Uma luz para as cidades

Fórum Urbano Mundial, na Colômbia, discutiu em abril o futuro dos grandes centros

Joseph E. Stiglitz*, Project Syndicate/O Estado de S.Paulo

09 Maio 2014 | 02h08

No mês passado, foi realizada em Medellín, na Colômbia, uma reunião extraordinária. Cerca de 22 mil pessoas participaram do Fórum Urbano Mundial para discutir o futuro das cidades. No encontro, foi debatida a criação de "cidades para viver", ou seja, a promoção do desenvolvimento equitativo em ambientes urbanos, onde a maioria dos cidadãos do mundo já mora e nos quais, até meados deste século, dois terços deles residirão.

O local em si foi simbólico: antes famosa pelos cartéis de narcotraficantes, Medellín hoje tem a fama merecida de ser uma das cidades mais inovadoras do mundo. A história da sua transformação guarda importantes lições.

Nos anos 80 e 90, chefões dos cartéis, como Pablo Escobar, mandavam nas ruas de Medellín e controlavam sua política. A fonte do poder de Escobar não estava apenas no tráfico internacional de cocaína, extremamente lucrativo (alimentado pela demanda dos Estados Unidos), como também na extrema desigualdade da população. Nas escarpas do vale andino que serve de berço à cidade, favelas abandonadas pelo governo forneciam um exército de recrutas para os cartéis. Na ausência de serviços públicos, Escobar conquistou corações e mentes dos cidadãos mais pobres de Medellín com sua generosidade - enquanto, ao mesmo tempo, aterrorizava a cidade.

Hoje é difícil reconhecer as favelas. No bairro de Santo Domingo, o novo sistema de "Metrocable" da cidade, que consiste de três linhas de teleférico, atende às centenas de habitantes que moram nas encostas da montanha, acabando com seu isolamento em relação ao centro. A viagem agora leva minutos e as barreiras sociais e econômicas entre as áreas de ocupação ilegal e o resto da cidade estão para cair.

Os problemas dos bairros pobres não desapareceram, mas os benefícios que as melhorias da infraestrutura proporcionaram são evidentes nas casas bem conservadas, nos murais e nos campos de futebol. As cabines do bondinho são o elemento mais icônico dos projetos pelos quais, no ano passado, Medellín recebeu o Prêmio Veronica Rudge Green em Projetos Urbanos, o mais prestigioso desse campo.

Começando pela atuação do prefeito Sergio Fajardo (hoje governador do Departamento de Antioquia, onde está Medellín), que tomou posse em 2004, a cidade empreendeu enormes esforços para transformar suas favelas, melhorar a educação e promover o desenvolvimento (o prefeito atual, Aníbal Gaviria, afirmou seu empenho em continuar neste caminho). Medellín construiu edifícios públicos de vanguarda nas áreas mais deterioradas, ajudou os cidadãos dos bairros pobres a pintar suas casas, além de limpar e reformar as ruas - tudo na convicção de que, quando o povo é tratado com dignidade, valorizará o seu ambiente e se orgulhará de sua comunidade. E a confiança se confirmou.

Em todo o mundo, as cidades são o ponto de convergência dos principais debates da sociedade - por boas razões. Quando os indivíduos vivem em lugares superpovoados, não podem escapar de graves problemas sociais: uma crescente desigualdade, a degradação ambiental e a inadequação dos investimentos públicos.

O fórum lembrou aos participantes que as cidades habitáveis exigem planejamento - o que contrasta com o que acontece em grande parte do globo. Mas sem planejamento e investimentos públicos em infraestrutura, sem transportes públicos e parques, o fornecimento de água potável e limpeza urbana, as cidades não serão habitáveis. E os pobres pagarão a conta.

Medellín tem algumas lições também para os EUA. Na realidade, pesquisas recentes mostram que o planejamento inadequado intensificou a segregação econômica no país e as armadilhas da pobreza surgiram em cidades sem transportes públicos, e com escassez de empregos acessíveis.

A conferência também enfatizou que "cidades habitáveis" não bastam. Precisamos criar áreas urbanas nas quais os indivíduos possam evoluir e inovar. Não por acaso, o Iluminismo - que levou aos maiores e mais acelerados aumentos do padrão de vida na história do homem - nasceu nas cidades. A nova visão é uma consequência natural da elevada densidade populacional, desde que sejam atendidas as condições certas - que incluem espaços públicos nos quais as pessoas possam interagir e a cultura prosperar, e um etos democrático que aprove e encoraje a participação pública.

Um tema-chave do fórum foi o incipiente consenso em torno da necessidade de desenvolvimento ambiental, social e sustentável. Todos os aspectos da sustentabilidade são interligados, complementares e as cidades fornecem o contexto no qual isto se apresenta da maneira mais clara.

Um dos maiores obstáculos para a realização da sustentabilidade é a desigualdade. Nossas economias, democracias e sociedades pagam um preço alto pelo crescente fosso entre ricos e pobres. E talvez o aspecto mais detestável da ampliação do abismo da renda e da riqueza em tantos países seja o fato de que ela contribui para aprofundar a falta de oportunidades.

Algumas cidades mostraram que esses padrões não são uma consequência de leis econômicas imutáveis. Mesmo nos EUA, algumas cidades, como San Francisco e San José, são comparáveis às economias que mais se destacam em termos de igualdade de oportunidade. Com o impasse político que aflige tantos governos em todo o mundo, as cidades que pensam no futuro nos dão esperança. A divisão observada nos EUA parece impossibilitar a solução do problema do aumento da desigualdade.

Embora haja limites para o que se pode empreender no plano local - por exemplo, a tributação federal é mais importante do que a municipal - as cidades podem contribuir para garantir a oferta de habitações e têm a responsabilidade de oferecer educação pública de qualidade e conforto para os cidadãos, independentemente de renda. Medellín e o Fórum Urbano Mundial mostraram que esta não é uma utopia. Construir um outro mundo é possível. Precisamos apenas de vontade política para buscá-lo.

*Joseph E. Stiglitz é Prêmio Nobel em Economia.

TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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