AFP PHOTO / TIMOTHY A. CLARY
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Uma agressividade seletiva

Trump foi seletivo em sua visão de maus atores – Coreia do Norte, Irã, Cuba, Síria e Venezuela –. cuja soberania não merece ser respeitada

Greg Jaffe e Karen DeYoung / THE WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

19 Setembro 2017 | 21h24

O presidente Trump insistiu no princípio da soberania nacional em seu primeiro discurso nas Nações Unidas na terça-feira, mas frequentemente delineou uma agenda que manterá os Estados Unidos profundamente engajados no mundo.

Em alguns momentos, Trump apresentou sua presidência como modelo da renovação internacional, forjado em sua peculiar visão de liderança global. Ele descreveu o mundo como fraco e dividido, mas sugeriu que um renovado espírito patriótico e amor ao país curaria a maior parte das doenças internacionais.

“A verdadeira pergunta para as Nações Unidas hoje, e para todo o mundo é basicamente uma”, disse ele. “Vocês ainda são patriotas? Ainda amam seus países o bastante para proteger sua soberania e e assumir seu futuro?”

Trump foi seletivo em sua visão de maus atores – Coreia do Norte, Irã, Cuba, Síria e Venezuela –. cuja soberania não merece ser respeitada. Pouco mencionou China e Rússia, congratulando-se com ambos por seu recente voto na ONU por mais sanções, e fez apenas uma menção passageira à Ucrânia.

O discurso foi animado por uma belicosidade e intimidação inusuais para os padrões do órgão mundial,  mas que vêm se tornando um modelo de abordagem doméstica de Trump. Ele disse que se os Estados Unidos forem compelidos a se defender ou a seus aliados, isso poderia acabar com a Coreia do Norte,  política, aliás,  articulada por administrações anteriores,embora não nesses termos de Dr. Strangelove.

“O homem-foguete está numa missão suicida para si e para seu regime”, afirmou, numa referência depreciativa ao líder norte-coreano, Kim Jong-un.

Imediatamente após a ameaça “destruir” a Coreia do Norte, Trump pôs o Irã na categoria dos que merecem intervenção. “Já passou o tempo de as nações do mundo confrontarem outro regime imprudente”, disse ele. “O governo iraniano disfarça uma ditadura corrupta com um falso ar de democacia.”

Ele qualificou o Irã de “regime assassino” cujas atividades desestabilizadoras no mundo têm de ser interrompidas. A definição de soberania de Trump parece sugerir que os Estados Unidos poderiam recuar no acordo internacional nuclear com Teerã, medida que assustaria seus aliados que também participam do acordo.

“Esse acordo é um embaraço para os Estados Unidos, e não acho que vocês já ouviram tudo sobre ele, acreditem”, afirmou.

Num desconcertante ataque contra o comunismo e o socialismo, Trump limitou suas críticas a Cuba e Venezuela, ignorando a China, o gigante comunista mundial. “Da União Soviética a Cuba e à Venezuela, onde quer que o verdadeiro socialismo ou comunismo tenha sido adotado provocou angústia, devastação e má gestão”, afirmou.

Seu governo, disse ele, tem  “se levantado contra o corrupto e desestabilizador regime de Cuba” ao defender a manutenção das sanções. Trump disse que a política cubana decorre da abertura comercial e de viagens instituídas pela administração Obama. As sanções remanescentes não podem ser levantadas pelo Executivo, só pelo Congresso.

Trump atribuiu o quase colapso da Venezuela mais à imposição de uma “ditadura socialista” que ao autoristarismo e corrupção denunciados por alguns especialistas. Ele prometeu que os EUA adotariam “novas ações” se o governo venezuelano “continuar nesse caminho”.

“Nosso respeito à soberania é também um chamado à ação”, afirmou.

Numa antecipação do discurso para repórteres, um alto funcionário da Casa Branca descreveu-o como “uma abordagem profundamente filosófica” sobre “como os Estados Unidos se encaixam no mundo, como trabalham e quais são seus valores”.

Esses têm sido temas de debates geralmente intensos uma Casa Branca dividida entre tradicionalistas da política exterior e conselheiros de Trump do tempo de campanha. Os instintos iniciais de Trump frequentemente tendiam a invalidar a política externa americana – ou pelo menos a questionar os princípios básicos que a orientavam – andes de voltar para uma visão mais tradicional.

O discurso, com seu tributo aos princípios da soberania e patriotismo, ecoam muito da linguagen nacionalista que animaram a campanha do presidente. Mas a fala às Nações Unidas salientou um papel bem mais expansivo  - embora contraditório – dos Estados Unidos no mundo que a anterior visão de Trump de “a América primeiro” parecia sugerir.

Como a ênfase de Trump em soberania vai repercutir nos assuntos mundiais é difícil prever. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

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