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Um traje político

E o que é o 'burkini'? Confesso que ignorava sua existência até estes últimos dias, quando prefeitos de algumas cidades o proibiram

Gilles Lapouge, O Estado de S. Paulo

18 Agosto 2016 | 05h00

Como em todo mês de agosto, a França vai à praia. De Saint Tropez, no sul, a Dauville, no norte, todo mundo está na areia, sob o sol dourado e o céu azul. Em suma, o paraíso. Mas, neste ano, surgiram problemas no paraíso. O responsável: o “burkini”. E o que é o “burkini”? Confesso que ignorava sua existência até estes últimos dias, quando prefeitos de algumas cidades o proibiram. 

Trata-se de um traje de banho. Mas que ninguém confunda “burkini” com biquíni, este, o maiô de duas peças que permite admirar a pele das mulheres. Na verdade, o “burkini” é o contrário: esconde a pele. “Burkini” é um maiô islâmico composto de uma túnica, com mangas longas, usada sobre uma calça que vai até os pés. Completando o traje, há uma touca que só deixa ver o rosto.

O “burkini” foi inventado em 2003 por uma australiana de origem libanesa que fez fortuna. A sacada do traje é permitir às muçulmanas respeitar os preceitos do Alcorão enquanto usufruem os prazeres da praia. Mas pode-se ver o “burkini” com outros olhos, os da política. Esses são os olhos dos prefeitos que proibiram o traje. São também os do premiê Manuel Valls, que aprovou a proibição.

Na verdade, a ofensiva da França contra o “burkini” faz parte da luta de morte que o país declarou contra o terrorismo após os atentados do Estado Islâmico: ataque contra o Charlie Hebdo, massacre de 14 de julho, em Nice, etc. O argumento é claro: a França é um país laico, que proíbe a exibição em público de qualquer sinal de crença religiosa. Se queremos combater o terrorismo, é preciso proibir as mulheres de usar “burkini”.

Na França, algumas manifestações apoiaram essa nova batalha contra o fanatismo (não muitas). Mas, no exterior, o clima é de estupefação. A França decidiu legitimamente enfrentar os assassinos do EI. Mas, daí a incluir o “burkini” no arsenal jihadista, só o cérebro de um francês para bolar tal besteira! O sisudo New York Times rolou de rir: “A França acaba de descobrir a última ameaça a sua segurança: o ‘burkini’”.

Os britânicos foram mais cáusticos. Para o Telegraph, “é de uma estupidez granítica, um ato de fanatismo”. O Guardian pergunta o que é mais perigoso, “um maiô que esconde os seios e as nádegas ou um biquíni que mostra o contorno dessas nádegas”.

Entre os estrangeiros que aprovaram o comportamento inflexível da França estão algumas vozes muçulmanas. Por exemplo, o egípcio Aalam Wassef, editor e escritor. Para ele, o “burkini” mostra o avanço das ideias wahabitas no Ocidente, sendo o wahabismo uma doutrina raivosa nascida na Arábia Saudita, mais conhecida no Ocidente como salafismo – o mesmo salafismo que está por trás das pregações fanáticas.

“Em 2016”, escreveu Wassef, “uma mulher saudita não pode andar desacompanhada de um homem, tem de cobrir todo o corpo e não dirige. Seu comportamento em público e sua aparência são os parâmetros pelos quais se afirma a dignidade do marido.” A análise de Wassef explica que os movimentos feministas franceses são na maioria hostis ao “burkini”.

Isso traz algumas complicações. Ocorre que muitos movimentos feministas são de esquerda e defendem a integração dos muçulmanos na França, além da tolerância com as minorias. Mas as feministas, como mulheres, não podem aprovar esse traje, que é a marca da condição humilhante das mulheres na Arábia Saudita. 

A análise de Wassef é lógica e justa. Não podemos deixar de denunciar o obscurantismo e o antifeminismo degradante que se esconde por trás do uso do “burkini” nas praias francesas. Mas seria isso uma razão para se acreditar que o fato de algumas mulheres, em lugar do biquíni, usarem o “burkini”, abra caminho para massacres? / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

*É CORRESPONDENTE EM PARIS

 

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