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Um vazio sem os EUA

"A questão não é se os EUA continuarão liderando, mas como vão liderar para garantir nossa paz e prosperidade e também para estender a paz e a prosperidade para todo o globo." Foi o que afirmou o presidente Barack Obama durante seu recente discurso, muito aguardado, sobre o futuro da política externa americana. Embora algumas pessoas, dentro e fora dos EUA, estejam felizes com o fato de o país agir menos, outros se mostram contentes quando ouvem o presidente prometer que continuará exercendo uma liderança que só uma superpotência global é capaz.

Ian Bremmer, O Estado de S.Paulo

22 de junho de 2014 | 02h01

Somente um líder pode fazer com que as regras sejam cumpridas, forçar acordos mútuos e garantir a segurança da qual a estabilidade econômica e geopolítica dependem.

Liderança. Esta é uma questão fundamental, pois hoje não existe nenhum governo - tampouco uma aliança durável de governos - pronto para preencher o vazio deixado se os EUA se retirarem. A Europa estava concentrada em administrar as mudanças dentro da zona do euro mesmo antes de as eleições parlamentares revelarem a crescente frustração da sociedade com relação à governança europeia. China e Japão estão totalmente ocupados com projetos de reforma doméstica arriscados. Outros poderes emergentes, como Índia, Brasil, Turquia, etc., também estão às voltas com problemas internos. Esses países podem ajudar, mas nenhum conseguirá liderar.

Independente daquilo que o presidente afirmou, existem diversos fatores limitando a capacidade de Washington de enfrentar os novos desafios - na Ucrânia, Síria, Mar da China Meridional e no ciberespaço.

Em primeiro lugar, os líderes políticos em muitos países em desenvolvimento importantes sabem que estarão ainda no poder bem depois da partida de Obama, cuja influência vai diminuir bastante tão logo Hillary Clinton e alguns republicanos conhecidos anunciarem sua candidatura à presidência. E isso torna esses líderes estrangeiros menos dispostos a colocar em risco a popularidade política doméstica apoiando os planos do governo Obama.

Polarização. Em segundo lugar, o governo de Washington continua a prejudicar a reputação internacional dos EUA. A polarização política observada no país tem corroído a confiança na capacidade do presidente de cumprir suas promessas. O uso de drones pelos EUA arruinou as relações com alguns aliados e a tolerância de Obama (ou ignorância) com relação à espionagem praticada pelos EUA, mesmo de líderes de governos amigos, distanciou outros ainda mais. Ficou mais difícil defender uma cooperação internacional mais estreita no ciberespaço quando os EUA espionam secretamente a chanceler da Alemanha (Angela Merkel) e a presidente do Brasil (Dilma Rousseff).

Num mundo onde nenhuma potência individual, nem os EUA, tem tanta influência a ponto de convencer outros países a fazer coisas que, do contrário, não fariam, mesmo uma superpotência necessita de parceiros capazes, com os mesmos ideais e dispostos a compartilhar as responsabilidades da liderança.

Em razão da impopular guerra iniciada por George W. Bush no Iraque e a aparente política de dois pesos e duas medidas do governo Obama, o ceticismo demonstrado por aliados tradicionais dos EUA chegou a um patamar jamais visto desde o final da Guerra Fria.

E o mais importante é que muitos americanos não querem uma política externa mais ativa. Uma pesquisa da Pew Research publicada no início do ano concluiu que para uma porcentagem recorde dos entrevistados (52%) os EUA "devem se importar com os próprios problemas e deixar que outros países cuidem o melhor possível dos seus", em comparação com os 30% em 2002. Obama foi eleito para pôr fim a velhas guerras e não iniciar novas e os eleitores manifestam pouca disposição para mobilizar soldados ou recursos americanos para resolver problemas remotos e de difícil compreensão.

O resultado lamentável é que Washington agora tem enviado sinais contraditórios para a população americana e para o mundo. Os eleitores ainda gostam de ouvir que os EUA são um país poderoso e "excepcional". É fácil para os políticos dos dois grandes partidos afirmarem isso. Mas os americanos discordam vigorosamente quanto ao que torna seu país excepcional ou como a força do país deve ser usada. Em consequência, as promessas feitas por autoridades eleitas de que os EUA continuarão sendo uma nação indispensável não coincidem com a relutância do país em assumir os custos e os riscos onde as ameaças à segurança nacional americana não são óbvias.

Prioridades. O governo Obama aumentou mais a confusão ao enviar mensagens contraditórias sobre suas prioridades no campo da política externa. O tão alardeado "pivô para a Ásia", um plano para mudar os recursos militares, econômicos e políticos para a Ásia Oriental, continua. Mas o foco do governo na Rússia, no Irã e uma iniciativa malfadada no sentido de um acordo entre israelenses e palestinos que, ao que parece, ninguém deseja, sugere uma Casa Branca aturdida.

O resultado é que os aliados dos EUA não sabem onde e quando Washington prestará ajuda, seus rivais estão ávidos para testar os limites da determinação americana e os eleitores americanos não sabem em quem estão votando. Num mundo que já carece de lideranças, incêndios devem eclodir, mais violentos e mais longos do que no passado. O que não é uma boa notícia para ninguém. / Tradução de Terezinha Martino 

*Ian Bremmer é presidente do Eurasia Group e professor de pesquisa global na Universidade de Nova York

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