REUTERS/Yuri Gripas
REUTERS/Yuri Gripas

Uma caravana de imigrantes para os EUA chama a atenção de Trump

O presidente americano viu em um programa da Fox que mais de mil centro-americanos, vindos especialmente de Honduras, estavam a caminho da fronteira dos Estados Unidos

Alex Horton , O Estado de S.Paulo

02 Abril 2018 | 20h53

Em três tuítes na manhã do domingo, Trump condenou as recentes disputas mantidas com democratas do Congresso para alcançar um acordo que legalizaria a situação de milhões dos chamados “dreamers”, imigrantes ilegais que chegaram ao país ainda crianças.

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“Os agentes da Patrulha de Fronteira não conseguem realizar adequadamente seu trabalho por causa das ridículas leis liberais (democratas) como “Catch & Release”, afirmou Trump no primeiro tuíte. “Cada vez mais perigoso. Caravanas chegando. Os republicanos precisam recorrer à Opção Nuclear para aprovar leis duras AGORA. DACA NUNCA MAIS”. 

O DACA - ou Ação Diferida para Chegadas na Infância - é um programa que autoriza a emissão de vistos de trabalho e permanência nos Estados Unidos para quem chegou ao país ilegalmente quando era ainda criança, e foi encerrado por Trump no ano passado. Esse programa teve por fim evitar que os chamados “dreamers” vivam no país com medo de serem deportados.

Trump, um fã do programa “Fox & Friends", disparou seus tuítes em resposta a um segmento do programa transmitido naquela manhã (pelo menos o  National Border Patrol Council viu uma relação, segundo uma postagem feita mais tarde).

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-Por que estão se locomovendo em caravana?

O segmento do programa da Fox News era uma resposta à notícia veiculada pelo BuzzFeed na sexta-feira de que mais de mil centro-americanos, vindos especialmente de Honduras, estavam a caminho da fronteira dos Estados Unidos passando pelo México, numa viagem de quase um mês iniciada em 25 de março. Esses imigrantes estariam em busca de asilo ou tentando entrar nos Estados Unidos despercebidos.

A ideia é que a locomoção em um grupo grande pode frear as gangues e cartéis criminosos conhecidos por isolar e depois roubar os imigrantes, muitos deles trazendo consigo grandes somas de dinheiro para a longa viagem para o Norte.

Os organizadores da caravana chamada Povos Sem Fronteiras devem ter considerado mais seguro para essas pessoas viajarem juntas. Essa viagem pode ser fatal e é sempre perigosa para as pessoas que trafegam ao longo de várias rotas, pelo norte chegando ao Texas, ou a noroeste que leva ao Arizona, ou ainda percorrendo caminhos ao longo da costa que conduzem à Califórnia.

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Cada um desses trajetos envolve um percurso de mais de 1.600 quilômetros, deparando com ladrões e policiais corruptos extorquindo os centro-americanos sem acesso a nenhum recurso legal. Uma rede de locomotivas comerciais faz um trajeto de cerca de 2.300 quilômetros e imigrantes viajam em cima desses trens, às vezes caindo deles e sofrendo fraturas ou padecendo de desidratação grave.

Membros da caravana disseram que tentariam usar os trens, mas em 2014 mais guardas e locomotivas passando mais rápido pelas estações tornaram mais difíceis esse tipo de viagem.

Os imigrantes dão muitos nomes para os trens, como O Trem dos Desconhecidos e o Trem da Morte. Mas o mais comum é A Besta.

- O que o México está fazendo a respeito desse fluxo de imigrantes?

“O México está fazendo muito pouco, para não dizer NADA, para impedir as pessoas de entrarem no México pela fronteira sul e depois nos Estados Unidos. Eles riem das nossas leis de imigração. Eles têm de conter esse grande fluxo de pessoas e drogas, ou vamos parar de lhes dar dinheiro, NAFTA. O MURO É NECESSÁRIO! - disse Trump em seu segundo tuíte.

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Mas o México está fazendo alguma coisa, com ajuda dos Estados Unidos. Centenas de milhões de dólares vão para o país a cada ano, incluindo fundos para fortalecer sua fronteira com a Guatemala, onde os imigrantes começam sua viagem.

Bilhões de dólares adicionais foram autorizados pelo presidente Obama em 2014  em razão dos milhares de menores desacompanhados que chegaram à fronteira do México com Estados Unidos, a maioria centro-americanos fugindo da onda de crimes e da crise econômica em Honduras, El Salvador e Guatemala. Cerca de 300.000 imigrantes foram detidos pelas autoridades mexicanas nos dois anos seguintes.

Segundo o BuzzFeed, a caravana começou em Tapachula, região encravada do outro lado da fronteira, e nenhuma autoridade no México teria impedido que ela iniciasse viagem.

- O que Trump está fazendo?

As propostas de Trump para reduzir a ajuda ao México levantam a possibilidade de o país ter menos capacidade de conter o fluxo de imigrantes e drogas que passam por sua fronteira.

O orçamento para a Guarda Costeira estagnou em 2018 apesar dos gastos aumentarem em todo o Pentágono (A Guarda Costeira faz parte do Departamento de Segurança Interna). Mas o serviço apreende três vezes mais cocaína transportada por mar do que a interceptada nos postos de fronteira, o que coloca em xeque o argumento de Trump de que um muro  limitaria o fornecimento de droga pesada para os Estados Unidos.

Trump está mais focado no DACA e no muro ultimamente. E sugeriu que o programa seria o motivo de essa caravana ter sido organizada.

“Esses enormes fluxos de pessoas, eles estão tentando se beneficiar com o DACA. Eles querem aproveitar!”, disse Trump pelo Twitter.

Posteriormente, diante da igreja, antes da missa de Páscoa, ele disse que  “muitas pessoas estão vindo porque querem tirar vantagem do DACA. Eles tinham uma grande chance. Os democratas acabaram com ela”.

Mas Trump distorce o objetivo do programa, que foi oferecer proteção para os imigrantes trazidos para os Estados Unidos ilegalmente quando crianças. Os adultos da caravana não têm interesse no DACA.

“Perguntei a alguns imigrantes da caravana o que achavam da afirmação de  Trump de que estão vindo para os Estados Unidos por causa do DACA”, disse o repórter do BuzzFeed, Adolfo Flores, no Twitter. “Alguns riram e outros disseram que não pretendem se inscrever”.

Segundo Flores, a caravana tinha avançado mais de 320 quilômetros na direção noroeste em menos de uma semana, atravessando o Estado de Oaxaca, no México. / Tradução de Terezinha Martino



 

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