Uma autocracia que censura, teme e ouve internautas

Análise: Thomas L. Friedman / NYT

O Estado de S.Paulo

19 de setembro de 2012 | 03h05

Essa é a história da China dos nossos dias em cinco itens sucintos.

N.º 1: Durante as duas últimas semanas, Xi Jinping, o homem convocado para ser o novo líder do Partido Comunista da China, andou sumido. Reapareceu sábado, em um colégio agrícola. Teria ficado doente? Estariam ocorrendo lutas internas no Partido Comunista? Minha teoria é a seguinte: Xi começou a se dar conta de quão difícil será governar a China nos próximos dez anos e foi se esconder debaixo da cama. Quem poderia culpá-lo?

As autoridades chinesas muito se orgulham por ter se preocupado em educar centenas de milhões de chineses e tirá-los da pobreza. Contudo, o que funcionou para a China nos últimos 30 anos - uma enorme mobilização de mão de obra barata, capital e recursos pelo Partido Comunista - não funcionará daqui em diante. Cada vez mais o povo chinês, dos blogueiros aos camponeses e aos estudantes, exige que sua voz seja ouvida. A China agora é um curioso híbrido - uma autocracia com 400 milhões de blogueiros, que são censurados, temidos e ouvidos ao mesmo tempo.

História n.º 2: Em março, as autoridades chinesas deletaram da blogosfera as fotos de um acidente de carro em Pequim no qual estaria envolvido o filho de um aliado próximo ao presidente Hu Jintao. Tratava-se de uma Ferrari. O motorista morreu e as duas jovens que estavam com ele ficaram gravemente feridas. As autoridades chinesas são muito sensíveis a essas histórias porque elas constituem a ponta do iceberg - um sistema cada vez mais corrupto de relações entre o Partido Comunista e os bancos, as indústrias e os monopólios estatais, que permitem que certos funcionários dos altos escalões, suas famílias e herdeiros se tornem imensamente ricos e transfiram sua riqueza ao exterior.

História n.º 3: Na semana passada, as autoridades da cidade de Macheng, na Província de Hubei, na China Central, decidiram investir US$ 1,4 milhão em novos equipamentos escolares depois que fotos dos estudantes e de seus pais carregando suas mesas e cadeiras para a escola, com os livros, provocaram uma enorme revolta na internet. "O fosso na área da educação está se tornando uma questão candente na China", publicou a agência oficial Xinhua.

História n.º4: Hu sugeriu que seria ótimo se as pessoas em Hong Kong aprendessem mais sobre o continente. Recentemente, as autoridades de Hong Kong anunciaram a obrigatoriedade de assistir a aulas de "educação moral e cívica" no primário e no secundário. O material do curso foi apresentado num livrinho distribuído para as escolas em julho. Ele descreve o Partido Comunista da China como "progressista, desinteressado e unido" e critica "os sistemas multipartidários por trazerem o desastre aos países, como ocorre com os EUA".

Estudantes do ensino médio de Hong Kong organizaram um protesto contra a "lavagem cerebral" de Pequim. No dia 8, um dia antes da eleição municipal, Leung Chun-ying, o homem de Pequim no governo da cidade, anunciou o abandono do plano - a fim de evitar que candidatos favoráveis a Pequim fossem derrotados.

História n.º 5: Há poucas semanas, Deng Yuwen, editor sênior de The Study Times, controlado pelo Partido Comunista, publicou uma análise no site da revista econômica Caijing. Segundo a AFP, Deng afirmou que Hu e o premiê Wen Jiabao "haviam 'criado mais problemas do que realizações' nos dez anos em que permaneceram no poder". O artigo destacou dez problemas com que a China terá de se defrontar, que teriam sido causados pela falta de reformas políticas e poderão fomentar o descontentamento entre a população, incluindo a paralisação da reestruturação econômica, a disparidade da renda e a poluição. "A essência da democracia está em restringir o poder do governo: essa é a razão mais importante pela qual a China precisa tão urgentemente de democracia", escreveu Deng. "A excessiva concentração de poderes do governo sem o controle e o equilíbrio desses poderes é a causa fundamental de tantos problemas sociais." / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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