Uma conversa com Amos Oz

A mensagem para o novo governo israelense é bem clara: a paz é impossível sem a ousadia

Roger Cohen,

03 de fevereiro de 2013 | 02h07

Amos Oz, o romancista cujas histórias e contos têm perscrutado a alma de Israel com forte insistência, recebeu-me em seu apartamento forrado de livros com uma rápida lição de hebraico. Eu preciso compreender que a palavra-chave, iídiche de fato, é "fraiers" - ou otários.

"A maioria dos israelenses daria adeus à Cisjordânia", ele sugeriu, "Mas eles não querem ser otários. Eles não querem que o cenário de Gaza se repita. Antes de mais nada, estas eleições foram sobre assuntos internos, a classe média, Estado e sinagoga, o recrutamento, com um consenso tácito de que os territórios ocupados não têm toda essa importância.

Os israelenses já não estão interessados. Eles votam com os pés. Não vão lá, exceto os assentados e os extremistas de direita. Isso significa que se os israelenses puderem ser tranquilizados de que com a renúncia à Cisjordânia não estarão fazendo um péssimo negócio - nem serão 'fraiers' - eles estarão silenciosamente prontos para fazê-lo."

Considerando o forte sentimento religioso-nacionalista, apesar de as eleições terem demonstrado uma guinada israelense contra o extremismo, eu sugeri que Oz poderia estar sendo otimista. Mas ele insistiu que, no fim das contas, cerca de 70% de ambos os lados - esperneando, gritando e clamando injustiça - estavam prontos para dois Estados.

"Se posso usar uma metáfora, eu diria que o paciente, israelense e palestino, está tristemente pronto para a cirurgia, ao passo que os médicos são covardes", disse. Entre os covardes, ele incluiria o premiê Binyamin Netanyahu? "Sim, acho que Netanyahu é um covarde", declarou. No entanto, a vitória do centro na eleição não poderia alterar a equação?

"Isso significa que haverá mais pressão sobre Netanyahu do lado dos 'pombos' de Israel e do mundo exterior, de modo que sua covardia poderá funcionar no sentido contrário", disse Oz. Israel - incrustado numa vizinhança hostil, com fronteiras indefinidas, acossado por disputas internas entre religiosos e seculares, inseguro sobre o que fazer do levante árabe que o cerca - anseia pela normalidade.

Seus cidadãos estão hoje mais preocupados com o crime violento do que com a violência política. Nenhum israelense foi morto em 2012 na Cisjordânia. Seus shopping centers abarrotados exalam riqueza. O Irã foi uma não questão durante a campanha. O conflito palestino, exceto por algum espasmo ocasional, diminuiu o suficiente ao menos para pessoas votarem em massa em um novato político, o telegênico Yair Lapid, um mistério embalado em boa aparência na liderança de um partido com o nome tranquilizador e inquietante "Existe um Futuro".

Oz, que estava passando o fim de semana em Tel-Aviv vindo de sua casa na cidade de Arad, no deserto, viveu todo o passado do moderno Estado de Israel. Seu credo como romancista é que a humanidade é uma coisa em aberto: as pessoas são capazes de surpreender não só os outros, mas elas mesmas. Ele chama isso de "o fenômeno individual mais promissor da história". Lapid, na verdade um vaso político à espera de conteúdo, é um personagem em busca de significado e, como tal, do interesse de Oz.

"Ele é um fenômeno, uma manifestação do desejo de normalidade da classe média. Os israelenses querem ser como a Holanda", disse-me Oz. "É um desejo legítimo mesmo que tenda a ignorar questões fundamentais, como o conflito com os árabes. Não sei se Lapid tem ideias e não estou certo de que ele saiba disso. O que Lapid fará é um mistério não somente para mim - é provavelmente um mistério para ele!"

Aos 73 anos, Oz ficou muitas vezes surpreso por não ver o pior como inevitável, apesar de a guerra ter sido um leitmotiv de Israel desde 1948. Ele faz a seguinte pergunta: "Quem esperava que Churchill desmantelasse o Império Britânico, ou que De Gaulle retirasse a França da Argélia, ou que Sadat viesse a Jerusalém, ou que Begin devolvesse todo o Sinai pela paz, ou que Gorbachev desmanchasse todo o bloco soviético?" Sua mensagem ao novo governo israelense é clara: a paz é impossível sem ousadia; nada está além da capacidade de uma humanidade em aberto e propensa a surpreender.

