Uma guerra mais cara do que pensávamos

Cálculos conservadores estimam que mais de US$ 3 trilhões foram gastos no Iraque, mas, se incluirmos os custos de oportunidade, o prejuízo é ainda mais desastroso

Joseph E. Stiglitz & Linda J. Bilmes / The Washington Post, O Estado de S.Paulo

11 de setembro de 2010 | 00h00

Em 2008, calculamos o custo total da guerra no Iraque em US$ 3 trilhões. O cálculo superou os anteriores, incluindo os do governo George W. Bush, de uma guerra que custaria até US$ 60 bilhões. Hoje, parece que nossa estimativa foi baixa. O custo de diagnosticar, tratar e indenizar veteranos, por exemplo, foi maior do que esperávamos.

Dois anos depois, ficou claro que nosso cálculo não considerou o que os economistas chamam de custos de oportunidade. Por exemplo, muitos se perguntam se não fosse a invasão ao Iraque estaríamos atolados no Afeganistão. Esse não é o único "se" que merece consideração. Se não fosse a guerra no Iraque, os preços do petróleo teriam subido tão rapidamente? A dívida federal estaria tão alta? A crise econômica teria sido tão aguda? A resposta é, provavelmente, não. Um das regras da economia é que os recursos são escassos. O que foi gasto em um teatro, o Iraque, não ficou disponível para outros.

Afeganistão. A invasão do Iraque desviou nossa atenção da guerra afegã, que já dura dez anos. Embora qualquer sucesso no Afeganistão seja sempre enganoso, provavelmente teríamos sido capazes de assegurar maior controle sobre o Taleban e sofrido menos baixas. Em 2003, ano da invasão ao Iraque, os EUA reduziram os gastos no Afeganistão de US$ 20 bilhões para US$ 14,7 bilhões, enquanto despejaram US$ 53 bilhões no front iraquiano. De 2004 a 2006, gastamos quatro vezes mais no Iraque do que no Afeganistão. É difícil acreditar que hoje estivéssemos enredados em um conflito sangrento no Afeganistão se tivéssemos empenhado ali os recursos mobilizados no Iraque. Um reforço dos contingentes, em 2003, teria sido muito mais eficaz do que em 2010.

Quando os EUA foram à guerra no Iraque, o petróleo estava em menos de US$ 25 o barril e os mercados apostavam que ficaria assim. Com a guerra, os preços subiram, atingindo US$ 140 o barril, em 2008. Acreditamos que a guerra e seu impacto no Oriente Médio, maior fornecedor mundial de petróleo, foram cruciais. Não só a produção iraquiana foi interrompida, mas a instabilidade derrubou os investimentos na região. Ao calcular nossa estimativa, culpamos a guerra por um aumento de US$ 5 no preço do barril. Hoje, acreditamos que o impacto dela nos preços seja de US$ 10 por barril, o que significa mais US$ 250 bilhões em custos diretos em nossa estimativa inicial.

Dívida federal. A guerra no Iraque contribuiu para o crescimento da dívida federal. Foi a primeira vez na história dos EUA que o governo cortou impostos durante um conflito. Resultado: uma guerra totalmente financiada por empréstimos. A dívida americana cresceu de US$ 6,4 trilhões, em março de 2003, para US$ 10 trilhões, em 2008, antes da crise financeira. Pelo menos um quarto desse aumento pode ser atribuído à guerra. E isso não inclui pagamentos por assistência médica e invalidez a veteranos, que somarão outros US$ 500 bilhões à dívida. Em razão de duas guerras caras financiadas por dívidas, nossa situação fiscal estava em péssima forma antes mesmo da crise financeira, o que contribuiu para a recessão.

Crise financeira. A crise global resultou, em parte, da guerra. Preços mais altos do petróleo significaram mais dinheiro para importar o produto e menos recursos gastos em casa. Os custos da guerra frearam a economia. Pagar empreiteiros estrangeiros no Iraque não foi nem um estímulo de curto prazo nem base para o crescimento no longo prazo. Ao contrário, uma política monetária flexível e regulamentos frouxos mantiveram a economia andando - até a bolha imobiliária estourar, provocando a crise.

Dizer o que poderia ter sido é sempre difícil, em especial com algo tão complexo como a crise financeira global, para a qual contribuíram muitos fatores. Talvez ela tivesse ocorrido de qualquer jeito, mas, certamente, com mais gastos em casa, sem taxas de juros tão baixas e uma regulação tão frouxa para manter a economia andando, a bolha teria sido menor e as consequências menos severas. A guerra contribuiu indiretamente para uma política monetária e regulamentos desastrosos. Além de ter contribuído para a severidade da crise, ela também nos impediu de reagir efetivamente a ela.

O endividamento deixou o governo com menos margem de manobra. Preocupações com dívida e déficit limitaram o tamanho do estímulo e continuam dificultando nossa capacidade de reagir à recessão. Com a taxa de desemprego alta, o país precisa de um segundo estímulo. Mas, a dívida tira o apoio a um novo pacote. O resultado é que a recessão será mais longa, a produção menor, o desemprego mais alto e os déficits maiores do que seriam se não fosse a guerra. Parece claro que, sem a guerra, não só o prestígio dos EUA no mundo seria maior como nossa economia seria mais forte. A questão hoje é a seguinte: saberemos aprender com o erro? / TRADUÇÃO DE CELSO M. PACIORNIK

JOSEPH E. STIGLITZ E LINDA J. BILMES SÃO COAUTORES DO LIVRO "THE THREE TRILLION DOLLAR WAR: THE TRUE COST OF THE IRAQ CONFLICT" (A GUERRA DE US$ 3 TRILHÕES: O VERDADEIRO CUSTO DO CONFLITO NO IRAQUE)

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