Um vizinho incômodo para Pequim

Relacionamento com a Coreia do Norte confunde a diplomacia da China, que hesita entre a indulgência e o envio de sinais ocasionais de irritação

Ian Johnson, Michael Wines / THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

25 de novembro de 2010 | 00h00

Análise

Apesar do empobrecimento e da enorme dependência da ajuda e do apoio chineses, a Coreia do Norte parece desafiar sistematicamente toda iniciativa diplomática chinesa, desde as ações de Pequim para manter a Península Coreana livre da bomba até seus esforços para impedir um confronto violento.

A influência global da China cresce de maneira persistente. Mas o relacionamento com a Coreia do Norte, sua vizinha comunista e às vezes aliada, confunde até os líderes chineses, que hesitam entre mostrar certa indulgência e enviar sinais ocasionais de irritação. "No momento, a China exerce uma influência limitada", afirmou Cai Jian, professor de Estudos Coreanos na Universidade Fudan. "Por um lado, não está satisfeita com as ações provocadoras da Coreia do Norte, mas, por outro, ainda precisa apoiá-la ."

Cai diz que o presidente chinês, Hu Jintao, instou o líder norte-coreano, Kim Jong-il, a melhorar a comunicação para que a China não seja surpreendida por seu comportamento. A isso seguiu-se a advertência feita por um dos principais expoentes do governo chinês, Zhou Yongkang, que no mês passado fez uma visitou o país. Zhou teria dito a Kim que a China apoiará a sucessão do seu filho, Kim Jong-un, mas alertou que a Coreia do Norte precisa adotar medidas para abrir sua economia a fim de reduzir as pressões econômicas externas. Nenhum dos nove principais líderes chineses mantém vínculos estreitos com a Coreia do Norte. E a China tem pouca simpatia pelo sistema de dinastia comunista. Muitos na China acham que ela escapou disso quando o filho de Mao Tsé-tung foi morto na Guerra da Coreia.

Apesar dos seus esforços para aceitar o sistema político norte-coreano e suas idiossincrasias, a China aparentemente foi apanhada desprevenida pelos recentes acontecimentos. A notícia de que Pyongyang construiu uma sofisticada usina de enriquecimento de urânio foi recebida com incredulidade pela imprensa chinesa. O bombardeio norte-coreano da ilha sul-coreana provocou mais do que um choque. Na terça-feira, autoridades chinesas indicaram que não tinham conhecimento prévio do fato disseram que precisavam verificar a notícia.

A China pediu também que fossem retomadas as conversações diplomáticas. Mas praticamente nenhum analista chinês crê que isso dará algum resultado enquanto Pyongyang não se dispor a negociar em vez de fazer exigências - a exigência atual seria que o mundo a reconheça incondicionalmente como potência nuclear plena. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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