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Uma lacuna de propostas

A inflação beira os 70%. Encher a cesta básica tornou-se uma aventura de caça ao tesouro. As ruas de Caracas são as mais sangrentas da região e quase 86% dos cidadãos acreditam que a Venezuela está no rumo errado.

Mac Margolis, O Estado de S.Paulo

01 Março 2015 | 02h04

Com um currículo desse, parece um milagre que o governo de Nicolás Maduro ainda se mantenha em pé. Como explicar, então, que os opositores do regime bolivariano não estão disparados na frente nas pesquisas de intenção de voto ou que seu grito, 'Fora Maduro', não encha a boca do povo venezuelano?

"Óbvio!", diria a Mesa da Unidade Democrática (MUD), bloco guarda-chuva da oposição venezuelana. Por mais débil que pareça, o governo Maduro ainda detém monopólio da força e a guarida das Forças Armadas.

Graças à alfaiataria eleitoral de Hugo Chávez, que retalhou o mapa para dar folga a distritos chavistas, a Assembleia Nacional tornou-se carimbo da vontade do Palácio de Miraflores. Já a Justiça, lotada de magistrados companheiros, jamais desapontou a vontade bolivariana.

Por essas e outras, nada menos que 33 dos 77 prefeitos da oposição hoje são alvos dos tribunais. O último graúdo a cair na malha bolivariana foi Antonio Ledezma, prefeito metropolitano de Caracas, preso no dia 19. Dos protagonistas antichavistas falta apenas a ex-deputada María Corina Machado, expulsa do Congresso no ano passado. Ela teme ser presa "a qualquer momento".

Em 16 anos do socialismo do "século 21", a revolução já fez 98 presos políticos, segundo contabilizou o advogado da oposição Gonzalo Himiob - 62 deles na gestão de Maduro.

A mão de ferro não é o único entrave para os inimigos do chavismo. Outro está no espelho. Com 27 partidos e uma revoada de egos, a oposição democrática da Venezuela não se entende. Os antichavistas conseguem se unir para campanhas presidenciais, mas tropeçam nos assentos legislativos. "O difícil é acertar quem vai se candidatar em que distrito", diz Javier Corrales, cientista político da Amherst College.

Mas existe outra barreira ainda maior: a lacuna de propostas. Eloquente na denúncia de violações dos direitos civis e humanos, a oposição tem dificuldades em articular outro modelo de país.

O motivo mais provável é que compartilha as mesmas ideias do chavismo. "A Venezuela não é um país socialista, é um petro-Estado", explica Alejandro Velasco, historiador venezuelano na Universidade de Nova York. Chavistas ou opositores, não importa. "Todo o debate político na Venezuela gira em torno de quem controla a renda do petróleo e como reparti-lo", diz Velasco. Todos reconhecem a loucura dos subsídios populistas, que tornam a gasolina venezuelana a mais barata do mundo, mas quando o governo Maduro acenou com um aumento, a oposição acusou-o de assaltar o bolso do povo.

Nem o mais fanático dos bolivarianos nega a ruína implícita no câmbio supervalorizado, que distorce preços e derrete a moeda nacional. Mas quando Maduro desvalorizou em 69% o bolívar, o baluarte da oposição, Henrique Capriles, governador de Miranda, acusou-o de golpismo contra a moeda nacional.

E ninguém ousa mexer nas Missões, os programas sociais chavistas, que são buracos sem fundo, sem transparência ou eficácia mensurável.

Por que a miopia? "Na Venezuela, não se pode propor nenhuma reforma que prometa qualquer coisa a não ser uma solução total", diz Velasco. Foi assim que o antropólogo Fernando Coronil definiu o atoleiro venezuelano no seu livro clássico, O Estado Mágico.

O resultado é a monocórdia política de difícil digestão eleitoral. Entre o petro-populismo bolivariano e o populismo democrático dos revoltosos, como discernir? Por isso, talvez, a MUD, o maior bloco da oposição, conta com apenas 19% da preferência dos eleitores - apenas 4 pontos porcentuais a mais que o socialismo chavista.

*Mac Margolis é colaborador da 'Bloomberg View' e colunista do 'Estado' 

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