Uma campanha enraizada em outra era

Ao debater tamanho do Estado, candidatos à Casa Branca estão resolvendo os desafios econômicos do século passado; empregos somem pelo sucesso das grandes corporações

O Estado de S.Paulo

02 de setembro de 2012 | 03h07

A atual campanha eleitoral americana está sendo definida como uma batalha de grandes ideias. Ótimo. Mas é uma pena que a luta não esteja sendo travada no século 21.

Ao escolher como seu vice o congressista Paul Ryan, Mitt Romney trocou o seu pragmatismo de Massachusetts por um compromisso corajosamente ideológico com um governo limitado. Por outro lado, os democratas acreditam no papel essencial do governo e querem elevar os impostos, pelo menos o dos ricos, para financiar este papel.

Trata-se de uma importante linha de batalha bem definida nos Estados Unidos. Mas o argumento a respeito das dimensões do Estado não leva muito em conta as realidades essencialmente econômicas desta era. Como os generais que combateram na última guerra, os políticos americanos estão resolvendo os desafios econômicos do século passado.

É um problema, porque estamos vivendo em um período de profundas e rápidas mudanças econômicas. A intuição de que a economia está se tornando menos previsível e menos segura está correta. Graças à globalização e à revolução tecnológica, a natureza do trabalho, a distribuição da remuneração por esse trabalho, e quem sabe até o próprio ciclo econômico, estão sofrendo uma transformação.

Mas quem nos informa disso não é o debate político americano, cujas melodias familiares sobre o Estado que menos interfere versus o Estado que em tudo interfere, impostos mais elevados versus impostos menores, e a importância ou não de um orçamento equilibrado talvez fossem ouvidas em todas as décadas desde a 2.ª Guerra.

Nos Estados Unidos, a maioria das pessoas se sente confortável com essas canções antigas - todos conhecem a letra -, mas elas constituem uma resposta inadequada às novas exigências econômicas do século 21.

A realidade econômica nos diz que, graças às máquinas inteligentes e ao intercâmbio global, os empregos bem remunerados da classe média, que constituíam a espinha dorsal das democracias ocidentais, estão desaparecendo. Nem o Estado que menos interfere, defendido por Mitt Romney, nem o Estado ampliado de Barack Obama poderão trazê-los de volta. E isso porque paradoxalmente a causadora desse aperto da classe média não é alguma força pérfida -, mas o sucesso das maiores corporações mundiais, muitas delas americanas.

O lucro recorde da Caterpillar, por exemplo, é um tributo à competência da companhia em suas operações num mercado globalizado e na adoção de tecnologias de ponta. Mas para alguns trabalhadores da Caterpillar, essa boa nova, que se traduziu recentemente num congelamento dos salários por seis anos, e foi aceita pelos funcionários sindicalizados depois de uma greve em Joliet, no Estado de Illinois, não garantiu um acordo melhor. Esse é o problema econômico mais candente do nosso tempo - descobrir como administrar uma economia cujas locomotivas de crescimento enriquecem poucos, mas oprimem muitos.

Instintivamente, os americanos compreendem que é o que está acontecendo. É por isso que a plataforma democrata, apesar das queixas de alguns dos seus endinheirados financiadores, não se cansa de criticar a antiga companhia de Romney, a Bain Capital, por exportar os empregos.

O argumento de que os trabalhadores da classe média às vezes sofrem em razão das mesmas decisões que aumentam o valor da empresa para os acionistas é muito conhecido pelos americanos, que sentem isso na carne.

Entretanto, nenhum dos dois partidos gosta de reconhecer que esse resultado socialmente perverso está sendo possibilitado, pelo menos em parte, pelas forças do capitalismo de livre mercado que muitos defendem. Os ataques à transferência de empresas para o exterior não convence ninguém, porque as pessoas sabem que Obama não tem nenhuma intenção de condená-la - e se ele o fizesse, o impacto econômico seria devastador.

A resposta tentadora, que ouvi recentemente em uma entrevista com Glenn Hubbard, assessor econômico de Romney, é fazer de conta, com otimismo, que, assim como os traumas iniciais da Revolução Industrial deram origem à prosperidade na maior parte do mundo, as transformações econômicas dos nossos dias acabarão por funcionar.

"Se voltássemos a 1940 e fizéssemos esse debate, talvez ficássemos preocupados, e nos perguntássemos se as pessoas não poderiam perder seus empregos na agricultura", disse Hubbard. "Na época, o debate se dava em torno da produção industrial, depois sobre o serviço. E se um economista for honesto com vocês o melhor que poderá dizer é: o que precisamos fazer é permitir que essas oportunidades ocorram, e elas ocorrerão."

Essa previsão otimista tem alguns problemas. O primeiro deles é que, enquanto a Revolução Industrial na realidade enriqueceu pessoas comuns mais do que em qualquer outro momento na história da humanidade, foram necessárias duas guerras mundiais e revoluções comunistas na Rússia e na China para que o mundo eliminasse as imperfeições. O segundo é que, para que a industrialização funcionasse, o Ocidente criou um conjunto elaborado de novas instituições políticas, sociais e econômicas, inclusive a educação pública universal, os sindicatos e a rede de seguridade social.

Foi preciso muito mais que os teares mecânicos ou o motor a vapor para transformar comunidades locais agrícolas com base na família em comunidades nacionais, urbanas, individualistas. Serão necessárias novas instituições políticas e sociais para permitir que surja a última transformação em comunidades virtuais e globais. Inventar essas instituições é difícil, e falar sobre elas pode ser assustador, mas esse é o diálogo político que o mundo ocidental deveria ter hoje. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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