Uma nação que dorme

A esquerda alemã compartilha a cultura da direita, o que dá uma tribuna para extremistas

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

24 Setembro 2017 | 05h00

A Alemanha dará neste domingo, 24, à toda poderosa e quase imortal Angela Merkel um sucessor, que será provavelmente a própria Madame Merkel. Que diferença com a França, na qual as batalhas, os insultos, as controvérsias são desencadeadas sem interrupção. Desse ponto de vista, a França exibe uma bela superioridade sobre seu vizinho alemão.

Lembremo-nos das “presidenciais” francesas que resultaram na eleição de Emmanuel Macron. Foram uma obra-prima: um deleite para os jornalistas. E para seus leitores. Na segunda-feira, o favorito caiu por terra após escândalo de corrupção. Na terça, um desconhecido passou à liderança. Quarta, o partido socialista desfez-se em pó e, na quinta, por mais que se procurasse pelo partido de direita, não se sabia onde estava. Os insultos, a zombaria, as vilanias, profecias e agressões verbais voavam em formação. 

Na Alemanha, todo mundo dorme, porque tudo vai bem, muito bem. O candidato de esquerda (SPD), Martin Schulz, quis despertar seus eleitores. Ele propôs a Madame Merkel um segundo debate pela TV. Merkel refletiu, pois ela não queria enfrentar o que se pode dizer em tal debate. Em certo sentido, ela estava com razão. Após mais de dez anos de Merkel, a Alemanha vai muito bem mesmo e as pessoas estão contentes. O único problema é que elas estão adormecidas.

Como explicar tais diferenças entre esses dois vizinhos, França e Alemanha? Deve-se invocar o gênio particular de cada povo, de cada nação? Mas como explicar então o recente percurso da Alemanha? Na primeira metade do século, e principalmente de 1933 a 1945, o Reich organizou uma das mais vergonhosas e selvagens aventuras da espécie humana. Em seguida, uma vez derrotada, aí está, doce como um cordeiro, assustadoramente pacífica, se engaja numa rota calma na qual Madame Merkel, depois de Adenauer, Schroeder e Kohl, pilota com um domínio um pouco letárgico um grande sedã em meio a paisagens apaziguadas.

Inepta para a “reforma” que a Alemanha realiza brilhantemente, a França fica obrigada, quando quer se movimentar um pouco, a passar por uma guerra ou revolução. Em 1789, dia 14 de julho, ela derruba 2 mil anos de história e se cobre de sangue durante uma dezena de anos, após o que Napoleão põe fogo na Europa e inventa a “nação moderna”. Guerras coloniais, em seguida, geralmente terríveis, outras duas guerras com a Alemanha, depois das quais o general Charles de Gaulle oferece aos seus “súditos” um lance de epopeia. 

A Alemanha percorre hoje um “longo rio tranquilo”. Devemos acreditar que ela descobriu a chave para a felicidade que todos os povos cobiçam? Sua prosperidade, calma, paz social, sabedoria diplomática, todas merecem admiração. 

De tempos em tempos, vozes alemãs solitárias nos dizem que o “milagre alemão” não é milagroso. O slogan que Merkel escolheu para sua campanha eleitoral – “Por uma Alemanha onde é bom viver” – não passa de promessa não realizada. Mesmo no campo econômico, os fracassos são numerosos. 

Apenas 1,8% dos lares alemães são equipados com fibras ópticas. Bem menos que na França ou na Itália. A infraestrutura está em estado lamentável. O sistema de educação também, porque é de competência dos Estados, e não do poder central, o que causa disparidades vertiginosas entre as regiões.

Ao menos a economia alemã apresenta-se muitíssimo bem? Não. Desde que Merkel assumiu o poder, em 2005, a taxa de pobreza aumentou 56%. A parte da população economicamente ativa, que vive no limiar da pobreza, duplicou. A porcentagem dos aposentados pobres cresceu para 30% e o número de trabalhadores, obrigados a acumular dois empregos para sobreviver, aumentou em 80%. 

O SPD deveria, portanto, ter a oportunidade de fazer ouvir sua voz, expressar suas críticas, queixar-se das alternativas. Não o faz. Por quê? De um lado, compartilha um tanto quanto a mesma cultura do governo rival, a CDU. E, por outro lado, os dois partidos já governaram juntos em “grandes coalizões”. Medem-se aqui e de forma dramática as falhas do “consenso permanente” e do “nem direita nem esquerda”.

A consequência é que, à falta de um campo onde eles pudessem manifestar seus desentendimentos, os dois grandes partidos (SPD e CDU) oferecem uma bela tribuna aos partidos de extrema direita. Esses não se privam de usá-la. Eles afirmam em tom elevado o que muitos pensam e não dizem. 

“A calma que reina em Berlim é enganadora. O país fervilha”, escreveu o semanário Der Spiegel. Pela primeira vez, o partido de extrema direita, Alternativa para a Alemanha (AfD) poderá superar os 10% de votos da cláusula de barreira. Com isso, entrará no Parlamento. Será o terceiro partido no Bundestag. /TRADUÇÃO DE  CLAUDIA BOZZO

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