Uma história por trás do mito

No episódio em que navios de URSS e EUA ficaram 'olho no olho', barco soviético estava a 750 milhas de distância

MICHAEL DOBBS*, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

17 de outubro de 2012 | 03h03

No último volume de sua famosa biografia de Lyndon Johnson, Robert Caro lembra de um mito equivocado que vem se perpetuando há muito tempo sobre a crise dos mísseis de Cuba.

Com base nos primeiros relatos da crise, ele descreve um enfrentamento ocorrido em 24 de outubro de 1962, entre destróieres americanos e navios soviéticos que transportavam mísseis nucleares para Cuba. Segundo Caro, as embarcações soviéticas estavam "a poucas milhas" da linha de bloqueio, quando mudaram a rota no último instante.

Neste momento, segundo o seu relato, o secretário de Estado Dean Rusk pronunciou a frase mais memorável da crise dos mísseis: "Nós os encaramos olho no olho e acho que o outro lado apenas piscou".

A imagem "olho no olho" estava carregada de grande emoção (e é lembrada no filme Os 13 dias que abalaram o mundo, de 2000), entretanto contribuiu para algumas das mais desastrosas decisões dos EUA em política externa, desde a escalada da Guerra do Vietnã, no mandato de Johnson, à invasão do Iraque, no de George W. Bush.

Se esse fosse apenas um debate acadêmico, não teria grande importância. Infelizmente, o mito tornou-se a principal referência da determinação pela qual os presidentes costumam ser avaliados. No mês passado, o primeiro-ministro israelense, Binyamin Netanyahu, pediu ao presidente Obama que estabelecesse um limite claro para o Irã, do mesmo modo que o "presidente Kennedy traçou um limite claro na crise cubana dos mísseis".

Enquanto pesquisava num livro de 2008 sobre a crise dos mísseis, identifiquei as posições dos navios soviéticos e americanos naquele período, com base nos registros da inteligência dos EUA. E fiquei pasmo ao descobrir que, na época do suposto incidente "olho no olho", a nau capitânia soviética, o Kimovsk, se encontrava na realidade a 750 milhas de distância da linha de bloqueio, em direção à União Soviética. Preocupado em evitar um confronto naval, cerca de 30 horas antes, o premiê soviético, Nikita Kruchev, havia determinado uma mudança total do rumo dos cargueiros. A situação do presidente dos EUA era evidentemente a de um enfrentamento "olho no olho", mas na realidade isso nunca aconteceu.

Agora existem várias provas de que Kennedy - assim como Kruchev - tinha olhos muitos menos frios do que diziam os relatos iniciais da crise. As transcrições das fitas dos debates ocorridos na Casa Branca e anotações de alguns participantes mostram que Kennedy estava disposto a fazer importantes concessões, até mesmo uma troca dos mísseis soviéticos em Cuba por mísseis americanos na Turquia, e possivelmente a ceder a base naval americana de Guantánamo.

Embora, em outubro de 1962, o risco de guerra fosse muito grande (Kennedy o avaliou em 1 para 2), não foi provocado por um choque de vontades. Os perigos reais surgiram da "névoa da guerra". Quando as duas superpotências se preparavam para uma guerra nuclear, as possibilidades de incorrerem em um erro terrível aumentaram de maneira exponencial. A seu crédito, devemos reconhecer que tanto Kennedy quanto Kruchev compreenderam essa dinâmica, que se tornou particularmente evidente no dia mais tenso da crise, o "sábado negro", 27 de outubro.

Naquele dia, os dois líderes já não tinham o controle total de suas gigantescas máquinas militares, que avançavam movidas por um impulso próprio. As tropas soviéticas em Cuba tinham Guantánamo na mira de suas armas nucleares táticas e abateram um avião espião americano U-2. Outro U-2, que se encontrava em missão de "rotina" no Polo Norte, acabou se perdendo no espaço aéreo da União Soviética. Os soviéticos mandaram MiGs para tentar derrubar o intruso, e em resposta, o Comando da Defesa Aérea do Alasca enviou aviões interceptadores F-102 armados com mísseis nucleares táticos. No Caribe, o exausto comandante de um submarino soviético foi dissuadido por seus subordinados de usar seu torpedo nuclear contra destróieres americanos que queriam obrigá-lo a emergir.

Encerrado o episódio, os assessores de Kennedy tentaram sufocar a crise afirmando que o presidente estivera plenamente no controle da situação. Arthur Schlesinger Jr. elogiou posteriormente a "precisão matemática" com a qual Kennedy calibrou suas ameaças de uso da força contra Cuba e a União Soviética, bem como o "domínio de si, a clareza e o controle" do presidente.

Entretanto, as fitas da Casa Branca mostram que, naquele momento, Kennedy tinha uma visão bem menos clara do que a dos assessores e estava até mesmo cético a respeito do real valor dos "limites estabelecidos". Ele considerou o bloqueio - ou a "quarentena", como preferia chamá-la - a oportunidade de ganhar tempo para um acordo negociado. Mas seus conselheiros acabaram acreditando em sua própria propaganda. Eles acharam que estratégias como uma "escalada controlada" funcionariam igualmente bem contra os norte-vietnamitas. Na opinião de Clark Clifford, que sucedeu a Robert McNamara no cargo de secretário da Defesa em 1968, eles "tinham a convicção equivocada de que o poderio americano não poderia ser posto à prova com sucesso, independentemente das circunstâncias, por qualquer país do mundo".

Bush cometeu um erro fatal semelhante a esse, num discurso pronunciado em 2002 em Cincinnati, quando descreveu Kennedy como o pai de sua doutrina da guerra preventiva. Na realidade, Kennedy fez o possível para evitar essa guerra. Longe de "ignorar" a proposta de Kruchev de um acordo militar que envolvia Turquia e Cuba, Kennedy a achou "muito boa" e enviou o irmão para selar o acordo com o embaixador soviético Anatoly Dobrynin, na noite de 27 de outubro. Como foi revelado posteriormente, os americanos conseguiram manter segredo sobre o acordo dos mísseis durante décadas.

Ao decidir de que maneira responder a Kruchev, Kennedy foi influenciado pela leitura do livro Os canhões de agosto, que Barbara W. Tuchman escreveu em 1962 sobre as origens da 1.ª Guerra. A lição mais importante que ele extraiu dessa leitura foi que erros e equívocos podem originar uma imprevisível cadeia de acontecimentos, arrastando os governos a conflitos sem um conhecimento claro de suas consequências.

É uma lição que os presidentes Johnson e Bush deveriam ter tido a prudência de levar em conta ao considerar o que deveriam fazer no Vietnã e no Iraque, e permanece válida. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

*É POLÍTICO CONSERVADOR BRITÂNICO

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