Delil Souleiman / AFP
Delil Souleiman / AFP
Imagem Gilles Lapouge
Colunista
Gilles Lapouge
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Uma luz para os curdos

Até agora, os curdos eram protegidos pelos EUA. Mas veio a desgraça: Trump se esqueceu de que era amigo dos curdos

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

18 de outubro de 2019 | 05h00

Os presidentes russo e americano têm muito em comum. Um e outro são perversos, cínicos, mentirosos e subordinam todas as regras da moral e dos costumes entre os países civilizados a um princípio superior: primeiro os EUA, diz Donald Trump, ao que Vladimir Putin poderia responder: primeiro a Rússia.

Mas também não faltam diferenças entre os dois. Trump dispõe das Forças Armadas mais poderosas de nossos tempos e controla a economia mais rica do planeta, enquanto Putin reina como um autocrata sobre um país pobre – imenso, sem dúvida, mas com um PIB que mal supera o da pequena e modesta Espanha. A superioridade do caubói é esmagadora, mas o outro consegue coisas que Trump passa o tempo tentando conseguir. Conclusão em forma de pergunta: o russo é mais inteligente que o americano?

Como testemunho da dúvida está a tragicomédia que se desenrola no norte da Síria, onde se reagruparam os curdos sírios das Unidades de Proteção do Povo (YPG), cujas milícias contribuíram amplamente, com seu heroísmo, para livrar o mundo do abominável Estado Islâmico.

Até agora, os curdos eram protegidos pelos EUA. Mas veio a desgraça: Trump se esqueceu de que era amigo dos curdos. Deixou-os cruelmente desprotegidos, encorajando com o silêncio os turcos a se desembaraçarem “desses curdos insuportáveis”.

Os russos estavam curiosamente silenciosos. Mal se sabia por onde Putin andava. Mas, passados dois ou três dias, descobrimos subitamente que após três anos os russos voltaram ao Oriente Médio e, bombardeando pontos mantidos pelos inimigos do ditador sanguinário Bashar Assad, controlaram a situação.

Putin, sem estardalhaço, puxou alguns cordéis, levantou a cortina do teatro de guerra para uma cena inesperada: o banho de sangue previsto para a cidade de Manbij (norte da Síria) provavelmente não ocorrerá.

Os russos ocuparam o lugar que Trump abandonou à maneira dos pássaros que põem ovos nos ninhos de outros e desaparecem. Para obter tal resultado, Putin não precisou fazer muito. Comandando de longe, fez entrar na dança seu protegido sírio, o infrequentável Assad, que há alguns anos ele já salvou de uma coalizão ocidental. Os jornalistas do Le Monde Benjamin Barth e Benoit Vitkine escreveram: “Três anos após a queda de Alepo, facilitada pelos bombardeios da aviação russa, Putin volta a impor sua lei”. 

De simples rolo compressor a serviço de Damasco, quando seu Exército desembarcou na Síria, em setembro de 2015, o senhor do Kremlin dá agora uma dimensão diplomática a sua atuação: ele se transforma em árbitro do caos, tendo como fio condutor a reunificação da Síria em torno de Assad. Putin marcou um gol, mas não vamos nos iludir: ele não morre de amores por Assad. Por certos indícios, parece mesmo desprezá-lo.

Os EUA já traíram seus princípios mais elementares na América Latina ao apoiarem Augusto Pinochet, no Chile. Até o gentil Barack Obama, tão cheio de escrúpulos, tão cônscio de sua moral, renunciou a punir Assad quando este, em agosto de 2013, cruzou a “linha vermelha” ao recorrer a armas químicas, deixando o então presidente francês, François Hollande, aliado dos EUA, com sua indignação. 

Os pecados de Putin são semelhantes. Princípios de moral internacional não fazem parte da bagagem do presidente russo. Ele agora substitui o apoio a um ditador, o turco Recep Tayyip Erdogan, pelo respaldo a outro ditador, Bashar Assad, matador dos próprios cidadãos.

Trump, no entanto, traiu não apenas seus protegidos, os curdos, mas seus aliados – França e Grã-Bretanha à frente. Em menos de uma semana, ele reduziu a zero o peso da palavra americana.

Tudo isso é repugnante, mas é preciso assinalar que o massacre que se aproximava do bastião curdo no norte da Síria parece por ora ter sido suspenso. Uma claridade, ainda que efêmera, surge nas trevas do povo curdo. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

*É CORRESPONDENTE EM PARIS

Notícias relacionadas

    Encontrou algum erro? Entre em contato

    Tendências:

    O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.