Uma estratégia própria para o novo líder libanês

Mandato de Mikati, que luta contra uma impressionante variedade de influências,será definido por sua capacidade de forjar uma independência da Síria e do Hezbollah

ANTHONY SHADID, O Estado de S.Paulo

30 de janeiro de 2011 | 00h00

Najib Mikati, o bilionário apoiado pelo movimento xiita Hezbollah que será o primeiro ministro do Líbano, prometeu na quarta-feira manter boas relações com os Estados Unidos e declarou que não interferirá na investigação que está sendo feita por um tribunal internacional sobre o assassinato do ex-premiê Rafik Hariri, que possivelmente levará ao indiciamento de membros do Hezbollah.

As observações feitas pelo novo premiê durante uma entrevista são um sinal claro de que ele pretende seguir uma trajetória independente num país que até hoje não se recuperou da sua pior crise em anos e entabula um novo alinhamento de poder em que a Síria novamente exerce grande influência.

Mikati está sendo bastante pressionado para denunciar o tribunal e seus partidários e opositores admitem que a capacidade dele para forjar essa independência é que vai definir seu mandato. "Não podemos nos permitir ter um inimigo", disse ele.

Cordial e simpático, Mikati, de 55 anos, luta contra uma impressionante variedade de influências que expressa o destino desse país mediterrâneo. Embora pequeno e relativamente insignificante como nação, o Líbano há muito tempo serve como arena de batalhas maiores do que ele próprio, que envolveram Estados Unidos e França, assim como também Síria, Irã, Arábia Saudita e outros países da região.

Disputa. O tribunal é a mais recente personificação dessa disputa. O Hezbollah, movimento muçulmano xiita, quer desacreditar essa corte e acusa os Estados Unidos e Israel de controlá-la para incriminar o movimento no assassinato com um carro-bomba do ex-premiê em 2005. Quando o filho de Hariri, Saad, predecessor de Mikati, recusou-se a denunciar o tribunal, o movimento retirou seu apoio, levando o governo, que durou 14 meses, ao colapso e provocando uma implacável disputa.

Os Estados Unidos insistem que o tribunal tem de continuar o processo sem impedimentos, como acham os rivais do Hezbollah no Líbano. Para muitos deles, o novo premiê está comprometido com o Hezbollah.

"Não vou adotar nenhuma medida contra o tribunal sem o pleno consenso dos libaneses", declarou Mikati, conhecido no Líbano como homem político e filantropo.

Questionado sobre se o Hezbollah aceitaria essa posição, ele respondeu com indignação: "Como primeiro-ministro, sou eu quem decidirá. Se não aceitarem, que não aceitem".

Até mesmo os amigos de Mikati, que enriqueceu trabalhando com telecomunicações e é um dos homens mais ricos do mundo, admitem que sua tarefa é gigantesca. Ele teve o crucial apoio do Hezbollah e a sua aliada, a Síria, mas seu eleitorado, e mesmo sua cidade natal, estão do lado de seus adversários.

Ele terá de conviver com políticos sobre os quais pesam muitas acusações de ser traidores e de "apunhalar pelas costas". E os Estados Unidos, embora menos enérgicos do que era esperado, já advertiram: "À medida que observarmos como esse novo governo atua, vamos julgá-lo de acordo", disse a secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton, na terça-feira, após a escolha do novo primeiro-ministro.

"Gostaria de dizer "obrigado" à senhora Clinton por isso", declarou o novo premiê. "A senhora poupou-me uma declaração. Não faça prejulgamentos. Espere e veja. E tenho muita vontade de encontrá-la."

Quanto ao que o novo premiê representa, este é um assunto de intenso debate no Líbano. O líder do Hezbollah, Hassan Nasrallah, rejeita as opiniões de que Mikati foi o candidato do movimento e destaca que ele foi escolhido pela maioria do Parlamento. "O que fizemos foi normal e de acordo com nosso direito constitucional", declarou Nasrallah.

