Uma esperança para os sudaneses

Décadas de guerra deixaram desconfiança e significativos desafios, mas os EUA e o mundo estão dispostos a ajudar

Hillary Clinton, The Washington Post, O Estado de S.Paulo

12 de julho de 2011 | 00h00

Nasceu em Juba, Sudão do Sul, a 54.ª nação da África. Milhões de pessoas estão celebrando uma nova identidade e uma nova promessa nacionais. Assim como nosso próprio Dia da Independência, em julho, há 235 anos, há motivos para esperanças de um futuro melhor - se as pessoas e líderes tanto do Sudão quanto do Sudão do Sul se comprometerem com o trabalho duro que as espera.

Durante mais de duas décadas, o Sudão foi dilacerado por combates intensos em torno de terra e recursos naturais. Há um ano, as conversações entre o governo sudanês no norte e o Movimento Popular de Libertação do Sudão no sul estavam num impasse. Os preparativos para um referendo sobre a independência do sul perderam terreno. O Acordo Abrangente de Paz de 2005 parecia à beira do colapso. Um retorno ao conflito parecia provável.

Felizmente, pessoas de ambos lados e de outros países trabalharam em conjunto para mapear um caminho diferente. Ativistas, grupos religiosos e defensores dos direitos humanos concentraram sua atenção no conflito. No ano passado, o presidente Barack Obama comprometeu-se a reanimar o esforço de paz. Desde então, redobramos nosso engajamento com parceiros do norte e do sul, e também da União Africana, Europa e ONU.

Mais do que tudo, porém, o desfecho bem-sucedido de sábado é um testemunho da vontade e dedicação dos povos do Sudão e do Sudão do Sul e de seus líderes. Eles mostraram que, mesmo nas circunstâncias mais difíceis, a paz é possível se as pessoas estiverem dispostas a fazer escolhas difíceis e a permanecerem fiéis a elas.

Assim como a independência era possível, uma paz duradoura entre Sudão e Sudão do Sul também é. Décadas de guerra deixaram em ambos os lados uma profunda desconfiança e desafios sociais, políticos e econômicos significativos. Os dois países terão de dar passos decisivos para consolidar o processo. Primeiro, eles precisam voltar rapidamente à mesa de negociação e procurar completar os assuntos inacabados do Acordo Abrangente de Paz.

Isso significa acertar questões marcantes relacionadas a finanças, petróleo e cidadania; demarcar as áreas fronteiriças pendentes; e aplicar completamente seu acordo sobre arranjos temporários para a área contestada de Abyei, que se encontra na fronteira entre o Sudão e o Sudão do Sul, incluindo o reposicionamento de todas as forças militares sudanesas. Não se deve permitir que a violência que ocorreu em Abyei nos últimos meses retorne e coloque em risco a paz maior.

Segundo, o Sudão do Sul precisa enfrentar seus desafios internos. Seu povo enfrenta uma situação de pobreza atroz, de educação e saúde inadequadas e a presença contínua de grupos milicianos armados. Para ser bem-sucedido, o Sudão do Sul terá de começar a construir um governo democrático, que respeite os direitos humanos e forneça serviços com transparência e responsabilidade.

Ao longo dos anos, especialistas americanos em desenvolvimento no Sudão do Sul ajudaram a construir novas estradas, clínicas e escolas; trabalharam com agricultores para aumentar a produção de alimentos e treinaram funcionários públicos mais eficazes. No futuro, os Estados Unidos e o mundo estarão lá, enquanto o Sudão do Sul assenta as bases para seu futuro.

Terceiro, o Sudão precisa enfrentar seus próprios desafios. O futuro do Sudão repousa em sua capacidade para pôr fim a seu isolamento na comunidade internacional. Essa é a única maneira que lhe assegurará acesso a financiamento, investimentos e alívio da dívida internacionais.

Pacificação. Os EUA estão preparados para ajudar - começando pela normalização de relações bilaterais. Mas só poderá haver um avanço se o Sudão cumprir suas obrigações e demonstrar seu comprometimento com a paz dentro de suas fronteiras e com seus vizinhos.

Uma iniciativa urgente que ambos lados precisam empreender é acertar o fim das hostilidades no Estado fronteiriço de Cordofão do Sul iniciadas no começo de junho. Estamos profundamente preocupados com os contínuos bombardeios aéreos, a perseguição de funcionários da ONU e a obstrução dos esforços de ajuda humanitária. Quanto mais tempo durarem esses combates, mais difícil será resolvê-los.

Continuamos profundamente preocupados também com a crise humana e de segurança em Darfur. O governo do Sudão precisa agir para enfrentar as mazelas econômicas e políticas do povo de Darfur e cobrar a responsabilidade dos que cometem os crimes. Os Estados Unidos continuarão trabalhando com parceiros internacionais para avançar a partir do progresso feito no processo de paz que está se aproximando agora de um desfecho.

Após décadas de conflito, o povo dessa região tem razões para alimentar novas esperanças. Quando me reuni com líderes do Sudão e do Sudão do Sul, no mês passado, em Adis-Abeba, lembrei-lhes de que têm o poder de traçar um futuro melhor para todos os sudaneses. Se o fizerem, podem estar certos de que os EUA serão um parceiro constante. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

É SECRETÁRIA DE ESTADO DOS EUA

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