DAVID MCNEW/AFP
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Uma certeza sobre o muro de Trump: será um gasto enorme

Em uma inversão quase subversiva do debate atual sobre quem vai pagar o quê, os Estados Unidos poderiam finalmente acabar pagando cidadãos mexicanos e empresas mexicanas para construir o muro

O Estado de S. Paulo

08 Fevereiro 2017 | 19h12

Foi o muro da fronteira que não chegou a ser construído. Em 2006, a Boeing e um grupo de outras empresas venceram um contrato federal para construir um muro protegendo a fronteira dos EUA com o México, que se estende por aproximadamente 3.218 quilômetros, da Califórnia ao Texas.

Cinco anos e aproximadamente US$ 1 bilhão mais tarde, o governo jogou a toalha. Os custos haviam explodido e os sistemas de vigilância sofriam com dificuldades técnicas. Quase todo o dinheiro havia sido gasto em apenas 85 quilômetros na fronteira com o Arizona. O projeto foi uma perda para os contribuintes, mas, para os construtores, foi uma grande vitória.

Hoje, quando o presidente Donald Trump declara sua intenção de avançar com os planos de construção de uma barreira ao longo da fronteira mexicana, muitos detalhes permanecem pouco mais do que um jogo de adivinhação. Trump pretende usar blocos de concreto, ou cerca? Partes do muro podem ser virtuais, usando tecnologia como câmeras e sensores para monitoramento, ou ser tripuladas por drones? Será que o México, como Trump prometeu repetidamente, irá pagar a conta?

Não há dúvidas de que se os Estados Unidos continuam com planos ambiciosos para o muro – um dos maiores projetos de infraestrutura em décadas, que talvez chegue a custar dezenas de bilhões de dólares –, será muito benéfico para quem for contratado para construí-lo.

Uma análise das empreitadas passadas que falharam mostra o potencial de ganho para as empresas e as possíveis armadilhas para os contribuintes. Entre os prováveis vencedores estão as construtoras, as empresas de vigilância de alta tecnologia e os fabricantes de cimento, incluindo, ironicamente, uma das maiores empresas de materiais de construção do México.

"Não há dúvidas de que, quando o governo gasta dinheiro em um projeto grande como esse, as empresas irão se esbaldar", disse Joe Hornyak, parceiro do escritório de advogados Holland e Knight, que se especializou em leis de licitações governamentais.

Recentemente, o líder da maioria no Senado, Mitch McConnell, republicano de Kentucky, disse que o Congresso vai dar continuidade aos planos de construção do muro, estimando que seu valor ficaria entre US$ 12 bilhões e US$ 15 bilhões.

Pesquisadores do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) disseram, no ano passado, que o muro de concreto e aço com 1.609 quilômetros e 15,2 metros de altura custaria cerca US$ 40 bilhões aos contribuintes.

Independentemente do valor final, o projeto já chamou a atenção de empresas e investidores ansiosos para participar da construção, apesar das inumeráveis batalhas políticas e sociais que a cercam. As ações de várias construtoras e de fabricantes de cimento tiveram uma alta depois do último pronunciamento de Trump, pois os investidores apostam em pagamentos vindos não só de muro mexicano, mas também de propostas de aproximadamente US$ 1 trilhão em projetos de infraestrutura.

A Casa Branca não respondeu imediatamente a um questionamento. Em 2011, quando o Departamento de Segurança interna cancelou o projeto da fronteira, disse que a medida era ineficaz e muito cara.

A história mostra que medidas desse tipo podem ter resultados problemáticos. Tentativas anteriores de construir o muro favoreceram empresas com décadas de experiência com contratos com o governo. De 2007 a 2012, a administração federal gastou mais que US$ 1,5 bilhão com empresas contratadas para a proteção de fronteiras, de acordo com uma análise dos gastos da Iniciativa de Segurança de Fronteiras do Departamento de Segurança do Estado feita pelo New York Times.

A medida, iniciada em 2005, foi uma das tentativas mais agressivas para proteger a divisa. Um escritório de Proteção de Alfândega e Fronteira foi designado para desenvolver e construir um muro virtual e físico ao longo da fronteira com o México para reduzir a imigração ilegal.

A empresa que ganhou o maior contrato foi a Boeing, mais conhecida pela construção de aviões, mas que também presta inúmeros outros serviços para o governo, o que faz dela a segunda maior contratada do país, fechando mais de US$ 20 bilhões em contratos durante o último ano fiscal.

