Uma execução de 70 anos que pode ter sido injusta

George morreu na cadeira elétrica, aos 14 anos, após confessar assassinato de 2 meninas brancas na Carolina do Sul; 7 décadas depois, tribunal revê depoimentos e ouve especialistas

Alan Blinder*, The New York Times/O Estado de S.Paulo

26 de janeiro de 2014 | 02h06

Depois que a Carolina do Sul eletrocutou George J. Stinney Jr., em 1944, sua família enterrou o corpo queimado do rapaz de 14 anos num túmulo não marcado na esperança de que o anonimato lhe permitisse descansar em paz. Mas em duas manhãs na última semana, quase 70 anos após a eletrocução que fez de George, um adolescente negro no Sul segregacionista, o mais jovem executado nos Estados Unidos no século 20, advogados e espectadores se aglomeraram numa sala de tribunal com uma agenda muito diferente: lançar luz suficiente sobre o caso para tentar limpar o nome de George.

"Quando examinei o caso, vi o que havia ali e o estudei. Foi estarrecedor", disse Miller W. Shealy Jr., um dos advogados que aceitaram ajudar a família Stinney em sua busca de um novo julgamento ou uma anulação de veredicto. Ele acrescentou que o caso transcorreu na "velha Carolina do Sul". "Mesmo assim é estarrecedor."

A juíza Carmen T. Mullen, do Tribunal Itinerante, não decidiu sobre os pedidos ao fim da audiência de dois dias, e pediu mais informações por escrito nas próximas semanas. Mas num Estado onde questões raciais ainda cozinham em fogo brando - a presença de uma insígnia dos Confederados na Assembleia Estadual foi objeto de uma manifestação -, os procedimentos foram uma lembrança de um passado difícil tão recente que duas irmãs de George estavam no tribunal.

Quando um advogado perguntou a Amie Ruffner, uma das duas, do que ela se lembrava de sua infância na era Jim Crow na Carolina do Sul, ela respondeu "nada de bom".

Uma parte enorme dessa infância sofrida foi a morte de seu irmão, executado menos de três meses depois que duas meninas brancas, de 7 e 11 anos, foram encontradas mortas em Alcolu, a cidade industrial onde George vivia, em março de 1944. O menino, que com seu pai integrou o grupo que procurou pelas duas meninas, foi preso logo depois de os corpos terem sido encontrados numa valeta, mortas a golpes de um cravo de ferrovia.

Investigadores disseram então que o garoto havia admitido o assassinato das meninas depois que lhe pediram sugestões sobre onde encontrar flor-da-paixão, uma flor comum na área. Sua confissão e outros registros do caso foram perdidos. O julgamento programado às pressas durou apenas horas e ele foi executado naquele mesmo mês de junho.

Embora a juíza Mullen tenha declarado, no começo dos procedimentos da semana, que não analisaria a culpa ou inocência de George, a audiência ganhou atmosfera de um julgamento, embora um tanto misturado com as lições da história. "Em 1944, nós deveríamos estar mais bem preparados, mas não estávamos", disse Ernest A. Finney III, procurador do Terceiro Tribunal Itinerante em Sumter, que estava contestando o pedido em nome do Estado. Shealy disse que o Estado devia ao menino um resultado diferente, mesmo que uma decisão favorável provocasse uma enxurrada de apelações em outros casos antigos. "O Estado realmente precisa dizer, 'isso foi errado'", ele disse.

Com a perspectiva de novo julgamento, ainda que distante, a juíza Mullen ouviu argumentos legais que tocaram em questões como princípios judiciais e indagações sobre os limites da memória - particularmente importantes porque muitos registros foram destruídos.

Testemunhas analisaram fotos e um grande mapa, cuja precisão foi questionada. Advogados fizeram perguntas pontuais durante exames cruzados. Um patologista expressou dúvidas sobre a validade das autópsias das duas vítimas e uma psiquiatra lançou questões sobre a validade de uma confissão que George fez a investigadores. "A confissão bate com as evidências? Não", disse a advogada Amanda B.

Salas, uma psiquiatra forense de crianças e adolescentes que estudou o caso antes de começar a analisá-lo em nome da família Stinney, há menos de duas semanas, disse que a admissão foi "uma confissão coagida, obrigada e falsa", mas advertiu que não tinha evidências de má conduta dos investigadores. Ela atribuiu a confissão mais à vulnerabilidade do rapaz como um adolescente negro enfrentando o escrutínio por autoridades brancas.

Esses ecos do passado do Estado entraram em jogo quando cada lado trouxe para o banco testemunhas com posições arraigadas sobre se George merece um julgamento que, ambas as partes reconhecem, não poderá trazer o rapaz de volta. "Gostaria de vê-los reconhecer que ele era inocente", disse outra irmã de George, Katherine Robinson, uma professora aposentada.

Frankie Bailey Dyches, sobrinha de uma das vítimas, disse que não ficou comovida com tais apelos. "Acredito que ele confessou", disse Dyches, que nasceu após os assassinatos de 1944. "Ele foi julgado, considerado culpado pelas leis de 1944, que são completamente diferentes de agora - não podem ser comparadas - e acho que as coisas devem ser deixadas como estão." Ela disse também: "Ouvi histórias aqui que acredito que são falsas. Isso não muda meus sentimentos sobre o que houve".

Apesar do testemunho diferente, Finney, filho do primeiro presidente negro da Suprema Corte Estadual desde a Reconstrução, disse que considerou a sessão catártica para pessoas da região, que já viram o caso ser tema de uma produção teatral e de um filme de 1991. "Acho que foi benéfico para a comunidade, e espero que a família Stinney sinta que fizemos algum bem", disse ele.

*Alan Blinder é jornalista.

TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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