Uma ameaça à língua de Jesus?

Avanço do grupo radical islâmico no Iraque representa um risco aos que ainda falam aramaico

Ross Perling/Foreign Policy, O Estado de S.Paulo

20 de agosto de 2014 | 02h01

Qaraqosh, Tel Kepe e Karamlesh são apenas três das cidades iraquianas nas planícies de Nínive capturadas no início de agosto pelo Estado Islâmico, mas elas representam a última grande concentração de falantes de aramaico do mundo. Seguindo para o nordeste de Mossul na direção do Curdistão, o grupo jihadista agora ocupa o antigo coração do Iraque cristão.

Segundo funcionários da ONU, aproximadamente 200 mil cristãos fugiram de suas casas nas planícies de Nínive na noite de 6 de agosto, temendo que combatentes do Estado Islâmico os expulsassem, matassem ou obrigassem a se converter.

A extinção de uma língua em sua terra natal raramente é um processo natural e quase sempre reflete as pressões, perseguições e discriminações sofridas por seus falantes. O linguista Ken Hale famosamente comparou a destruição de uma língua a "soltar uma bomba sobre o Louvre" - padrões de pensamento inteiros, maneiras de ser e sistemas completos de conhecimento estão entre as perdas. Se o último falante de aramaico morrer daqui a duas gerações, a língua não terá desaparecido de causas naturais.

O aramaico cobre um amplo leque de línguas e dialetos semitas, todos afins, mas em geral mutuamente incompreensíveis, agora em sua grande maioria extintos ou ameaçados. As últimas estimativas disponíveis do número de falantes de aramaico, dos anos 90, situa a população em até 500 mil, metade dos quais estariam no Iraque.

Hoje, o número real provavelmente é muito inferior: os falantes estão espalhados pelo globo, e cada vez menos crianças estão falando a língua. É uma queda considerável para uma língua que já foi universal. Falado inicialmente há mais de 3.000 anos pelos arameus nômades no que hoje é a Síria, o aramaico alcançou proeminência como língua no império assírio. Ele era o inglês de sua época, uma língua franca falada da Índia ao Egito. O aramaico sobreviveu à ascensão e à queda de impérios, floresceu sob o poder babilônio e de novo sob o 1.º Império Persa no século 6 a. C. Milhões o usaram em comércio, diplomacia e na vida cotidiana. Mesmo depois que Alexandre, o Grande, impôs o grego em seus vastos domínios no século 4 a. C., o aramaico continuou a se difundir - por exemplo na antiga Palestina, onde substituiu gradualmente o hebraico falado.

Há quase três milênios de registros contínuos do aramaico; somente o chinês, o hebraico e o grego tiveram um legado escrito tão longo. Para muitas religiões, o aramaico teve um status sagrado ou quase sagrado. Ele é a presumida língua-mãe de Jesus que, segundo o Evangelho de Mateus, teria dito na cruz: "Eli, Eli, lama sabachtani?" ("Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?"). Ele veio a ser usado no Talmude judaico, nas igrejas cristãs orientais (onde é conhecido como siríaco), e como linguagem ritual e de todo o dia dos mandeanos, a minoria etnorreligiosa no Irã e no Iraque.

Séculos depois de Alexandre, o aramaico continuou a se manter em boa parte do Mediterrâneo oriental e no Oriente Médio. Foi somente depois que o árabe começou a se espalhar pela região, no século 7 de nossa era, que os falantes de aramaico recuaram para comunidades montanhesas isoladas. Os falantes destes variados dialetos "neoaramaicos" eram principalmente judeus e cristãos no que é hoje o norte do Iraque (incluindo o Curdistão), noroeste do Irã, e sudeste da Turquia. A maioria dos cristãos falantes de aramaico se referem a si mesmos como assírios, caldeus ou arameus.

Embora marginalizado, este mundo falante de aramaico sobreviveu por mais de um milênio, até que o século 20 abalou o que havia restado dele. Durante a 1.ª Guerra, enquanto o poder otomano se dissolvia, nacionalistas turcos não só massacraram armênios e gregos, como também cometeram o que é hoje conhecido como o genocídio assírio, chacinando e expulsando a população cristã falante de aramaico da Turquia oriental. A maioria dos sobreviventes fugiu para o Irã e o Iraque.

Algumas décadas depois, enfrentando uma escalada de antissemitismo, a maioria dos judeus falantes de aramaico partiu para Israel. O Irã do aiatolá Khomeini e o Iraque de Saddam Hussein somaram novas pressões e perseguições aos cristãos falantes de aramaico que ficaram para trás. A diáspora se tornou um fato corriqueiro para os assírios, a maioria dos quais hoje vive espalhada pelo globo, de países que margeiam a antiga zona falante de aramaico como Turquia, Jordânia e Rússia, a comunidades mais novas em lugares como Michigan, Califórnia e os subúrbios de Chicago.

Alguns linguistas dividem o que resta do neoaramaico em quatro grupos: ocidental, central, norte-oriental e neomandaico. No final do século 20, o aramaico central era falado por uma pequena comunidade de alguns milhares de sobreviventes na Turquia. Ao menos em contextos não rituais, a variedade "neomandaica" de neoaramaico usada pelos mandeanos do Irã e do Iraque encolheu substancialmente; hoje, somente algumas centenas de pessoas a falam. Por outro lado, o neoaramaico ocidental se resumiu a um único baluarte: a cidade síria de Malula e dois povoados vizinhos. Uma estimativa de 1996 afirmava que havia até 15 mil falantes de aramaico ali. Mas em setembro de 2013, Malula caiu em mãos de forças rebeldes. Os falantes de aramaico remanescentes fugiram para Damasco ou povoados cristãos ao sul.

Globalmente, línguas e culturas estão desaparecendo a uma velocidade sem precedente, mas o que está havendo com o aramaico é bem mais incomum e terrível: a extinção deliberada de uma língua e cultura se desenrolando em tempo real. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

É DIRETOR ASSISTENTE DA ENDANGERED LANGUAGE ALLIANCE EM NOVA YORK

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.