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Uma lição para a África

É preciso fazer chegar à nova geração de africanos – e de sul-americanos – que os países ricos são ricos porque não jogam dinheiro nas latas de lixo da corrupção e da má gestão

Lourival Sant'Anna, O Estado de S.Paulo

12 de maio de 2019 | 05h00

O Congresso Nacional Africano (CNA), que foi o partido liderado por Nelson Mandela, sofreu mais um encolhimento nas eleições de quarta-feira. Pela primeira vez desde a introdução da democracia multirracial na África do Sul, em 1994, o CNA tem votação abaixo dos 60%. O desempenho só não foi pior por causa do respeito depositado em Cyril Ramaphosa, líder do partido e presidente desde fevereiro de 2018, que herdou uma África do Sul arrasada pelos nove anos de corrupção e má gestão do governo de Jacob Zuma. 

É um problema africano, assim como sul-americano. Na quinta-feira, eu viajava de carro pelo condado de Muranga, no Quênia. Saímos de uma estrada de terra, para a qual já foram destinadas duas vezes verbas para o asfaltamento, mas o dinheiro foi parar nas mãos de políticos, segundo todos comentam na região. 

Entramos numa estrada principal, precariamente asfaltada. Um policial nos parou. O carro não tinha nenhum problema, mas, mesmo assim, ele mandou o motorista descer. O motorista recolheu algumas moedas, acompanhou o policial até a traseira do carro, e lhe deu 20 xelins quenianos, o equivalente a US$ 0,02. Em poucos minutos, tive todo o espectro da corrupção no Quênia: do desvio em grande escala da estrada asfaltada só no papel até a micropropina que o guarda cobra de cada motorista que passa. 

A corrupção é a face econômica de uma lei que ainda predomina na África: a lei do mais forte. Ao lado da África do Sul, o Quênia é um dos poucos países que realizam eleições regularmente no continente, mas elas são com frequência manchadas pela violência. 

Nas últimas eleições, em 2017, o líder oposicionista Raila Odinga não aceitou os resultados oficiais, que davam como reeleito o presidente Uhuru Kenyatta. A Justiça anulou e convocou nova eleição em 60 dias. Odinga boicotou a segunda eleição, alegando que não havia condições de igualdade na disputa. O resultado foi condizente com as pesquisas: 9 pontos porcentuais a mais para Uhuru.

Várias pessoas morreram nos confrontos antes e depois das votações, que ganharam conotação étnica: Uhuru é da etnia kikuyo e Odinga, luo. Os conflitos foram resultado da manipulação política. Não existe violência étnica espontânea no Quênia hoje. Depois das eleições, Uhuru e Odinga se tornaram aliados. A disputa de poder agora é entre o presidente e seu vice, William Ruto.

Em todo o país, assim como em todo o continente, estão espalhadas placas que indicam a destinação de verbas do Banco Mundial e de outros organismos multilaterais para obras de infraestrutura que são frequentemente menos visíveis que as próprias placas. 

A África é um continente muito rico em recursos naturais e, potencialmente, humanos. Pergunte aos chineses. Assim como a América do Sul, no entanto, a África é um ralo. Não há produção de riqueza que dê conta da combinação de corrupção e má gestão nesses países.

Os investimentos chineses vêm dar um novo formato, e ainda mais perigoso, a essa dinâmica. As empresas chinesas não obedecem às regras de “compliance”, de transparência da contabilidade, a que estão submetidas suas concorrentes americanas e europeias. Os governos africanos não têm como pagar os empréstimos chineses, cuja garantia são as próprias obras. Dessa forma, a China se tornará a dona da infraestrutura africana em poucos anos.

Não existe investimento maior que os países ricos podem fazer na África do que numa mudança cultural. É preciso fazer chegar à nova geração de africanos – e de sul-americanos – que os países ricos são ricos porque não jogam dinheiro nas latas de lixo da corrupção e da má gestão. É uma mensagem que faz sentido para os mais jovens, que são naturalmente idealistas. Ela precisa chegar até eles, juntamente com ferramentas práticas de vigilância e controle.

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