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Gilles Lapouge
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Uma empreitada justa

Uma das raras coisas em que o presidente francês, François Hollande, esse pacifista convicto, se saiu bem, foi a guerra. Todas suas outras iniciativas capotaram. Mas quando envia soldados e tanques ao Saara (Mali) ou à República Centro-Africana, esse senhor grisalho recupera um pouco suas cores. Foi o que ocorreu ontem: ele abriu a Conferência Internacional pela Paz e a Segurança no Iraque no momento em que aviões Rafale franceses, com base nos Emirados Árabes, começavam seus primeiros voos de reconhecimento sobre a região controlada pelo Estado Islâmico.

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

16 de setembro de 2014 | 02h02

A presença da França ao lado dos EUA nessa ação faz sentido. Vale lembrar que em 2003, quando o então presidente americano, George W. Bush, lançou sua epopeia arenosa no Iraque, a França, então sob o comando de Jacques Chirac, teve a lucidez, a sabedoria e a coragem de desafiar os americanos e recusar a imbecilidade de Bush.

Hoje, porém, Paris está ao lado dos americanos e na mesma região: para enfrentar o EI, que estende suas "metástases" ao Iraque e à Síria. Hollande é coerente: não há a menor relação entre 2003 e a atual provocação ao Ocidente.

Em 2003, tinha-se pela frente uma guerra clássica entre um governo oriental totalitário e o mundo livre. Hoje, tudo é inédito. O EI é uma empresa da morte que está construindo no Oriente Médio uma entidade política sem paralelo nem precedente em 1.000 anos: um "califado", uma formação que ignora os atributos da história e da geografia, que despreza tanto as leis quanto o conceito de fronteiras.

Além disso, esse EI põe a serviço de seus sonhos e de seus pesadelos tal crueldade que nem mesmo a Al-Qaeda chegou perto: a decapitação no sábado de um terceiro refém, britânico, é uma demonstração ignóbil disso.

Não deve haver ilusão: a guerra contra o terrível exército de jihadistas do EI não será brincadeira. Os 30 mil fanáticos do EI, armados até os dentes, dedicados até o sangue, cruéis como hienas, bem treinados e sustentados por um "baú de guerra", não serão fáceis de erradicar, sobretudo porque nem a França, nem os EUA, nem ninguém quer colocar suas tropas em risco numa armadilha em cujo fundo as legiões do Ocidente com frequência se encontraram, no Vietnã, no Afeganistão, em outros lugares. Bloquear o "califado" lançando bombas parece ilusão.

A essas dificuldades militares soma-se a incerteza política da empreitada. Mal o "califado" surgiu nos confins do Iraque e da Síria, ele embaralhou todas as cartas da geopolítica. O Irã, por exemplo, que era o inimigo absoluto do Ocidente, hoje se encontra no campo hostil aos jihadistas, pois o "califado" é a espada reluzente do islamismo sunita, ao passo que o Irã é dominado pelo islamismo xiita.

Se dirigirmos nossas lupas para os Estados do Golfo, damos um passo além no país dos absurdos. Todo o mundo diz que, no princípio, o EI se beneficiou da generosidade do Golfo, como foi o caso de outros grupos sunitas e salafistas que se batiam contra o regime sírio. Esses fundos eram entregues por doadores privados do Golfo, mas sem objeções da parte dos Estados do Golfo.

Além disso, o EI se fortaleceu e cresceu. E suas grandes mandíbulas hoje ameaçam todo o Oriente Médio. Agora os Estados do Golfo coçam suas cabeças. O jornal britânico The Guardian resume o caso de consciência desses charmosos, "delicados" emires do Golfo: "Eles queriam que Bashar Assad saísse e agora enfrentam pessoas que querem se apoderar também de Meca e Medina". / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

*Gilles Lapouge é correspondente em Paris

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