Uma nova e grande crise que espera por Obama

Ataque reduz chance de pacto

Michael Abramowitz *, The Washington Post, O Estadao de S.Paulo

29 de dezembro de 2008 | 00h00

Os ataques israelenses contra a Faixa de Gaza, em retaliação a uma barragem contínua de foguetes disparados pelo Hamas, sublinharam a perspectiva de uma ampliação na violência que poderia acabar com as esperanças do presidente eleito dos Estados Unidos, Barack Obama, firmar durante seu mandato um acordo de paz entre israelenses e palestinos. "Se os relatos do número de vítimas forem precisos, o Hamas certamente vai responder. E não se trata de uma escaramuça de dois ou três dias até que o gênio seja metido de volta na garrafa", disse Aaron David Miller, especialista em Oriente Médio do Centro Internacional Woodrow Wilson para Eruditos e autor de A Terra Prometida Demais."Isso reduz a praticamente zero as chances já pequenas de uma participação precoce, ativa e bem-sucedida por parte de Obama no processo de paz entre israelenses e palestinos." Israel alertava havia semanas que não toleraria ataques regulares com foguetes lançados a partir da Faixa de Gaza, e esteve realizando preparativos para uma nova ofensiva após o encerramento, há uma semana, de um frágil cessar-fogo de seis meses. Ainda assim, a ferocidade e o alcance dos ataques israelenses, que mataram centenas de pessoas, pareceram chocar os governos e analistas do Ocidente.Os países árabes condenaram Israel, e a Arábia Saudita exigiu que os EUA interviessem para pôr fim aos ataques. Mas, nos pronunciamentos oficiais, o governo de George W. Bush responsabilizou o Hamas, grupo classificado por ela como terrorista, e advertiu Israel apenas para que evite ferir civis inocentes. "Condenamos enfaticamente os repetidos ataques feitos contra Israel e consideramos o Hamas o responsável pelo rompimento do cessar-fogo", disse a secretária de Estado Condoleezza Rice.Obama expressou sua compaixão pela situação de Israel. Em visita ao país durante o último verão, ele participou de entrevista coletiva em Sderot, no sul de Israel, que é alvo da maior parte dos ataques de foguetes disparados da Faixa de Gaza. "Se alguém estivesse atirando foguetes contra a minha casa, onde minhas duas filhas dormem, eu faria tudo ao meu alcance para impedir isto", disse Obama na época.A equipe de transição de Obama foi mais cautelosa no sábado, atendo-se à política de não comentar os acontecimentos internacionais, pois deve haver "um presidente de cada vez". Brooke Anderson, porta-voz de Obama para assuntos de segurança nacional, disse apenas que Obama "está monitorando os eventos globais, incluindo a situação na Faixa de Gaza".Entretanto, resta pouca dúvida de que, caso a situação piore, ela resultará em outra crise para Obama, que já vai herdar guerras no Iraque e no Afeganistão e uma situação instável no Paquistão. Se o passado servir como guia, os EUA provavelmente enfrentarão grande pressão para conter Israel.Um funcionário de alto escalão do governo Bush disse achar que os israelenses agiram em Gaza "porque querem que o problema seja encerrado antes que Obama assuma". Apesar de Bush ter apoiado quase todas as medidas adotadas por Israel em nome da autodefesa, o funcionário destacou: "Eles não podem prever como a nova presidência vai lidar com o problema. E não é assim que eles querem começar a conviver com a próxima administração." "Acho que o objetivo israelense atual é danificar o Hamas o bastante para que este se veja obrigado a aceitar uma trégua verdadeira", disse o funcionário. "Acho que é um objetivo plausível." "Eles não estão tentando derrubar o Hamas."Mas outros analistas americanos demonstraram ceticismo diante da possibilidade de uma ofensiva israelense obter sucesso em intimidar o Hamas. "A esta altura, Israel já deveria ter percebido que esse tipo de ataque raramente tem efeitos decisivos", disse Anthony Cordesman, analista militar do escritório local do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais. "Eles conseguirão, no máximo, outro cessar-fogo frágil, e então a coisa toda recomeçará. Ambos os lados têm intensificado a violência rumo a lugar nenhum." * Michael Abramowitz é comentarista político

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