Uma Força Aérea de robôs contra novo inimigo

Tragédia de 2001 deu impulso à revolução de aviões não tripulados

Roberto Godoy, O Estado de S.Paulo

04 Setembro 2011 | 00h00

Na primeira terça-feira de outubro de 2001, o piloto de combate Michael W. tomou café da manhã na casa dos pais: "panquecas com calda de mirtilo e pão de milho doce", lembra. Na madrugada seguinte, ele estaria em uma base de transição na Ásia, a caminho do Paquistão. A bordo de um caça F-16, Mike cumpriria dezenas de missões de ataque durante a guerra de 70 dias no Afeganistão até a queda do regime taleban - que, segundo o governo de George W. Bush, dava abrigo e apoio logístico à Al-Qaeda.

Fazia frio em Iowa naquele outono. Na hora da despedida, o pai de Mike, veterano do Vietnã, bateu uma solene continência para o filho. Daniel W. morreria de enfarte três semanas depois, trabalhando na lavoura de milho da família. Foi sepultado ao lado do avô de Mike, piloto na Guerra da Coreia.

O mais novo das três gerações de militares acabou no Brasil, engenheiro de uma empresa do setor petrolífero. Antes disso, integrou o grupo de especialistas da Força Aérea encarregados das definições dos aviões não tripulados (UAVs, na sigla em inglês).

Esse novo equipamento representaria a mais importante revolução tecnológica decorrente dos atentados de 2001. Segundo Mike, os EUA dispunham, em condições de uso, de apenas um modelo, o Predator-I, equipado com um conjunto eletrônico de baixa resolução. Hoje, o programa dessa aeronave está em sua quarta geração. Lança mísseis e bombas de precisão. Pode permanecer no ar por 24 horas. Suas lentes e sensores funcionam em quaisquer condições, dia e noite. Até maio haviam sido fabricados cerca de 500 deles, ao custo unitário de US$ 4,5 milhões. Não é a versão mais sofisticada.

O RQ-4 Global Hawk, da Northrop Grumman, é o maior e o mais avançado entre os 47 diferentes UAV"s dos EUA. Boa parte de suas capacidades são ainda mantidas em sigilo. As informações sobre o eventual sistema de armas, por exemplo. Grande como um avião de 16 lugares, o Global Hawk mede 13,54 metros e tem 35,4 m de envergadura. Na velocidade de cruzeiro, cerca de 650 km/h (a máxima é de 800 km/h), pode permanecer 36 horas no ar, coletando informações sobre uma área de 103,6 mil quilômetros quadrados.

Bases em terra. O RQ-4 decola no Afeganistão - mas é pilotado de terra, em bases remotas, uma delas no Estado do Wisconsin, no centro-leste do território americano. Custa US$ 39 milhões cada. Mas o programa de desenvolvimento já consumiu US$ 1,64 bilhão, aplicados na 1,5 tonelada dos recursos eletrônicos de bordo - destinados a localizar, identificar e seguir dezenas de alvos simultaneamente, orientando as armas contra eles. Em missão de inteligência, faz a mesma coisa, mas escutando e registrando imagens mesmo sob nuvens pesadas ou tempestade de areia.

É proporcionalmente pouco dinheiro numa guerra que, até maio, custou US$ 1,2 trilhão e mudou tudo - até a arquitetura das Forças. Gradualmente, os 2 milhões de combatentes americanos serão readequados em unidades de ação específica, mobilização e deslocamento rápidos. No viés da inteligência, movimento radical. As 13 agências que havia antes dos atentados são atualmente 19. Em 2010, o número de funcionários empregados nelas chegava a 854 mil.

Aliado" na mira

Só em 2010, estima-se que aviões não tripulados dos EUA tenham atacado 120 vezes o Paquistão, suposto aliado de Washington contra a Al-Qaeda. Entre 600 e 1.000 pessoas teriam morrido

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