Uma cizânia no Golfo

O acordo nuclear iraniano pode alterar o equilíbrio de poder no Oriente Médio e aguçar as tensões entre sunitas e xiitas

O Estado de S.Paulo

09 de abril de 2015 | 02h01

Nas casas e nos cafés de todo o Golfo Pérsico, as reações ao esboço de acordo nuclear anunciado na semana passada tinham pouco a ver com centrífugas. Mais importante era o efeito que a mudança nas relações do Irã com o restante do mundo pode vir a ter para o equilíbrio de poder no Oriente Médio.

O que está em questão, dizem muitos, é a capacidade de interferência dos iranianos na região. Teerã já apoia aliados armados na Síria, no Líbano, no Iraque, no Iêmen e (segundo alguns relatos) no Bahrein. É considerável o risco de que um Irã livre da pecha de Estado pária se torne mais agressivo. "A ideia de que há uma crescente xiita na região ficou obsoleta", diz o analista Hassan Hassan, de Abu Dabi. "Atualmente é lua cheia; e o Golfo está cercado."

Nos últimos anos, a rivalidade entre Irã e Arábia Saudita vem sendo banhada num mar de sangue sectário. O Irã "acha que os xiitas têm de conquistar o Golfo", diz uma liderança sunita da Cidade do Kuwait, sintetizando uma percepção que é generalizada.

Por sua vez, os xiitas kuwaitianos alegam ser vistos com desconfiança só por pertencerem ao mesmo ramo do Islã que o regime iraniano. Em conversas reservadas, autoridades de diversos governos da região dizem acompanhar com apreensão o aumento das tensões nas relações comunitárias. No Kuwait, cuja população tem entre 30% e 40% de xiitas, segundo estimativas, o Twitter é o campo de batalha preferido para os embates sectários. "Temos um bom padrão de vida aqui", diz um kuwaitiano. "Mas em países mais pobres, essas questões sectárias são um problema sério."

A novidade não é a rivalidade regional entre a Arábia Saudita e o Irã, mas sim a influência crescente dos iranianos. Excluída do mercado internacional de energia pelas sanções da ONU, a economia do Irã passou a maior parte da última década se arrastando, enquanto a alta do preço do petróleo proporcionava fartura em terras sauditas. Mas, em meio ao caos desencadeado pela Primavera Árabe, ambas as potências tentaram ampliar sua influência - e não seria exagero dizer que os iranianos foram mais bem-sucedidos nisso.

Por improvável que pareça, uma aproximação efetiva entre os Estados Unidos e o Irã poderia modificar totalmente o equilíbrio de poder na região. Um acordo nuclear "é a pior coisa que poderia acontecer", diz o salafista e ex-parlamentar kuwaitiano Khaled Sultan. "Tínhamos esperanças de que as mudanças na Síria - a vitória da oposição - deteriam o Irã e reduziriam sua influência regional. Mas (deixamos de acreditar nisso) quando vemos o governo americano trocando figurinhas com o Irã."

O governo do Kuwait, assim como o de todos os demais integrantes do Conselho de Cooperação do Golfo, declarou que um bom acordo será bem-vindo. "Não se deve esquecer que a Cidade do Kuwait é o centro urbano mais próximo da usina nuclear de Bushehr, de modo que é de nosso interesse que todas as instalações nucleares estejam em conformidade com as normas internacionais de segurança", disse o xeque Mohammed Abdullah al-Sabah, chefe de gabinete do governo kuwaitiano. "Temos confiança de que o equacionamento dessa questão contribuirá para a segurança da região."

Mas o Kuwait também integra a coalizão militar de países de maioria sunita organizada pela Arábia Saudita para conter a ofensiva houthi no Iêmen. É crença generalizada no Golfo que os houthis são apoiados por Teerã. A reação militar dos sauditas não tem por objetivo apenas socorrer o sitiado governo iemenita. A ideia é que sirva também de advertência aos iranianos: qualquer que seja o acordo que Teerã venha a firmar com as potências mundiais, o Oriente Médio não pertence ao Irã.

O acordo preliminar anunciado na semana passada parece ter sido um passo promissor na direção de um relacionamento mais harmonioso entre o Irã e o Ocidente. Mas há o risco de que o alívio de algumas tensões seja acompanhado do recrudescimento de outras.

© 2015 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. TRADUZIDO POR ALEXANDRE HUBNER, PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM.

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