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Após a guerra no Afeganistão, uma aliança insólita

O Taleban quer governar o Afeganistão; já o EI-K luta pela criação de um califado islâmico

Lourival Sant'Anna, O Estado de S.Paulo

05 de setembro de 2021 | 05h00

O chefe do Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas americanas, general Mark Milley, admitiu na quarta-feira ser “possível” que os EUA cooperem com o Taleban no combate ao Estado Islâmico Khorasan (EI-K). Foi mais um de uma série de sinais emitidos pelos americanos nessa direção, para a perplexidade de muitas pessoas comuns, para quem os taleban só podem ser alvo de hostilidade.

Milley serviu três vezes no Afeganistão, onde foi comandante tanto das forças americanas quanto da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). Em entrevista coletiva no Pentágono, ao lado do secretário de Defesa, Lloyd Austin, o general lembrou que sabe por experiência própria o quanto o Taleban é um grupo “impiedoso”, e acrescentou: “Se eles mudarão ou não, resta ver”. 

Cidadãos comuns têm dificuldade de entender algo sobre as guerras: só se faz a paz com o inimigo. Depois de 20 anos de guerra contra os taleban, a mais longa da história dos EUA, e da caracterização do grupo como “terrorista”, muitos não veem sentido nessa possibilidade de cooperação.

Mas a verdade é que ela já tem ocorrido, no campo militar. Reportagem da CNN mostrou que militares dos EUA, incluindo integrantes das forças especiais, organizaram sigilosamente com os taleban uma operação de retirada de Cabul de cidadãos americanos e afegãos. 

A operação envolveu um portão secreto no aeroporto e um call center, por meio do qual os taleban guiavam as pessoas. Elas diziam onde estavam exatamente, e eles davam instruções sobre para onde ir. “Na guerra, você faz o que tem de fazer para reduzir o risco à missão e à força, não necessariamente o que deseja fazer”, explicou Milley.

Há interesses convergentes e divergentes em jogo, e o peso de um e de outro determinará o futuro dessa colaboração. Americanos e Taleban têm um inimigo comum: o EI-K, autor do atentado do dia 26 que matou 13 militares americanos e 170 civis afegãos do lado de fora do aeroporto. O grupo também lançou seis foguetes no dia 30 contra o aeroporto, cinco dos quais foram interceptados pela bateria americana antimísseis. O sexto caiu fora do alvo. 

Embora ambos professem a interpretação fundamentalista do Islã, não há dúvidas de que os dois grupos disputam poder e têm visões ideológicas distintas. O objetivo do Taleban sempre foi governar o Afeganistão. Já o EI-K, assim como a organização à qual está filiado, o Estado Islâmico no Iraque e no Levante, luta pela criação de um califado muçulmano por sobre as fronteiras nacionais. 

Mas o Taleban é um movimento heterogêneo, não vertical. Dentro dele, há diversos grupos, com diferentes visões e sentimentos. O EI-K pode ter militantes infiltrados no Taleban, ou simpáticos a sua causa. Isso pode ter contribuído para o êxito do atentado do dia 26, embora fontes do Pentágono tenham garantido que, graças a inteligência compartilhada entre americanos e taleban, vários ataques do EI-K foram evitados.

Durante a tomada de Cabul, combatentes taleban soltaram 5 mil presos do EI-K e da Al-Qaeda do centro de detenção de Parwan, na base aérea de Bagram, e outros milhares da prisão de Pul-e-Charkhi, a maior do país. Entre eles, havia ao menos centenas de integrantes do EI-K. Os taleban executaram sumariamente nove de seus líderes, mas deixaram ir embora o restante.

Além disso, o Taleban é aliado da rede Haqqani, considerada pela Direção Nacional de Inteligência dos EUA o grupo terrorista “mais letal e sofisticado” em atuação no Afeganistão, e da Al-Qaeda. O novo governo afegão terá de se afastar de forma convincente desses grupos, ou provar que eles não oferecem mais riscos para os EUA e para a Índia, principal aliado americano na região. Afinal, todos esses grupos foram criados no Paquistão, no contexto da rivalidade com a Índia. 

*É COLUNISTA DO ESTADÃO E ANALISTA DE ASSUNTOS INTERNACIONAIS

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