Uma lição a ditadores: não tenham filhos

A vontade dos ditadores de que seus descendentes se tornem seus sucessores no poder vem encontrando cada vez mais resistência nas nações do Oriente Médio e da África

Stephen Kinzer do The Daily Beast, O Estado de S.Paulo

14 Fevereiro 2011 | 00h00

Hosni Mubarak perdeu o poder no Egito porque não quis prestar atenção a uma das misteriosas lições da História: os ditadores não devem ter filhos porque, com frequência, isso acelera sua queda ou a das suas nações.

Os egípcios poderiam estar dispostos a se conformar com sua sorte por um período mais longo se o doentio Mubarak não tivesse deixado clara a intenção de nomear seu filho Gamal como seu sucessor. De todos os seus atos arrogantes, nenhum indignou mais a população do que sua insistência em achar que, dos 80 milhões de egípcios, Gamal Mubarak era o mais qualificado para dirigir o país. O plano era sua ascensão ao poder não pelo voto popular, mas porque seu pai assim o desejava.

Uma semana depois de os protestos irromperem no Egito, o presidente Ali Abdullah Saleh, do Iêmen, prometeu publicamente que deixaria de manobrar para colocar o filho Ahmed na presidência, após a sua saída.

Ao mesmo tempo, o rei Abdullah, da Jordânia, que sucedeu ao pai no trono, destituiu seu governo num esforço para escorar seu regime. A monarquia parece segura por ora, como também a de seu xará na Arábia Saudita, mas a noção de que filhos têm direito de suceder aos pais em posições de poder quase absoluto tem cada vez menos defensores.

Alguns filhos de ditadores conseguiram continuar a empresa familiar, especialmente Bashar Assad, da Síria, e Kim Jong-il, da Coreia do Norte. Muitos, no entanto, fracassaram miseravelmente: a África é rica de exemplos. Os filhos de Idi Amin, Daniel Arap Moi e Jomo Kenyatta não conseguiram administrar o poder que seus pais tentaram lhes dar. Jean-Claude "Baby Doc" Duvalier chegou à presidência do Haiti depois da morte do pai, mas não conseguiu se manter nela.

Em alguns países, mesmo a perspectiva de uma sucessão dinástica é o suficiente para provocar a indignação popular. E isso pode fazer com que ditadores parem para pensar, como é o caso de Muamar Kadafi, da Líbia, cujos dois filhos seriam os principais candidatos à sua sucessão. Mesmo que consigam assumir e se manter no poder, são exemplos de vidas dissolutas, como aliás costuma ocorrer com filhos de ditadores.

Um dos filhos de Kadafi, Saif al-Arab, foi investigado por contrabando de armas na Alemanha. O outro, Hannibal, desencadeou uma disputa diplomática com a Suíça quando foi preso em Genebra, acusado de abusos contra sua empregada. Seu currículo inclui também acusações de ataques contra policiais na Itália, dirigir seu Porsche em alta velocidade, em Paris, drogado, e a polícia ser chamada ao Claridges Hotel, em Londres, porque sua mulher estava aos gritos no quarto (mais tarde, ela declarou que uma queda tinha provocado os cortes e contusões em seu rosto).

Estupros e jogos. Os filhos de Saddam Hussein, Uday e Qusai, eram conhecidos torturadores e estupradores. Estupro era também o divertimento favorito de Nicu Ceausescu, filho do ditador romeno. Falava-se que ele gostava de estuprar mulheres enquanto os guardas da sua segurança espancavam os maridos delas. Nicu era um jogador compulsivo e também bebia demais, como foi o caso de outros filhos. Outros se tornaram famosos pelo uso de drogas e alguns, como Chucky Taylor, da Libéria, e Marco Milosevic, da Sérvia, eram traficantes de droga.

Não é preciso muito conhecimento de psicologia para concluir que o excesso de privilégios dados a esse jovens levou-os a pensar que não há limites para a depravação a que se permitiram.

Além dos excessos com álcool, sexo, drogas e jogo, muitos compartilharam o gosto pelos esportes: Marko Milosevic adorava corridas de carros, Baby Doc dirigia motocicletas e os filhos de Hussein e Kadafi se encarregaram dos programas de atletismo em seus países.

A violência impulsiva também faz parte desta equação. De que outra maneira explicar notícias de que Chucky Taylor espancou seu motorista até a morte quando viu um arranhão num dos seus carros, ou que Uday Hussein ordenou que jogadores de futebol cujo desempenho ele não gostou fossem torturados? A ascensão de filhos ao poder quase sempre causa protestos. Em 2005, a polícia do Togo matou mais de 400 manifestantes indignados com os acertos feitos para Faure Gnassingbe suceder na presidência ao pai morto.

Quatro anos depois, revoltas irromperam no Gabão, quando autoridades eleitorais anunciaram que Ali Ben Bongo foi escolhido presidente para substituir o pai, que havia morrido. Joseph Kabila conseguiu assumir o poder no Congo sem muitos protestos, no lugar do pai morto em 2001, mas foi uma exceção. Em Uganda, o presidente Yoweri Museveni é um dos que estão reavaliando os planos de colocar os filhos no poder.

Como esses ditadores poderiam evitar essa maldição? Há três opções. Uma é a solução do "cordão de seda", preferida pelos sultões otomanos. Com frequência eles mandavam matar os filhos, que eram estrangulados com um cordão, porque seu sangue era considerado muito sagrado para ser derramado - e evitar problemas futuros. Parece brutal, mas os defensores da prática afirmam que o número de mortes, neste caso, era infinitesimal comparado com os inúmeros que morreram nas guerras de sucessão na Europa.

Sem sucessores. A segunda solução é não ter filhos. Esse foi o caminho escolhido por George Washington - que, segundo alguns historiadores, contraiu varíola e ficou estéril, o que pode ter tido um vigoroso efeito na História. As ideias monárquicas ainda eram poderosas na época de Washington e ele era tão venerado que, se tivesse um filho, poderia haver forte pressão para torná-lo presidente. Com isso, os EUA teriam seguido uma trajetória diferente.

Quando as pessoas se perguntam por que a Turquia tornou-se o país mais bem-sucedido do Oriente Médio muçulmano, elas não devem ignorar o fato de que o fundador do Estado, Kemal Ataturk, não tinha filhos. Por isso, ele afastou-se tranquilamente do poder, permitindo que seu país caminhasse na direção da democracia.

Existe uma terceira opção: ter filhas no lugar de filhos. A História sugere que as filhas de líderes fortes costumam ser excelentes governantes e altamente capazes. Entre elas, Megawati Sukarnoputri, da Indonésia, Benazir Bhutto, no Paquistão, e Sheikh Hasina, de Bangladesh. Elas parecem ter herdado a noção de poder e liderança e mesmo não estando acima da corrupção, a tendência é serem pessoas de mente mais aberta, mais dispostas a um compromisso e com menos atração por passatempos movidos a testosterona, como corridas de carros, drogas e torturas. Infelizmente para Mubarak, é muito tarde para o cordão de seda - e ele não tem nenhuma filha. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É ESCRITOR E EX-CORRESPONDENTE DO "NEW YORK TIMES" NO ORIENTE MÉDIO. SEU ÚLTIMO LIVRO, INTITULADO "RESET: IRAN, TURKEY, AND AMERICA"S FUTURE", FOI LANÇADO EM JUNHO DE 2010.

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