, os grupos da aliança progressista não vão tão longe. O Best for Britain não consegue apoiar um tory. Ou recomenda um outro partido, acrescentando “votar em candidato conservador é como desafiar o Brexit extremo”, ou, no caso de Chelmsford, diz timidamente “a ser decidido”.

Se o momento da campanha leva o trabalhismo para uma posição na qual pode governar, em coalizão ou num governo minoritário tolerado, com apoio dos Lib Dems e do SNP, a boa notícia é que a Grã-Bretanha terá o excelente trabalhista Keir Starmer, ex-diretor do Ministério Público que agora lidera o partido na Europa, e os partidos pró-europeus que o apoiam, para conduzir as negociações do Brexit . Se, no entanto, um voto estratégico para candidatos tories pró-Europa resultar num retorno conservador com uma maioria muito estreita, isso poderia potencialmente ser o pior resultado de todos.

Pois a dama de lata seria, então, refém de seus “bastardos” eurocéticos de linha dura - para usar o conhecido termo técnico do ex-primeiro-ministro John Major. E Corbyn provavelmente continuaria como líder trabalhista sem chances concretas de vencer a próxima eleição.

Mas se alguém acha que os tories vão voltar ao governo, e com uma sólida maioria, então será verdadeiramente importante ter parlamentares que falem abertamente, como o conservador pró-europeu Ken Clarke, Nicholas Soames, neto do conservador pró-europeu Winston Churchill), Anna Soubry e Dominic Grieve, para corrigir a rota dos muitos colegas do anti-Brexit que se alinham sem críticas ao desastroso rumo do Brexit de May. Se e quando se chegar a um colapso nas conversações com os parceiros europeus do Reino Unido, ou pelo menos a uma encruzilhada, essas fileiras cinzentas dos eleitores favoráveis ao anti-Brexit que agora querem desistir vão precisar de conselhos amigos para ajudá-los a redescobrir uma parte atualmente ausente de sua anatomia: a espinha dorsal. Fico feliz de não ter de fazer uma escolha tão difícil em meu distrito de Oxford West e Abingdon, onde um Lib Dem tem fortes chances de depor o atual tory; mas, se tivesse de escolher, acho que taparia o nariz e votaria para o tory pró-europeu.

Esta eleição será única. Os eleitores britânicos têm de pôr o país na frente dos partidos e votar estrategicamente, para impedir a Grã-Bretanha de colidir com os obstáculos do Brexit. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

*É PROFESSOR DE ESTUDOS EUROPEUS NA UNIVERSIDADE OXFORD

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