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Uma eleição sem Chávez

Para quem sonhasse em uma temporada mais cordata e um clima político menos tóxico para a Venezuela pós-Hugo Chávez, melhor seria nem acordar. A curtíssima campanha em curso para eleger o sucessor do líder bolivariano começou em timbres estridentes e promete terminar alguns decibéis acima.

MAC MARGOLIS, O Estado de S.Paulo

07 de abril de 2013 | 02h10

Não importa que todas as pesquisas apontem a vitória tranquila de Nicolás Maduro, o sucessor ungido de Chávez. Tampouco que sua campanha escancare recursos, abastecido a petrodólares e orçamentos opacos. A Venezuela chavista dispensa o caixa 2 e outros artifícios envergonhados para financiar candidatos, pois o governo é que dita a regra eleitoral e gasta como quer o dinheiro do companheiro contribuinte.

O fato é que os guardiões da bandeira do socialismo do século 21 andam assustados e, como qualquer emparedado, reagem mostrando os dentes. Considere a ordem desta semana para que a Guarda Nacional mobilize os eleitores no dia da eleição. No jargão oficial: "Dispositivo para a coesão e articulação do poder popular, em defesa do plano da república e da vontade popular".

Em miúdos: forças oficiais de segurança e milicianos armados pelo Estado tomarão as ruas para garantir que o eleitor chegue a sua seção, queira ou não. Sim, o voto venezuelano é livre. O cidadão pode marcar sua escolha à vontade, à sombra de uma Kalashnikov.

E a separação constitucional entre o Estado e o partido governante, consagrada na Carta Magna de toda democracia que se preze, incluindo a venezuelana? Na República Bolivariana a lei, para quem a redige, sempre foi facultativa.

Denúncias. Mas a sombra do Estado não termina ali. Na semana passada, o Comando Simón Bolívar, comitê de campanha do candidato da Mesa de Unidade Democrática (MUD), Henrique Capriles, flagrou um militante do Partido Socialista Unido da Venezuela ( PSUV) com a senha mestre para todas as 45 mil urnas eletrônicas do país. Quem detenha a senha mestre não consegue adulterar ou apagar os votos, o oposicionista contemporizou, mas pode sim ligar ou apagar as máquinas como quiser.

Qual o temor? Que algum partidário, com a senha na mão e flâmula bolivariana na cabeça, resolva sabotar a eleição, atrasando a votação ou até inutilizando a urna, forçando sua troca por máquinas manuais - essas infinitamente mais vulneráveis a fraudes.

A denúncia foi registrada esta semana junto ao diretor do Conselho Nacional Eleitoral (CNE) a quem a oposição pediu a troca das senhas e até o adiamento da eleição marcada para domingo. O CNE prometeu investigar, mas às vésperas da votação, tudo indica que a denúncia deve ficar no desabafo.

Com caixa de campanha sem fundo, senha mestre na mão e boinas vermelhas à disposição, dificilmente o candidato do governo perde essa. Mesmo assim, há quem reclame na ala oficialista. Um é Roy Chaderton, o loquaz embaixador venezuelano na Organização dos Estados Americanos (OEA), que desancou contra as grandes vantagens da oposição, teleguiada - alega - pela opinião do "império", das multinacionais e da ditadura midiática.

O embaixador não explicou quem seria essa ditadura midiática no país em que a imprensa ou está em mãos bolivarianas ou corre o risco de se submeter à mordaça, quando não, o fim - como o caso da Globovision, o último independente da TV aberta, vendido para um empresário próximo do chavismo.

Medo. O tom defensivo do emissário bolivariano, no entanto, expõe a insegurança de uma causa sem caudilho. Sem Hugo Chávez para bravejar ao vento, manipular comissários e encantar a multidão, o chavismo vacila mesmo quando domina. A agonia e a morte do líder venezuelano, e a comoção popular que sua memória provoca, apontam para a vitória de seus pretensos sucessores, mesmo que por inércia. O que os herdeiros farão sem o patriarca e como será a revolução sem comandante, essa senha ninguém tem.

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