Uma nova chance para o presidente dos EUA

No segundo mandato, Obama pode colocar seu talento em campo e executar todas as políticas que não conseguiu impor nos primeiros quatro anos de seu governo

O Estado de S.Paulo

18 de novembro de 2012 | 02h06

Depois de uma campanha de um ano que custou entre US$ 2 bilhões e US$ 6 bilhões, o presidente Barack Obama conquistou um segundo mandato de quatro anos, com 49 Estados informando seus resultados na noite da eleição (a Flórida, pela segunda vez em quatro eleições, não o fez). Nos próximos anos, ele terá a oportunidade de definir o papel dos EUA no sistema internacional.

Segundos mandatos costumam ser mais produtivos em termos de política externa, em grande parte porque os presidentes já não podem pensar no terceiro mandato. George W. Bush, por exemplo, usou os quatro anos do seu segundo mandato para reparar erros cometidos no primeiro.

Os presidentes em segundo mandato, com frequência, adotam um pragmatismo americano ultrapassado em questões mais difíceis, o que não podem fazer durante o primeiro mandato, uma vez que a reeleição é prioridade. A lamentável observação de Obama para o premiê russo, Dimitri Medvedev, de que teria mais flexibilidade depois da eleição, pode ter chocado alguns, mas, para muitos especialistas, ele apenas afirmou o óbvio. O desafio do presidente é usar a nova liberdade de ação rapidamente, antes que as pessoas comecem a achar que ele é um político em fim de carreira.

A primeira viagem ao exterior após a eleição será para a Ásia, onde ele chega hoje para participar da cúpula do Leste Asiático, percebida como parte da política "pivô" de seu governo para o continente. Ele visitará Mianmar amanhã e levará apoio às extraordinárias mudanças verificadas nesse país atribulado e incentivar os dirigentes no sentido de novos avanços.

No entanto, o real desafio de Obama será explicar melhor o que significa "pivô", porque sua viagem para Mianmar esta sendo considerada mais um esforço para conter a China. O que começou como uma mudança estratégica para uma área do mundo repleta de interesses de longo prazo dos EUA transformou-se em um exercício de provocação de novas disputas com um país de 1,3 bilhão de pessoas que passa por transformações internas dolorosas.

A política americana na Ásia requer mão firme e, no caso de Obama, os EUA tem exatamente isso. É preciso, porém, uma comunicação efetiva que deixe claro para a população americana que a relação com a China realmente é forte demais para ser rompida e exige um longo processo de engajamento cuidadoso. Essas mensagens precisam ser enviadas com mais frequência pelo próprio presidente e não só por funcionários de vários escalões abaixo.

A política americana na Ásia, em geral, e no tocante à China, em particular, desfruta de um consistente apoio bipartidário. Quando um presidente tem o apoio dos dois partidos numa questão deve ostentar esse suporte.

Não há dúvida que lidar com a China, que está num período muito tenso, ficou cada vez mais difícil, mas a maneira de abordar as tensões internas e o nacionalismo emergente do país, com as tensões que isso provoca no seu relacionamento com os vizinhos, é não colocar os países da região numa posição em que terão de escolher entre China e EUA.

O enfoque apropriado é ser constante, persistir nos compromissos de longo prazo e falar de maneira calma e comedida, compreendendo que a boa política com a China tem a ver com relacionamento, não transações. Ninguém é melhor nisso do que esse presidente.

Outro aspecto dessa política "pivô" envolve um distanciamento do Oriente Médio. No entanto, qualquer que seja a estratégia adotada, ela não pode diminuir a importância da região. O Oriente Médio continuará a ser um pilar vital da energia do mundo nas décadas futuras. A dúvida é se ele exportará mais energia do que instabilidade.

Ao contrário do Leste da Ásia, o Oriente Médio é uma região tumultuada, cuja complexidade desafia o consenso analítico. As crises na região decorrem da falta de paz com Israel? Ou seria uma combinação de outros fatores - frustração com a ordem econômica regional, por exemplo, ou uma intervenção dos EUA que transformou o Iraque liderado por sunitas na solitária ovelha negra do mundo árabe conduzida por xiitas?

O governo Obama precisa fazer um trabalho muito melhor no seu segundo mandato para definir os assuntos e estabelecer o escopo do trabalho diplomático americano na região com energia renovada. No primeiro mandato, mediadores foram enviados para o Oriente Médio dias após a posse. Talvez, desta vez, fosse preciso mais empenho para, primeiro, desenvolver políticas coerentes.

Sugiro que se comece com a Síria. Na ausência de uma liderança internacional para forjar um resultado político final, o conflito se transformou tragicamente numa guerra civil sectária que, rapidamente, se espalha com consequências de longo alcance para os interesses dos EUA na região e para os investimentos políticos americanos em projetos como o Iraque.

Os EUA precisam deixar de lado os apelos que agradam as multidões no sentido de uma saída de Bashar Assad e trabalhar vigorosamente com parceiros internacionais - incluindo Rússia e China. Finalmente, precisam de parceiros confiáveis. E entre os mais confiáveis está a Europa. No entanto, os europeus estão preocupados com seus próprios problemas econômicos.

A Europa se recuperará (quanto mais cedo melhor). Nesse ínterim, os EUA precisam fazer tudo o que puderem para ajudar os europeus a saírem da crise. E também necessitam continuar seu trabalho com a Europa em projetos internacionais, incluindo as negociações com o Irã sobre seu programa nuclear. Nenhum presidente, nas últimas décadas, teve melhor índole e visão mais clara para afrontar os desafios do mundo do que Obama. Agora, ele tem a oportunidade de colocar em prática o que não conseguiu no primeiro mandato. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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