Uma nova chance para a Coreia do Norte

EUA podem fazer muito mais pelos norte-coreanos se aproximando do regime de Kim; para isso, Washington deve tirar vantagem da transição de comando no país

É COLUNISTA, GANHADOR DO PRÊMIO PULITZER, NICHOLAS D., KRISTOF, THE NEW YORK TIMES , É COLUNISTA, GANHADOR DO PRÊMIO PULITZER, NICHOLAS D., KRISTOF, THE NEW YORK TIMES , O Estado de S.Paulo

23 de dezembro de 2011 | 03h07

Em minha primeira viagem à Coreia do Norte, em 1989, eu consegui me intrometer aleatoriamente em lares privados. Queria ver como viviam, de fato, os norte-coreanos. As pessoas se admiravam, mas foram hospitaleiras.

A coisa mais surpreendente que descobri foi o alto-falante afixado à parede de cada casa. Ele é como um rádio, mas sem dial ou botão de ligar e desligar. De manhã, ele acorda a família com propaganda - em sua primeira excursão de golfe, o camarada Kim Jong-il acertou cinco buracos de primeira. Ele berra assim o dia inteiro.

O alto-falante atesta que a Coreia do Norte não é apenas mais uma ditadura, mas, talvez, o país mais totalitário que já existiu. Stalin e Mao eram assassinos, mas de baixa tecnologia: a família Kim incluiu sistemas complexos de repressão. Todo deficiente é considerado uma aberração, por exemplo. Assim, pessoas com qualquer tipo de deficiência são amiúde expulsas da capital Pyongyang.

A propaganda do governo é descarada. Durante um período de fome, a mídia noticiosa norte-coreana prevenia os cidadãos esfomeados contra comer em excesso, contando a história educativa de um homem que comeu até a saciedade e, depois, explodiu.

Na visita à Coreia do Norte, parei em uma área rural para entrevistar duas alunas de colegial escolhidas ao acaso. Elas foram amistosas, apesar do espanto. Eu também me admirei quando elas começaram a falar simultaneamente e a repetir frases políticas em perfeito uníssono. Pareciam robôs.

Quando vídeos (de filmes, música ou religião) começaram a ser contrabandeados da China, a polícia começou a desligar a energia de prédios inteiros. Depois, os policiais passavam de porta em porta e examinavam as fitas de vídeo que ficaram presas nos aparelhos. Uma fita contrabandeada podia significar o envio de uma família inteira para um campo de trabalhos forçados.

O que fazer com um país desses? Para os americanos, um ponto de partida deveria ser reconhecer algumas falhas de sua política externa. Algumas lições incluem não supor que o fim do regime é iminente.

Cautela. Venho cobrindo a Coreia do Norte desde 1987. Pessoas de fora vêm murmurando constantemente sobre rumores de levantes ou sugerindo que o governo já está nas últimas. Sim, o regime da Coreia do Norte pode desmoronar amanhã - ou pode continuar cambaleando por outros 20 anos. O "Grande Sucessor", Kim Jong-un, pode durar mais do que o presidente Barack Obama.

Outra lição é não supor que todo o mundo detesta o regime. Todos aqueles norte-coreanos chorando pela morte de Kim Jong-il? Seu sofrimento é provavelmente sincero. Em conversas com desertores norte-coreanos, fico espantado pela maneira com que muitos fustigam o regime. No entanto, eles acrescentam que seus parentes deixados para trás ainda acreditam nele - porque não conhecem mais nada além. Muitos também são apaixonados nacionalistas, preferindo um déspota nativo a qualquer sugestão de colonialismo econômico estrangeiro.

Fé e medo se combinam para manter o povo na linha. Em um livro sobre a Coreia do Norte, Bradley Martin relata como um dos assessores de Kim Jong-il contou a sua mulher sobre as paqueras de seu chefe. A mulher realmente acreditava na decência básica do sistema norte-coreano e escreveu à liderança para protestar contra o deboche.

A carta foi passada a Kim Jong-il, que trouxe a mulher para a frente de uma multidão e a denunciou. O marido deu um passo à frente, então, pedindo para ser ele a executá-la. Esse pedido lhe foi concedido e o marido matou a mulher com um tiro.

Mais uma lição: não tentar isolar a Coreia do Norte. O Ocidente reagiu ao programa nuclear norte-coreano sancionando e isolando o país. No entanto, o isolamento provocou um efeito contrário ao desejado. Ele é uma das coisas que mantém a família Kim no poder e estamos ajudando a aplicá-lo.

De mais a mais, as mazelas econômicas não destruirão o regime. Em meados da década de 90, cerca de 1 milhão de pessoas morreram de fome e o regime não foi abalado.

Erros próprios. Nossa falhas com a Coreia do Norte são latentes. Em 1994, chegamos perto de uma guerra na Península Coreana, evitando-a com um acordo nuclear que se apoiou em uma falsa esperança: o governo de Bill Clinton achava que o regime desmoronaria antes de o Ocidente precisar entregar reatores nucleares civis como parte do acordo.

Ante evidências de má-fé por parte da Coreia do Norte, o governo de George W. Bush recuou do acordo. O resultado foi ainda mais desastroso: a Coreia do Norte acelerou sua linha de montagem nuclear e acumulou plutônio suficiente para oito armas.

As autoridades americanas culpam a China por apaziguar a Coreia do Norte. No entanto, pelo menos Pequim tem uma estratégia. A política chinesa é encorajar o regime de Kim a imitar as ideias de abertura e de reformas políticas e econômicas que transformaram a China.

Hoje, celulares, DVDs, CDs e comerciantes chineses são comuns em áreas fronteiriças da Coreia do Norte, fazendo mais para minar o regime de Kim do que qualquer política externa dos EUA.

Não há soluções boas. Entretanto, devemos tirar vantagem da transição de líderes para tentarmos uma aproximação. Se pudermos avançar minimamente para termos relações diplomáticas, comerciais e intercâmbios entre os dois povos, não estaremos premiando um regime monstruoso. Poderemos estar simplesmente cavando seu túmulo. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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