E não foi a única: a empresa de segurança Wackenhut Corp., agora conhecida como G4S Secure Solutions, recebeu mais de US$ 119 milhões; a IBM ganhou mais de US$ 56 milhões e a empresa de tecnologia ManTech International, mais de US$ 43 milhões.

O projeto com a Boeing, no entanto, enfrentou adversidades quase que imediatamente. A empresa e sua equipe tinham construído um sistema complexo composto por sensores, radares e câmeras montadas em torres para ajudar os agentes de fronteira a encontrar pessoas entrando ilegalmente no país, só que o sistema não funcionou consistentemente em áreas complexas.

O projeto se tornou o assunto de relatórios variados e contundentes do Government Accountability Office, alguns dos quais citam uma parca supervisão fiscal. E depois que cerca de US$ 1 bilhão foram gastos, a administração Obama cancelou o projeto.

Perguntaram recentemente ao executivo-chefe da Boeing, Dennis Muilenburg, se a empresa havia conversado sobre a segurança da fronteira com o presidente e se seria possível usar informações do projeto anterior no novo. Ele disse que a companhia não estava em busca de algo nessa área, mas que está aberta para trabalhar com o governo. Com exceção disso, não fez comentários sobre o primeiro projeto.

Houve outras tentativas de construção de uma barreira que também passaram por problemas financeiros. Como resultado de vários projetos, centenas de quilômetros de muro já existem ao longo da fronteira, embora em formatos que Trump pode não ter imaginado, como arames, correntes, estacas, barreiras de concreto para veículos, postes e trilhos, e vigas em forma de X.

Os planos de Trump chegam em um momento em que a expansão do setor de construção em grande parte do país criou uma escassez de trabalho legal para construir um muro, de acordo com executivos de construtoras e outros no Texas. Separadamente, um estudo divulgado em 2012 estimou que metade dos trabalhadores da construção civil no Texas estava no país ilegalmente.

"Se o muro for construído no Texas, há uma grande probabilidade de que uma parcela significativa da força de trabalho esteja em situação irregular", disse Jose P. Garza, diretor-executivo do Workers Defense Project, que apoia os trabalhadores de baixa renda.

Em outra reviravolta, o dinheiro pode chegar aos mexicanos ou às empresas mexicanas. Analistas dizem que, basicamente, o transporte de pedras pesadas ou de concreto por mais de 112 quilômetros, ou de cimento por mais de algumas centenas de quilômetros, gera um custo proibitivo, ou seja, os fabricantes mais próximos da fronteira seriam os mais baratos. Poderia ser uma grande vitória para a maior fabricante de cimento do México, a Cemex, que tem uma subsidiária norte-americana que participaria da licitação do projeto, além de diversas fábricas que pontilham a fronteira, disseram analistas.

O governo já dá preferência aos contratados que utilizam materiais de construção feitos nos EUA, disse Hornyak, mas para determinados projetos maiores, a Lei de Acordos Comerciais aceita o uso de materiais feitos em países que tenham acordos comerciais com os Estados Unidos.

Então, acrescentou Hornyak, o presidente provavelmente precisaria que o Congresso mudasse a lei, caso queria determinar que as agências, por exemplo, comprem apenas cimento feito nos EUA.

Tudo isso significa que, em uma inversão quase subversiva do debate atual sobre quem vai pagar o quê, os Estados Unidos poderiam finalmente acabar pagando cidadãos mexicanos e empresas mexicanas para construir o muro.

Empresas especializadas em tecnologia de vigilância ou barreiras "virtuais" também poderiam se beneficiar. A Elbit Systems of America, cuja empresa-mãe tem sede em Israel, ganhou um contrato em 2014 com a Proteção de Alfândega e Fronteiras para construir um conjunto de torres com radares e câmeras cobrindo 273 dos 321 quilômetros ao longo da fronteira do Arizona. Quando o radar detecta movimento, câmeras aproximam a imagem e as enviam para centros de controle.

Gordon Kesting, vice-presidente de soluções de segurança nacional da empresa, disse: "Quando se olha para a fronteira, não há uma abordagem 'tamanho único', mas uma análise dos custos associados a algumas dessas abordagens mostra que eles são bem diferentes. Há uma discussão sobre o uso mais eficaz e eficiente dos dólares do contribuinte". / THE NEW YORK TIMES 

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