Uma campanha venenosa

Equipes de Romney e de Obama têm adotado pesados e raivosos ataques

DAN BALZ*, THE WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

20 de agosto de 2012 | 03h04

Ninguém esperava que a campanha presidencial americana de 2012 fosse positiva ou edificante. Os problemas do país são demasiado graves e as linhas que separam republicanos e democratas foram endurecidas por quase quatro anos de conflito entre a Casa Branca e o Congresso.

O mais chocante na campanha, a essa altura, não é apenas a negatividade ou o puro volume de propagandas de ataque que chove sobre os eleitores dos Estados indefinidos. É a sensação de que todos os limites foram transpostos, as muretas de proteção desapareceram e não há o menor incentivo para qualquer lado se conter.

Quando Mitt Romney anunciou a escolha do deputado Paul Ryan (Wisconsin) como seu companheiro de chapa na corrida presidencial, pareceu que surgia uma oportunidade de os dois lados fazerem uma pausa e recomeçarem em novos termos após uma das semanas mais feias do ano. Em vez disso, na semana passada ocorreu a retórica mais dura e as acusações mais raivosas da campanha.

O vice-presidente Joe Biden iniciou o último round na terça-feira com falas que, se tivessem sido feitas por um republicano, provavelmente teriam provocado um incêndio ainda maior. Biden disse a uma plateia em Virgínia que Romney "libertaria" os grandes bancos se fosse eleito, e aí acrescentou: "Eles de novo vão acorrentar todos vocês".

Mais tarde Biden tentou atenuar a linguagem, mas o estrago já estava feito. Em poucas horas, Romney descarregou no presidente. Em Ohio, ele disse que a campanha "raivosa e desesperada" do presidente Barack Obama havia trazido desrespeito ao cargo da presidência.

"Sr. presidente, leve sua campanha de divisão, rancor e ódio de volta a Chicago e deixe-nos reconstruir e reunificar os EUA", disse. Isso provocou uma resposta incendiária da campanha de Obama. O porta-voz Ben LaBolt disse que os comentários de Romney "pareciam desconjuntados".

Tanto Romney quanto Obama falam das grandes escolhas envolvidas na eleição. Isso é um fato, com certeza, em se considerando as visões de mundo opostas dos candidatos. Mas o medo e o ódio motivam ativistas de ambos os lados. Os partidários de cada candidato imaginam que o pior ocorrerá se o outro lado vencer. Isso, por sua vez, anima as estratégias em curso. Há muito que as indignações fingidas fazem parte da campanha, mas agora se tem a impressão de que as indignações são genuínas, que o desrespeito que as equipes de Chicago e Boston hoje sentem uma pela outra se agravou e virou uma justificativa para ataques mais pesados.

Organizações noticiosas instituíram esquemas de verificação de fatos e observação de propagandas em reação a campanhas anteriores quando candidatos usavam meias verdades e, pior, com pouca responsabilização. Esses esquemas ficaram mais fortes e cada vez mais abrangentes, mas não estão fornecendo um bom monitoramento do comportamento das campanhas.

A única cobrança das campanhas será do mercado, disse John Geer, professor de Ciência Política na Universidade Vanderbilt. "Se os eleitores agirem contra seus ataques, ele (Obama) se afastará deles", disse Greer. "Mas, por enquanto, os ataques estão funcionado com eleitores indecisos. Os outros 90% do público já estão decididos sobre suas preferências. Eles podem ficar descontentes com elas (as propagandas), mas não estão movendo o mercado."

Ambos os lados transformaram a eleição numa batalha de tudo ou nada e esperam conquistar um mandato com base no resultado. Mas levará tempo e muito esforço para o vencedor purgar o veneno do sistema se a campanha continuar no seu curso atual. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK *É JORNALISTA

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