Há uma certa melancolia em seu olhar sobre o Israel que ele ama. Ele se maravilha com o que chama de "uma era de ouro cultural" de realizações literárias e científicas. Ele deplora - e abomina - o que vê como um questionamento crescente da existência de Israel na Europa e outros lugares, um questionamento que "vai além da crítica legítima à política israelense" e reflete, em parte, um antiamericanismo porque "se os Estados Unidos são o diabo, então Israel deve ser o Bebê de Rosemary".

Ao mesmo tempo, Oz não esconde suas decepções. "Construir assentamentos em territórios ocupados foi o erro e pecado individual mais grave da história do sionismo moderno, porque teve como base uma recusa em aceitar o simples fato de que não estamos sozinhos neste país", disse. "Durante décadas, os palestinos também recusaram o fato de que não estavam sozinhos neste país. Agora, com os dentes cerrados, ambos os lados reconheceram essa realidade e esta é uma boa base." E prosseguiu: "A perda de contato pode ser saudável por um certo tempo após cem anos de conflito sangrento; a perda de contato pode ser uma bênção. Mas a perda de contato pode ter como base uma cerca erguida entre meu jardim e o jardim de meu vizinho. Não pode ter como base uma cerca construída bem no meio do jardim do vizinho. De modo que uma cerca pode não ser uma má ideia, mas esta cerca está no lugar errado."

O muro de separação de Israel, isolando a Cisjordânia, é, em outras palavras, uma inaceitável ocupação territorial. Israel era um sonho. A única maneira, observa Oz, de manter um sonho róseo, intacto e imaculado, é nunca concretizá-lo. Isso vale para tudo - viajar, escrever um romance, uma fantasia sexual. Israel é hoje um sonho concretizado, um que excede os sonhos mais alucinantes de seus pais. "Portanto, a decepção não está na natureza de Israel, está na natureza dos sonhos", conclui Oz.

Este é seu credo político. Não pode haver um Estado, pois israelenses e palestinos não podem se tornar uma família feliz ("eles não são unidos e não estão felizes"). Então "a única solução é transformar a casa em dois apartamentos menores". Dois Estados, absolutamente, é a única resposta. Palestinos e outros árabes no passado trataram Israel como uma infecção passageira: se eles se coçassem com vigor, ela passaria. Israel tratou a Palestina como nada menos que "a invenção maldosa de uma máquina de propaganda pan-árabe".

Essas ilusões passaram. A realidade atual compele a um meio-termo - "e meios-termos são infelizes, não existe isso de um meio-termo feliz". E quanto ao Hamas? "Ao menos o que podemos fazer é resolver o conflito com a Organização para a Libertação da Palestina (OLP) e reduzir o conflito israelense-palestino a um conflito Israel-Gaza. Isso será um grande passo à frente. Depois, veremos. O Hamas pode mudar como a OLP mudou. A Autoridade Palestina está pronta para um Estado na Cisjordânia, infeliz com isso, com certeza, mas pronta. Eles continuarão sonhando com Haifa e Jafa como nós sonharemos com Hebron e Nablus. Não é proibido sonhar."

E o direito de retorno dos palestinos: "O direito de retorno é um eufemismo para a liquidação de Israel. Mesmo para um 'pombo' como eu, isso está fora de questão. Os refugiados têm de ser reassentados no futuro Estado da Palestina, não em Israel." Dois pensamentos finais de Oz merecem consideração dos políticos israelenses: sobre a natureza da tragédia e a natureza do tempo.

"O conflito israelense-palestino é um choque da direita com a direita. Tragédias são resolvidas de uma de duas maneiras: a maneira shakespeariana ou a maneira de Anton Chekhov. Numa tragédia de Shakespeare, o palco fica forrado de cadáveres no final. Numa tragédia de Chekhov, todos estão infelizes, amargos, desiludidos e melancólicos, mas vivos. Meus colegas no movimento pela paz e eu estamos trabalhando por um desfecho chekhoviano e não shakespeariano."

"Vivo no deserto, em Arad. Toda manhã, às 5 horas, começo meu dia dando uma caminhada antes do sol nascer. Eu inalo o ar em silêncio. Sinto a brisa, vejo as silhuetas no alto das colinas. Caminho cerca de 40 minutos. Quando volto para casa, ligo o rádio e às vezes ouço um político usando palavras como 'nunca', 'para sempre' e 'para toda a eternidade' - e sei que as pedras do deserto lá fora estão rindo dele."

Conversem com Oz. Este é o meu conselho para o próximo governo israelense - e para todos os absolutistas desiludidos, árabes e judeus, com este conflito desnecessário cujo desfecho infeliz, mas pacífico, não está fora do alcance de uma imaginação humana aberta. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

* É COLUNISTA

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