Julia Rendleman/Washington Post
Julia Rendleman/Washington Post

Uma ex-espiã no Congresso dos Estados Unidos

Democrata Abigail Spanberger, eleita pela Virgínia, assume nesta quinta-feira vaga na Câmara dos Deputados; Congresso têm ao menos dez que trabalharam com material confidencial, diz escritório especializado em assuntos públicos

Ian Shapira / The Washington Post, O Estado de S.Paulo

03 Janeiro 2019 | 05h00

GLEN ALLEN, ESTADOS UNIDOS - Quando Abigail Spanberger aceitou a vida secreta de uma agente da CIA, ela nunca imaginou sair do anonimato.

Ela cuidou e recrutou espiões na Europa, onde se especializou em contraterrorismo e questões de proliferação nuclear. E aspirou ser nomeada de chefe de estação, o equivalente em Langley, sede da CIA nos Estados Unidos, a embaixador. Em vez disso, deixou a agência em 2014 em busca de uma vida menos nômade após ter três filhos.

Então, veio a presidência de Donald Trump e um clima polarizado em que o partidarismo muitas vezes triunfou sobre os fatos. E Abigail decidiu fazer algo profundamente radical para uma ex-espiã: se  candidatou-se à Câmara dos Deputados e foi eleita.

Hoje, quando os novos congressistas tomam posse, ela se juntará a uma pequena vanguarda de ex-funcionários de inteligência que se transformaram em legisladores.

“Deixar a CIA foi a maior perda da minha vida. Fiquei de luto (por sair) da agência. Sinto falta de lá todos os dias” disse Abigail, de 39 anos, uma das três ex-funcionárias da CIA que trabalharão no Congresso.

A ideia de ex-espiões pleiteando cargos políticos teria sido considerada por gerações anteriores um sacrilégio, disse Leon Panetta, que dirigiu a agência depois de mais de 15 anos como membro do Congresso.

“Os antigos caras de Yale diriam, ‘o que está acontecendo? Você precisa ser secreto e anônimo e deixar o jogo político para os outros caras que não sabem o que estão fazendo’”, disse Panetta. “Mas os jovens na CIA agora não estão preocupados com legados no ramo da inteligência e reconhecem que é importante se envolver com a política porque, se não o fazem, outros distorcem o trabalho das agências.”

Abigail, que trabalhou na CIA por oito anos, estará no Congresso ao lado de outros dois antigos agentes: Elissa Slotkin, de 42 anos, uma analista que foi ao Iraque três vezes; e Will Hurd, de 41 anos, que trabalhou à paisana no Oriente Médio e no Sudeste Asiático.

“Para muitos de nós com carreira em segurança nacional, trazer a nossa história para o serviço público sem as lentes partidárias é importante”, disse Abigail. “Nós trabalhamos sob presidentes republicanos e democratas.”

Apesar da atenção dada a Abigail e Elissa por serem espiãs que se tornaram congressistas, o caminho trilhado por elas não é inéditos.

Porter Goss começou a sua carreira como um agente clandestino nos anos 1960 e ficou no Congresso de 1989 a 2004 até retornar a Langley, como diretor. Bob Barr, ex-analista latino-americano, foi congressista de 1995 a 2003 (ele concorreu em 2008 a presidência como libertário, assim como o ex-funcionário de operações da CIA Evan McMullin, que disputou a Casa Branca em 2016 como independente).

Além de Abigail, Elissa e Hurd, o Congresso dos EUA inclui pelo menos dez outras pessoas que trabalharam com material confidencial na área militar ou no Conselho Nacional de Segurança, de acordo com o Quorum, escritório de análise de assuntos públicos.

Panetta, diretor da CIA de 2009 a 2011 no governo de Barack Obama, acredita que os ataques de Trump contra a comunidade de inteligência incentivaram pessoas da área a entrar no campo político.

