JOEL SAGET / AFP
JOEL SAGET / AFP

Uma guerrilha de artistas afegãos tenta resistir ao regime do Taleban

'A arte pode abrir a mente das pessoas. É por isso que os taleban têm medo dos artistas', diz a atriz Yasamin Yarmal

Joris Fioriti e Usman Sharifi/AFP, O Estado de S.Paulo

22 de setembro de 2021 | 15h00

Dois dias após a entrada do Taleban em Cabul, em 15 de agosto, Sara pegou as placas de terracota que tinha pintado com imagens de mulheres afegãs inspiradoras e atirou-as ao chão.

“A arte era a minha vida”, diz a artista de 26 anos, que pediu para não usar o seu verdadeiro nome. 

“Não tenho futuro”, lamenta a jovem, aterrorizada com o regresso dos islamistas radicais ao poder.

Durante o seu regime anterior (1996-2001), as mulheres foram expulsas da vida pública. Os taleban também proibiram a música, acabaram com a arte e o patrimônio cultural, tais como os antigos Budas gigantes de Bamiyan.

Assustados com os novos governantes, artistas como Sara destruíram o seu trabalho, e os músicos quebraram os seus instrumentos.

“A arte, para mim, era ser capaz de expressar tudo o que não podia dizer com palavras”, especialmente “sobre a violência contra as mulheres”, diz ela.

Grafite guerrilheiro

Cabul mudou drasticamente desde o último regime taleban. Sara faz parte de uma nova geração, que cresceu com acesso às redes sociais, numa capital onde a arte e a cultura começavam a florescer.

Agora, ela quer usar esta arte para protestar contra o Taleban. Sua esperança é trabalhar com uma guerrilha de artistas de graffiti para divulgar sua mensagem.

“Eu quero sair à noite e pintar arte anti-Taleban”, diz ela. 

Maryam, também uma artista de 19 anos, cujo nome foi alterado pela AFP para este texto, quer publicar criações digitais anti-Taleban no Instagram.

Um exemplo: uma menina desabotoa o topo de uma burca da qual os pombos fogem.

“A arte está morrendo no Afeganistão”, diz ela. Mas “combaterei os taleban, não com armas, mas com o meu trabalho”.

Um futuro "obscuro e incerto”

Ramin Mazhar ainda era uma criança quando os taleban governaram Cabul pela última vez.

Duas décadas mais tarde, e vivendo na França, tornou-se um dos poetas mais conhecidos de seu país.

“Não tenha medo do amor, da esperança, do amanhã”, recita em persa dari, versos que se tornaram um hino para a juventude afegã. 

“Te beijo entre os taleban, não tenha medo”.

Os seus poemas, transformados em canções, foram vistos centenas de milhares de vezes no YouTube. Mas quando Mazhar tentou procurá-los recentemente, eles tinham sido eliminados.

As pessoas destroem a sua obra e eliminam as suas publicações num "suicídio" artístico, diz o poeta.

“Muitos foram forçados a autocensura para protegerem suas vidas. Isto torna obscuro e incerto o futuro da arte no Afeganistão. Não sabemos para onde vamos”, adverte.

Mas ele não quer desistir. “A arte existe onde quer que o homem exista (...) Talvez a arte continue em segredo, clandestinamente ou ilegalmente”, diz ele.

Em Paris, o artista Rada Akbar planeja uma exposição de pinturas em miniatura para ilustrar que “os taleban não são o verdadeiro Afeganistão, e que não representam a história e a cultura do país”.

A atriz Yasamin Yarmal fugiu para França no mês passado com a família, como dezenas dos seus pares.

Em 1997, os taleban invadiram sua casa e espancaram seu filho deficiente até a morte, conta. “Não queria voltar a passar por isso”, diz ela.

“A arte pode abrir a mente das pessoas. É por isso que os taleban têm medo dos artistas”, completa.

Muitos dos que ficaram para trás no Afeganistão estão fechados em casa, com medo de sair e preocupados, sem futuro.

Sodaba, uma atriz, diz receber telefonemas ameaçadores — fato que a AFP não pôde verificar — e, por isso, viver num “pesadelo”.

“Temos um grupo WhatsApp com outros artistas”, diz ela. “As pessoas dizem que os taleban criaram uma lista de pessoas para encontrar, e eu tenho medo de estar nela”.

“O mundo a um clique”

Farshad, co-fundador do colectivo ArtLords, que anteriormente cobria as paredes de Cabul com centenas de murais promovendo a paz e os direitos das mulheres, mantém a fé.

Ao contrário do regime anterior, os afegãos podem agora ter acesso à arte, música e filmes online.

“O mundo está a um clique de distância deles”, diz ele. “Será muito difícil para os taleban impor ou censurar a arte”, argumenta ele.

Os murais do seu colectivo foram cobertos com slogans de propaganda no esforço dos taleban de reimpor sua visão austera da sociedade.

Farshad vive agora em Paris, mas pede para falar sob um pseudônimo porque quer regressar a Cabul para ajudar outros artistas a fugirem.

“Penso que a arte não morrerá no Afeganistão (...) Tenho a certeza que um dia o movimento taleban morrerá, mas a arte ainda estará lá”, deseja.

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