Uma dupla improvável

As histórias de duas colombianas mostram como um país pode superar a desigualdade

É COLUNISTA, NICHOLAS D., KRISTOF, THE NEW YORK TIMES, É COLUNISTA, NICHOLAS D., KRISTOF, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

09 de agosto de 2013 | 02h11

Esta é uma história de duas aliadas improváveis, a rica executiva e mãe e a prostituta e traficante de drogas que se salvaram mutuamente. O cenário é igualmente improvável e esperançoso. Uma década atrás, a Colômbia era dilacerada por uma guerra civil e pelo narcotráfico. Um dos problemas do país era a enorme distância entre ricos e pobres. As elites lidavam com a pobreza construindo muros mais altos em volta de seus complexos com arame farpado no alto.

Mas, contra todas as probabilidades, esse ethos começou a mudar - com lições aos EUA e ao restante do mundo. A Colômbia está se estabilizando e se recuperando, de tal forma que, espantosamente, um destino cada vez mais popular de turismo é Cartagena, que, com suas muralhas espanholas antigas e ruas calçadas com paralelepípedos, é uma das cidades mais adoráveis das Américas.

A Colômbia ainda tem problemas imensos, é claro, pois a guerra civil se transformou numa violência terrível de gangues nas favelas. Em uma de minhas visitas a uma favela, moradores disseram que se eu tentasse circular por ali, não conseguiria voltar com vida. Há que se reconhecer que o progresso é impressionante, mas ainda incompleto.

Aqui na Colômbia, uma das pessoas bem de vida era Catalina Escobar. Ela era rica, bonita, com educação americana e dirigia uma companhia de comércio internacional. Catalina tinha uma família encantadora, incluindo um filho adorável de 17 anos, Juan Felipe. Aí, num dia de 2000, ela recebeu um telefonema arrasador: Juan Felipe havia transposto um parapeito de sacada e mergulhara oito andares para a morte.

Catalina afundou na tristeza combinada com alguma coisa que ela não conseguia tirar da cabeça. Poucos dias antes, como voluntária em um hospital, ela havia conhecido uma mãe adolescente que perdera seu bebê porque não pudera pagar um remédio que custava US$ 30.

"Eu tinha isso no meu bolso", pensou Catalina, e ficou arrasada ao perceber que, nos bairros pobres, a morte de uma criança era um acontecimento banal. Catalina acabou canalizando seu sofrimento e empatia para começar a Fundação Juan Felipe Gómez Escobar, em memória de seu filho e para ajudar mães adolescentes de Cartagena a romperem o ciclo da pobreza.

A fundação de Escobar busca moças ambiciosas nas favelas, oferecendo-lhes educação, aconselhamento, treinamento profissional, assistência médica e atendimento infantil. A ideia é dar-lhes habilidades para que possam conseguir empregos sólidos e um caminho para a classe média.

O programa pode ser transformador para jovens como Yurleidys Peñaloza, que cresceu na favela e é inteligente, corajosa e forte. Aos 7 anos, Peñaloza conta que um parente começou a violentá-la regularmente. Por fim, aos 9 anos, ela foi a um posto policial e anunciou que queria denunciar um membro da família por estupro. Um exame médico corroborou sua alegação e o parente foi preso.

No entanto, isso não terminou a opressão da pobreza. Alguns anos depois, a mãe de Peñaloza precisou de US$ 400 para um tratamento médico para salvar sua vida. "Já perdi a batalha. Já passei por isso, nada mais importa se eu puder salvar minha mãe", pensou a garota. Assim, aos 12 anos, Peñaloza largou a escola e se tornou prostituta.

A partir daí, seu cafetão a graduou no tráfico de drogas. Ela ganhava US$ 300 por cada embalagem de maconha ou cocaína que transportava de uma cidade colombiana para outra, conforme relatou.

Em uma viagem de tráfico, ela e sua parceira adolescente, Katarina, jogaram fora uma embalagem com 10 quilos de cocaína quando estavam sendo perseguidas pela polícia. Os chefões da droga ficaram furiosos. Eles mataram Katarina a tiros e torturaram Peñaloza com barras de ferro em brasa. Ela ainda tem as cicatrizes.

Peñaloza recomeçou a vida. Agora uma ex-prostituta de 14 anos e ex-traficante de drogas, ela retornou à escola e acabou encontrando um lugar na fundação Juan Felipe, de Catalina, onde recebe aconselhamento, assistência médica e treinamento para trabalhar num restaurante fino. Ela está estagiando como garçonete numa loja de café elegante - onde me serviu um cappuccino quando eu apareci para vê-la no trabalho.

Assim, Peñaloza parece ter escapado daquele ciclo de pobreza graças a sua coragem e a Catalina Escobar. Por sua vez, Catalina também encontrou um meio de sair da sua tristeza por meio do trabalho com essas garotas das favelas. "É a minha terapia", disse.

A Colômbia também se recuperou. Há muitas razões para isso, incluindo a liderança do ex-presidente Álvaro Uribe e o fato de as elites do país perceberem que não poderiam se isolar completamente da pobreza. Os ricos da Colômbia apoiaram um imposto de segurança para melhorar o policiamento e estão brotando fundações para enfrentar problemas sociais (embora parte disso seja dinheiro das drogas sendo lavado).

Portanto, um viva a Catalina Escobar por transformar uma tragédia em inspiração e também por nos lembrar que ricos e pobres, em última instância, dividem o mesmo barco - e a mesma obrigação de ajudar o próximo. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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