Nove dias antes da sua posse, Trump relacionou as agências de inteligência americanas a nazistas depois que surgiram as notícias sobre a ajuda da Rússia na campanha do atual presidente. “Nós estamos vivendo na Alemanha nazista?”, escreveu ele no Twitter.

Trump também questionou constantemente descobertas das agências de espionagem americanas, incluindo as ameaças nucleares da Coreia do Norte, o cumprimento pelo Irã a um acordo nuclear com os EUA e o envolvimento do príncipe da Arábia Saudita, Mohammed bin Salman, na morte do jornalista Jamal Khashoggi.

Abigail disse que ficou surpresa quando Trump, no seu primeiro dia como presidente, visitou a sede da CIA e fez um discurso repleto de erros na frente de um memorial que honra os agentes mortos em trabalho. Ele se gabou de quão jovem se sentia, atacando repórteres como “os humanos mais desonestos da Terra” e afirmou erroneamente que esteve na capa da revista Time mais que qualquer um.

Abigail ficou perturbada com a rejeição de Trump sobre a avaliação da comunidade de inteligência americana quanto à interferência russa nas eleições presidenciais de 2016. “Eu sei o que é organizar relatórios de inteligência”, disse. “E ele ficar do lado de um adversário estrangeiro contra o nosso país é assustador para mim.”

No Congresso, ela acredita que a sua experiência com informantes ajudará a superar a divisão com os republicanos. “Eu era responsável pela segurança. Trabalhar com os outros é sobre construir confiança e relacionamentos com pessoas do outro lado do corredor que não querem trabalhar com democratas”, afirmou.

Ela também disse que a CIA a preparou rapidamente para ser uma especialista em assuntos complexos. “Um dia, estava trabalhando em casos nucleares, no outro em casos de drogas e no outro em liderança política”, contou Abigail, que trabalhou em uma consultoria educacional antes de cehgar ao Congresso. “Tive que ir nos interrogatórios com cientistas e ser capaz de fazer questões específicas. Estou mais acostumada a isso do que a maior parte dos deputados.”

Ela gostaria de trabalhar na Comissão de Agricultura, mas, é claro, aguarda um lugar na Comissão de Inteligência. “Quando estava colocando minhas preferências para as comissões, falei: ‘Onde eu poderia ser mais útil?’”, afirmou. “Eles costumam não colocar deputados de primeiro mandato na comissão. Eu ficaria surpresa se conseguisse, mas há razões suficientes para isso fazer sentido.”

Junto com Abigail, Elissa espera poder usar sua expertise para assuntos de cibersegurança e interferência dos russos nas eleições. Ela relacionou sua posição no Congresso com o seu cargo de analista de inteligência. “Meu trabalho era separar o joio do trigo, reduzi-lo e apresentar aos funcionários sênior”, disse.

Durante a sua campanha, Abigail não foi tímida sobre usar a agência como uma vantagem. Em um vídeo biográfico, ela publicou uma foto com o ex-diretor da CIA Michael Hayden e o ex-diretor-assistente Stephen Kappes, uma imagem que teve autorização de uso concedido pela CIA. No Twitter, ela cita o seu histórico com a CIA em mais de 40 tuítes, de acordo com o Quorum.

Mas mesmo que Abigail esteja se revelando em seu novo cargo público (uma das suas últimas fotos no Instagram mostra ela, o marido e três filhas vestindo pijamas de Natal), ela ainda mantém segredos. Ela não pode dizer exatamente onde trabalhou na Europa Ocidental. Ela não pode contar quando esteve disfarçada no exterior nem pode dizer o que fez na “Costa Oeste” pela agência. Também não pode sequer explicar os símbolos de uma medalha dourada que ganhou da CIA após o seu treinamento 2007.

A pequena lembrança, que mantém em uma gaveta com o seu anel de noivado, mostra uma águia e uma tocha, com os números 20-339 no verso. O que significam os números? Ela não diz.

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