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Uma ideia e uma arma

Omar Mateen, autor do ataque em Orlando, portava um fuzil de assalto à venda em sites americanos por algumas centenas de dólares e, com isso, entrou para a História como o responsável pelo mais sangrento atentado nos EUA desde o 11/9

ADRIANA CARRANCA, O Estado de S. Paulo

18 Junho 2016 | 05h00

Omar Mateen, o americano descendente de afegãos que matou 49 pessoas numa boate de Orlando, no domingo, portava um fuzil de assalto à venda em sites americanos por algumas centenas de dólares e, com isso, entrou para a História como o responsável pelo mais sangrento atentado nos EUA desde o 11/9. Uma ideia na cabeça e uma arma na mão. Terrorismo religioso? Crime de homofobia? 

O massacre deixou Donaldo Trump confuso: ele teve de decidir, entre bandeiras de sua campanha, se era mais homofóbico, xenófobo ou islamofóbico. Escolheu as duas últimas, atacando imigrantes em geral e muçulmanos em particular, por avaliar que essa narrativa lhe renderia mais votos, mas Trump nunca foi um defensor dos direitos dos gays. Deixemos de lado sua retórica incendiária. 

Cada um dos candidatos à Casa Branca tentou puxar a narrativa para o seu lado e tirar proveito político da tragédia – Hillary Clinton no centro, Bernie Sanders à esquerda, Trump à direita. E o Estado Islâmico pairando sobre suas cabeças, por supostamente inspirar o ataque, sem fazer realmente nada. Não é preciso ser do EI, nem muito inteligente ou perspicaz, para comprar uma arma de alta letalidade nos EUA. 

Não é preciso, mas, se você for um terrorista tampouco terá dificuldade em comprar uma – Mateen havia sido investigado duas vezes pelo FBI. A primeira, em 2013, após denúncias de pessoas próximas a ele sobre seu comportamento violento, falas racistas, homofobia flagrante (mais tarde, soube-se, misturada a questões sobre a própria sexualidade) e simpatia pelos homens-bomba do 11/9. A segunda, em 2014, por ligações com Moner Mohammad Abusalha, que deixou os EUA para se explodir num atentado na Síria. Isso não foi suficiente para impedir que Mateen comprasse duas armas, entre elas o fuzil. 

No Brasil, onde há algum controle, criminosos continuam armados, argumentam os defensores das armas. São duas faces do mesmo problema – nos EUA, porque são lenientes com as armas; aqui, porque somos lenientes com os que descumprem as leis (e não falo apenas dos que apertam o gatilho, mas dos que sustentam essa engrenagem letal, dos patrões de Brasília aos que financiam o tráfico em cada esquina). Aqui e lá, a sociedade arma criminosos e terroristas.

No rastro do 11/9, as autoridades temiam novos ataques espetaculares, com armas químicas ou biológicas. Não foi preciso: os terroristas têm causado grandes estragos com armas de fogo. São fáceis de adquirir, não requerem prática nem inteligência. No atentado de novembro, em Paris, não foram bombas que provocaram mais mortes, embora também tenham sido usadas, mas fuzis nas mãos de atiradores que abriram fogo contra as vítimas em quatro lugares. 

Somente no teatro Bataclan, eles mataram 90 pessoas (foram 130 no total). Foram também atiradores que deixaram 17 mortos na redação do Charlie Hebdo e em um supermercado kosher, em janeiro, assim como em atentados anteriores em Toulouse, Bruxelas, Copenhague. O acesso a armas é controlado em grande parte da Europa, mas é surpreendentemente fácil comprá-las. Algo como 6 milhões de armas ficaram para trás após as guerras nos Balcãs nos anos 90, diz a ONG suíça Small Arms Survey, e atravessam facilmente as fronteiras da UE.

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Sobre outros massacres, a Assembleia-Geral da Organização dos Estados Americanos (OEA) aprovou quarta-feira a Declaração pelos Direitos dos Povos Indígenas, 17 anos após escrito seu rascunho. É o primeiro instrumento de proteção no continente em séculos de sucessivas violações e crimes aos quais sobrevivem 50 milhões de pessoas, do Alasca à Terra do Fogo. O documento histórico chega num momento de tensão na fronteira com Paraguai, onde pistoleiros abriram fogo contra índios guarani-caiovás que haviam ocupado fazenda em área identificada como terra indígena e disputada há muito, em Caarapó (MS). É o 25.º ataque em seis meses na área.

O Brasil tem a 2.ª maior taxa de concentração fundiária do mundo, atrás da África do Sul. Por falar em África, atiradores do Boko Haram mataram 18 mulheres na Nigéria ontem. São massacres constantes, embora a História muitas vezes só registre a morte de brancos.

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