Mas a própria legitimidade do novo premiê está sendo profundamente questionada num sistema que divide rigorosamente os ganhos políticos entre as várias seitas: os cristãos maronitas (o presidente é sempre maronita), os muçulmanos sunitas (o primeiro-ministro é sempre sunita) e os muçulmanos xiitas (o presidente do Parlamento é sempre xiita).

Mikati é sunita, mas o apoio que desfruta, pelo menos da população, é irrisório comparado ao de Saad Hariri, cujo movimento mobilizou os seguidores que realizaram protestos violentos na terça-feira, numa demonstração de forma. Em Trípoli, cidade natal de Mikati, manifestantes rasgaram fotos dele e as queimaram. Para alguns, ele é um traidor; outros o ridicularizaram como agente do Hezbollah.

"Ele é sunita, mas a maneira como foi nomeado ficou desacreditada", disse Nouhad Mashnouq, membro do Parlamento e aliado do bloco de Hariri.

Em vários aspectos, este governo está na esfera dos interesses sírios e do Hezbollah. Numa entrevista concedida a um popular programa de TV, Mikati afirmou que ele e Hariri "são um só. O apresentador contestou: "Saad Hariri não deseja ser um com o senhor".

Traição. De fato, Saad Hariri, que se queixou de "um forte sentimento de traição" nas negociações que levaram à nomeação de Mikati, pareceu especialmente abatido quando o novo premiê fez-lhe uma visita de oito minutos na quarta-feira. O novo premiê descreveu o encontro como "não muito caloroso".

Na entrevista, Mikati afirmou que os protestos, cuja violência surpreendeu até mesmo partidários de Saad Hariri, eram irrelevantes diante do apoio que ele desfruta dentro da comunidade, cujo poder diminuiu na última década. Ele insistiu que seus seguidores superam "milhares de vezes" o número de manifestantes.

Por mais de uma década após o fim da Guerra do Líbano nos anos 90, um conflito que durou 15 anos, o país foi governado por um consenso entre sírios e sauditas, e toda uma classe política, incluindo o pai de Saad Hariri, e Najib Mikati, atendeu seus interesses.

Com as rixas ao longo dos anos, esse acordo desmoronou com o assassinato do pai de Hariri e o país passa por um difícil, às vezes violento e sempre caótico, processo de elaboração de novas regras para governar.

Mikati há muito tempo mantém laços com a Síria, que, segundo muitos acreditam, pretende criar uma alternativa para Hariri entre os sunitas do país. O próprio Saad Hariri desejava retomar as relações com a Síria, mas suas tentativas fracassaram nas negociações sobre um possível compromisso de aceitar o tribunal e os indiciamentos propostos por ele, que devem ser publicados dentro de semanas.

A influência da Arábia Saudita parecia ter diminuído nos últimos tempos, e uma pergunta que tem sido feita com frequência é por que ela não interveio de modo mais agressivo para proteger Hariri.

"Francamente, é difícil decifrar os sauditas", disse um funcionário de alto escalão aliado de Hariri, que não quis se identificar. Por outro lado, Mikati disse que está em "contato constante" com as autoridades sauditas.

No entanto, o problema mais urgente é o tribunal internacional. Apesar da sua firmeza, muitos acham que Mikati não conseguirá resistir à pressão para denunciar a Corte, mas ele poderá encontrar um mecanismo legal para pôr fim à colaboração do Líbano com ela.

"Tudo tem a ver com o tribunal", declarou Sateh Noureddine, colunista do jornal de esquerda As Safir. "Eles querem que Mikati o condene e deixe de cooperar com o tribunal o mais breve possível. É um assunto urgente e delicado. E ele vai anunciar exatamente isso."

De acordo com o funcionário de alto escalão ligado a Hariri, "a oposição a esse tribunal será monumental". / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É CORRESPONDENTE NO LÍBANO E IRAQUE

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