Uma cidade assombrada pelo passado

Em Gulu, onde nasceu Kony, milhares de crianças foram sequestradas e adultos, assassinados

GULU, UGANDA , O Estado de S.Paulo

27 de abril de 2014 | 02h07

Charles Okwonga, de 27 anos, circula em uma cadeira de rodas pela rua de terra vermelha e sem asfalto de Gulu, a principal cidade do norte de Uganda, a 320 quilômetros da capital Kampala. Aos 8 anos, ele teve as duas pernas amputadas e quase morreu. Questionado sobre o que aconteceu, ele responde com uma palavra: "Kony".

Joseph Kony nasceu na vila rural de Odek, no leste de Gulu, e concentrou ali as operações do Exército de Resistência do Senhor (LRA, na sigla em inglês). Nenhuma cidade foi tão afetada pela insurgência como Gulu, espremida entre a brutalidade dos rebeldes e das forças de segurança que os combatiam.

Em 1996, o governo ordenou que todos deixassem suas casas e mais de um milhão de pessoas da região foram transferidas a campos de deslocados. Eles começaram a voltar em 2005, quando o Exército ugandês expulsou os rebeldes de Kony da área.

No entanto, a cidade, hoje com 150 mil habitantes, ainda vive assombrada pelos fantasmas do passado. Milhares de crianças foram sequestradas e adultos, assassinados. Todos os moradores têm histórias para contar de brutalidades cometidas pelo LRA contra sua família. É uma cidade de traumatizados.

Presença. Janieth Lakot, de 26 anos, decidiu se juntar às forças de segurança em Gulu para vingar o sequestro de uma irmã que ela nunca mais viu. "Quando havia rumores de que eles estavam por perto, nós íamos dormir na igreja do Rosário. Chegamos a ficar escondidas por dias em um hospital. Nunca andávamos sozinhas, sempre em bando e com outros meninos. Mesmo assim, muitos não escaparam", diz Janieth, enquanto vigia a estrada de acesso a Gulu.

Sinais do passado sombrio de Gulu estão por toda parte, nas casas ainda abandonadas, nos amputados (embora o estigma mantenha muitos dentro de casa) e na terra avermelhada, que os moradores dizem ter essa cor por estar manchada com o sangue dos acholis, etnia de 80% dos moradores.

Para os sobreviventes, Kony se tornou uma lenda e até a clínica da cidade leva o seu nome. A farmacêutica Maria Gorethe, de 26 anos, que teve dois primos sequestrados pelo líder rebelde, diz que o nome quer dizer "ajuda". "Kony kwo significa ajuda em acholi, no sentido de salvar vidas. Batizar assim a clínica é uma forma de substituir o passado por algo bom". / A.C.

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