REUTERS/Pilar Olivares
REUTERS/Pilar Olivares

Análise: Uma aventura com base em um cálculo político falho

A volta à normalidade política aparentemente será em breve, mas os problemas congênitos do sistema político voltarão

Carlos Ugo Santander, O Estado de S.Paulo

16 de novembro de 2020 | 05h00

A crise política peruana aparentemente conseguiu ser superada. O parlamentar Manuel Merino, que dias atrás assumiu a presidência, renunciou à aventura e cálculo político falho após a destituição do presidente Vizcarra, dada a ambiguidade da figura constitucional da vacância (destituição) sob a acusação de “incapacidade moral”.

Vizcarra tinha sido incorporado às investigações preliminares da comissão Lava Jato por meio da delação feita por beneficiários da corrupção quando era governador de Moquegua. Ato seguido, parlamentares se sentiram ameaçados pelas circunstâncias em que a Justiça prendeu o ex-parlamentar José Luna Galvez, um dos fundadores da banca opositora Podemos, sob a acusação de ter negociado de forma irregular a inscrição desse partido nos órgãos eleitorais.

Os parlamentares resolveram pedir a destituição do presidente, que em sua defesa questionou 68 parlamentares por serem investigados pelos mais diversos delitos. Sem ter um partido no Congresso e por tê-los enfrentado, a maioria dos parlamentares decidiu destituir Vizcarra. Os cidadãos tomaram as ruas por entenderem a medida como inconstitucional e a morte de dois jovens nos protestos provocou a renúncia dos ministros de Merino, cuja aventura não durou uma semana. 

O fato é que no contexto da pandemia se exibem os limites do crescimento econômico, por causa das relações trabalhistas precárias e a baixa qualidade dos serviços públicos que influenciaram no aumento do número de mortos por covid – 100 mortes para cada 100 mil habitantes, o maior índice per capita –, além da crise das instituições que sustentam a democracia.

A volta à normalidade política aparentemente será em breve, mas os problemas congênitos do sistema político voltarão, ainda que as próximas eleições de 11 de abril tragam um novo presidente e parlamentares. O desenho institucional peruano continuará sendo imprevisível e apenas uma Assembleia Constituinte poderá atenuar a deterioração permanente da qualidade democrática.

É SOCIÓLOGO PERUANO E PROFESSOR ASSOCIADO NA UNIVERSIDADE FEDERAL DE GOIÁS

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