Uma internet para ortodoxos

Sites, buscadores e redes sociais são filtrados para dar uma web sem pecados ao judaísmo

Edmund Sanders / LOS ANGELES TIMES, O Estado de S.Paulo

29 de novembro de 2010 | 00h00

Num escritório cinzento da cidadela de judeus ultraortodoxos chamada Bnei Berek, três jovens devotas com o rosto colado num computador procuram na internet pornografia, mexericos sobre celebridades e uma lista de sites proibidos pelos rabinos.

É um trabalho estranho para moças que se vestem modestamente e usam perucas em obediência às suas crenças. Mas esta é sua função na primeira provedora de internet ultraortodoxa de Israel, a Nativ, que tenta lançar um produto capaz de transformar a comunidade tradicionalmente resguardada do mundo: a internet kosher.

Como imagens ousadas de mulheres são o conteúdo ofensivo mais comum, a companhia concluiu que seria menos reprovável contratar mulheres para vasculhar a web para que clientes ultraortodoxos, ou haredi, surfem sem preocupação. Lea Bernat, 22, ex-professora de jardim da infância, clica diariamente em centenas de páginas. "Se estiver limpo, nós o divulgamos", afirmou. "Se é impróprio, dizemos ao cliente que o site não foi aprovado".

Mas será kosher? Este é o problema enfrentado por muitos ultraortodoxos que se movimentam online. Eles são muito bem recebidos por um setor em grande expansão que procura atender às suas necessidades especiais, embora ainda não haja um consenso a respeito de uma Internet kosher.

Há o Koogle, um motor de busca inspirado no Google de empresas kosher que oferecem, por exemplo, pechinchas como "modestos" vestidos de noiva. Muitos rabinos se mostram céticos quanto ao YouTube, então o Yideotube oferece uma "fonte diária online de vídeos cuidadosamente avaliados", que variam de caricaturas de ativistas contrários à guerra a dicas para comprar um traje "kittel" cerimonial.

Preocupados com a possibilidade de infringir as proibições do trabalho no Sabbath? A SaturdayGuard vende software que permite aos sites bloquear o acesso aos usuários, conforme a hora, entre sexta-feira e sábado à noite.

Há até um grupo de apoio online, o GuardYourEyes.org, especializado em ajudar judeus ortodoxos a romper a "dependência da luxúria" na internet. Além dos costumeiros programas em 12 passos e dos "edificantes" e-mails diários, o grupo oferece dicas para reduzir as visitas inadequadas. Inclusive com um software que envia listas dos sites visitados à esposa ou ao rabino.

Há muito tempo, os ultraortodoxos consideram a moderna tecnologia incompatível com a vida espiritual. A televisão é proibida e somente os celulares "kosher", que trazem selos rabínicos e as mensagens de texto desabilitados, são aceitos. Os rabinos ultraortodoxos inicialmente declararam a internet a maior ameaça para o judaísmo, comparando-a a comer carne de porco e considerando-a "mil vezes pior" do que a TV. Com a difusão da tecnologia, os rabinos abrandaram sua postura, e em 2005 permitiram um uso limitado da internet para fins de trabalho.

Agora, como a internet permeia a maior parte da vida, dos bancos à matrícula das crianças na escola, as famílias haredi não têm outra escolha senão apelar para a internet. Cerca de 30% delas admitem ter acesso à internet em casa, embora o número real deva ser de aproximadamente 50%.

"A esmagadora maioria compreende que, se não se pode combatê-la, é melhor adotá-la", diz Avi Greenzeig, de 24 anos, considerado o primeiro "monitor kashrut" de Israel - semelhante aos que inspecionam os restaurantes kosher. No escritório anônimo do site em Jerusalém, Greenzeig revê cada artigo e comentário de leitor antes que seja postado online. Ele bloqueou, por exemplo, um artigo sobre um rabino acusado de assediar estudantes masculinos.

Os rabinos também manifestaram preocupação com os sites de outros credos religiosos. E temem que os haredi desperdicem muito tempo surfando por sites de notícias e de entretenimento irrelevantes e não dediquem tempo suficiente na meditação religiosa.

A Nativ, sediada em Bnei Berek, nos arredores de Tel Aviv, adere a rigorosos princípios religiosos, empregando apenas trabalhadores haredi e atendendo às instruções dos rabinos. O serviço padrão oferece cerca de 2.200 sites, na maioria agências do governo e empresas haredi. Todas as formas de mídia social, como o Facebook, YouTube e Twitter, são bloqueadas, assim como as imagens do Google. Os clientes que querem acesso a alguma outra coisa devem apresentar uma carta do seu rabino. Cabe às monitoras inspecionar o site. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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