REUTERS/Nacho Doce
REUTERS/Nacho Doce

Uma bolha de boa vida na Venezuela

Na país do socialismo do século 21, quem tem reserva de dólares ou recebe remessas da moeda americana do exterior ainda tem acesso a produtos e serviços que viraram luxo para maioria da população; empresários lucram com desvalorização da moeda local

O Estado de S.Paulo

07 Agosto 2018 | 14h50

CARACAS - À medida que a hiperinflação dispara para 1.000.000%, os venezuelanos enfrentam o aprofundamento de uma crise que pulveriza sua renda e dissemina a fome. Cada vez mais, a linha entre a sobrevivência e a fome é determinada não por se ter um emprego ou educação, mas por algo mais: o acesso a dólares americanos.

Há muito tempo condenado como símbolo do imperialismo pelo presidente Nicolás Maduro, as "verdinhas" americanas agora reinam em um país quebrado pela má administração, corrupção e anos de políticas socialistas fracassadas. A importância do dólar subiu à medida que a moeda local, o bolívar, se tornou praticamente inútil.

Esta semana, por exemplo, o preço de uma dúzia de ovos chegou a 2,6 milhões de bolívares - equivalente a duas semanas de um salário mínimo. Mas para um venezuelano que pode trocar dólares à taxa do mercado negro, esses mesmos ovos são uma barganha relativa, custando apenas US$ 0,60.

Os venezuelanos estão cada vez mais separados em duas classes: os que têm dólares e os que não têm.

Considere o caso das irmãs Berroterán.

Atormentada pelo aumento dos preços, Evelyn Berroterán, uma mulher de 43 anos que mora em Guarenas, um subúrbio pobre do leste de Caracas, reduziu sua alimentação para duas refeições por dia. Então seu filho de 27 anos aderiu ao êxodo de venezuelanos do país e se estabeleceu no Equador, que adotou o dólar como moeda em 2000. Ele conseguiu um emprego em uma fábrica de tijolos e começou a enviar para a mãe US$ 50 por mês.

De repente, tudo mudou. Berroterán voltou a comer três refeições por dia e a comprar frango e carne bovina. Ela largou o emprego de vendedora ambulante no centro de Caracas e até pode se dar ao luxo de gastar em algo que antes era inacessível - pasta de dente.

"Nós não vivemos como pessoas ricas, mas para ser honesta, meu filho está salvando nossas vidas", disse Evelyn.

Algumas portas abaixo, sua irmã mais nova, Marisol Berroterán, uma mãe solteira de 41 anos, leva uma vida muito diferente.

Sua casa de telhado de zinco parece quase a mesma de sua irmã. Mas sua única fonte de renda é o salário mínimo em bolívares que ela ganha como faxineira de uma empresa estatal de construção. Sua irmã mais abastada às vezes compra comida para ela. Mas Marisol Berroterán não tem condições de comprar sabonete ou xampu há meses.

"Eu nunca mais me senti limpa", disse ela. "Estamos famintos a maior parte do tempo. Não acho que as coisas vão melhorar."

Asdrubal Oliveros, diretor da consultoria Ecoanaltica, de Caracas, calcula que quase um terço dos venezuelanos tenha acesso regular a moedas estrangeiras, principalmente por meio de remessas, economias ou salários pagos em dólares. As remessas se tornaram uma salvação e uma das vantagens de uma onda estimada em 2 milhões de venezuelanos que fugiram do país este ano para encontrar trabalho e comida.

A maioria das famílias com remessas provenientes de parentes que trabalham em outros países recebe entre US$ 70 e US$ 100 por mês.

"Aqueles que recebem dólares têm acesso a um dinheiro que permanece estável em valor, mas aqueles que dependem de bolívares viram seu poder de compra reduzido em quase 90% no ano passado", disse Oliveros. "Eles estão condenados a um agressivo e devastador empobrecimento."

Maduro culpou a queda em espiral da economia do país a uma "guerra econômica" travada por "impérios estrangeiros" - principalmente os Estados Unidos. Mas os economistas em grande parte ligam o colapso do país às fracassadas políticas socialistas iniciadas na década de 1990, sob o governo do antecessor dele, Hugo Chávez. Sob Maduro - um ex-motorista de ônibus e líder sindical - a economia foi de mal a pior, uma situação seriamente agravada pelos queda nos preços do petróleo.

Na semana passada, em uma convenção do partido governista, Maduro admitiu que "os modelos produtivos (tentados pelo governo) fracassaram". "A responsabilidade é nossa, é minha." Dias antes, ele anunciou "novas medidas econômicas", incluindo a eliminação de cinco zeros do Bolívar - uma moeda cuja maior nota atualmente é de 100 mil.

Mas especialistas preveem que tais medidas terão pouco efeito e que a espiral hiperinflacionária da Venezuela irá piorar.

Para alguns venezuelanos, a distorção nas taxas de câmbio tem apresentado uma oportunidade de ouro. Eles estão comprando apartamentos de luxo - ou mesmo prédios inteiros - por um preço baixo e com grandes descontos, pagando em dólares, apostando que, em algum momento, a economia se recuperará. Outros estão aproveitando os preços incrivelmente baratos da internet e da energia elétrica para minerar criptomoedas, como o Bitcoin.

E para os que estão em melhores condições, viver bem nunca foi mais barato. Uma refeição luxuosa em um dos melhores restaurantes da capital, por exemplo, pode ser muito alta em bolívares - mas, para quem tem dólares, pode não custar mais do que o preço de uma pizza nos Estados Unidos.

Alguns jovens empreendedores encontraram maneiras de prosperar na economia hiperinflacionária. Um empresário de 30 anos, por exemplo, disse que lançou duas empresas no ano passado - uma que produz ovos e outra que distribui alimentos. As empresas estão contratando empréstimos de curto prazo em bolívares para financiar operações. Mas eles usam reservas de dólares comprados anteriormente para pagá-los de volta - fazendo com que o custo dos empréstimos, em termos de dólares, seja mais barato a cada dia.

"Pessoalmente, acho que nas maiores crises estão as maiores oportunidades", disse o empresário, que falou sob condição de anonimato por medo de represálias do governo por atuar no mercado de câmbio.

Muito mais venezuelanos, no entanto, estão usando seus estimados dólares simplesmente para sobreviver.

Graças aos US$ 50 mensais que seu filho envia, por exemplo, Evelyn consegue estocar sua despensa, que já chegou a ficar vazia, com sacos de farinha de milho e arroz que ela usa para se alimentar e a seu marido e netos.

Com o colapso das empresas de serviços públicos por causa da fuga de trabalhadores e a falta de peças de reposição, as residências em seu bairro têm água corrente apenas uma vez a cada duas semanas. Com seu novo fluxo de dólares, no entanto, ela pode ocasionalmente comprar água de uma empresa privada.

Sua irmã Marisol, com apenas bolívares para gastar, não pode fazer tais gastos. Ela não comprou frango ou carne nos últimos 12 meses, e seus filhos estão indo para a escola com sapatos velhos. Ela recentemente começou a queimar grama e usar as cinzas como desodorante, e substitui a casca de limão pela pasta dental que não pode mais comprar.

Sua irmã, disse Marisol, "é abençoada porque está recebendo dólares". "Mas fico envergonhada com a minha vida", disse ela. "Eu me lembro como era bom sentir o cheiro do meu cabelo depois de lavá-lo com xampu. Não posso mais fazer isso." / THE WASHINGTON POST, TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

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