Um trem para a terra inca

A revolução andina está em curso. Nada tem a ver com o movimento bolivariano, do comandante venezuelano Hugo Chávez, nem tampouco com o nacionalismo inflamado do presidente peruano, Ollanta Humala. Em vez de tiros e tanques, a mais nova revolta latino-americana anuncia-se com uma fumacinha, o simpático apito de trem e um cheirinho de livre concorrência.

É COLUNISTA DO ESTADO, CORRESPONDENTE DA REVISTA NEWSWEEK, EDITA O SITE WWW.BRAZILINFOCUS.COMMAC MARGOLIS, É COLUNISTA DO ESTADO, CORRESPONDENTE DA REVISTA NEWSWEEK, EDITA O SITE WWW.BRAZILINFOCUS.COMMAC MARGOLIS, O Estado de S.Paulo

27 Maio 2012 | 03h06

O levante mal começou mas já mexeu com um império, o portento de lazer e luxo Orient Express. A legendária empresa centenária toca desde 1882 uma carteira imperiosa de ativos, como navios, restaurantes, trens e hotéis de alto quilate como o Copacabana Palace. Sua linha Paris-Istambul inspirou o clássico de suspense de Agatha Christie, Assassinato no Expresso do Oriente. A marca sempre foi referência obrigatória para requinte e conforto. E monopólio.

Há uma década, quando fincou sua bandeira nos Andes, o grupo britânico controla o transporte de turistas de Machu Picchu. A cada ano, um milhão de visitantes passam pela cidadela sagrada peruana. Todos eles pelos trilhos. Mesmo os intrépidos trekkers que encaram o Caminho Inca regressam no trem.

Ou seja, a Cidade Perdida é um achado para o baronato ferroviário. E barão não gosta de concorrência. Que o diga Nicholas Asheshov, um jornalista inglês que vive a maior parte da sua vida na América Latina.

Correspondente premiado e editor de importantes publicações, como a antiga South Pacific Mail, Nick - como é conhecido - resolveu se diversificar e, em 1995, comprou um pequeno hotel no vale do Urubamba, a meio caminho entre Cuzco e Machu Picchu. O hotel, por sorte, também abrigava uma estação de trem desativada que, após uma bela reforma, Nick pôs a serviço dos peregrinos de Machu Picchu. A operadora da linha era a Orient Express, concessionária exclusiva na época.

A parceria começou bem. O hotel entrava com um bloco garantido de passageiros e a Orient, com os vagões. O momento era ideal. Após décadas de instabilidade, guerrilha e caudilhismo, o Peru se aprumava. Os turistas voltaram e no seu encalço, os investidores. O fluxo de visitantes para Cuzco e Machu Picchu triplicou desde 1980.

Os problemas começaram em 2005 quando Nick vendeu o hotel ao poderoso grupo peruano Brescia, donos da marca de hotéis Libertador, e fundou sua própria transportadora, a Andean Railways Corp. Quis aprimorar o serviço, com vagões de primeira classe e aumentar a frequência dos trens, que sob o acomodado reino da Orient se limitava a uma volta por dia. Foi a senha para a guerra.

Para não perder seu poder monárquico, a Orient Express jogou pesado. Contratou um exército de advogados e a partir de 2007 lançou mais de 30 processos e liminares contra os atrevidos rivais, paralisando a concorrência. A batalha de nervos durou quatro anos, custou Nick e seus sócios quase US$ 2 milhões em honorários e chegou ao Tribunal Constitucional, instância máxima peruana.

Mas a Orient Express era um inca fora de época. A Justiça peruana quebrou o monopólio e hoje são três as operadoras na ferrovia. O primeiro vagão do Machu Picchu Train partiu de Ollantaytambo em agosto de 2010, ao aplauso caloroso de notáveis e autoridades, como o ministro de Transportes Enrique Cornejo e o chanceler José Antonio García Belaunde.

A disputa por passageiros fez bem à região. O boom de turistas continua. Hotéis cinco estrelas, bares e restaurantes refinados brotam em Cuzco e no Vale Sagrado. Quem agradece é a própria Orient Express, que embora com mercado (ligeiramente) menor, inaugurará um novo spa de luxo em Cuzco. E se o outrora monopolista não agradece aos concorrentes, tampouco consegue ignorá-los. "Somos barões rivais", brinca Nick. "Sentamos nas respectivas varandas fumando charuto e levantando o chapéu um para o outro."

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