REUTERS/Carlos Jasso
REUTERS/Carlos Jasso

Uma nova era no México

Obrador pode ser um pragmático conservador em matéria fiscal num discurso e um demagogo messiânico em outro

THE ECONOMIST, O Estado de S.Paulo

03 Julho 2018 | 05h00

O resultado era previsível, mas mesmo assim foi chocante. Andrés Manuel López Obrador, de 64 anos, o carismático político populista, conquistou a presidência do México num triunfo esmagador e democrático. Sua margem de vitória sugere que ele terá um poder sem precedentes. Como nos EUA e em outros países na Europa, um eleitorado revoltado repudiou a elite política estabelecida. E, no caso do México, os eleitores apoiaram um político de esquerda imprevisível.

Obrador, ex-prefeito da Cidade do México, liderava as pesquisas por margens de dois dígitos desde março. Uma reviravolta incrível num país onde as mudanças políticas ocorrem muito lentamente.

Quando o PRI perdeu o poder em 2000, depois de governar o México durante 71 anos, o PAN, fundado seis décadas antes, assumiu o governo. Mas não mudou muito a situação, abrindo o caminho para a volta do PRI ao governo em 2012.

Obrador, que em 2014 fundou o Morena, principal partido da coalizão Juntos Faremos História, destruiu o duopólio político. Ele tem dito a seus partidários que esta é a ocasião mais importante da história mexicana desde a revolução de 1910. 

AMLO, como Obrador costuma ser chamado, foi rejeitado duas vezes pelos eleitores mexicanos, em 2006 e 2012. Mas uma onda de crimes e os inúmeros escândalos envolvendo o atual presidente, Enrique Peña Nieto, enfureceram os cidadãos mexicanos. E a mídia social propagou essa indignação. A campanha foi dominada pelo tema da violência. Mais de 120 políticos e funcionários do governo foram mortos desde setembro.

Os mexicanos estão mais receptivos do que nunca à mensagem de Obrador de que a máfia do poder vem se enriquecendo à sua custa. Ele disse aos eleitores que sozinho representa o povo, que seus oponentes são ilegítimos e não existente diferença entre os dois maiores partidos. Argumento que foi intensificado quando o PRI escolheu Jose Antonio Meade como seu candidato. Meade foi ministro de dois presidentes mexicanos do PRI e do PAN.

Derrota do PRI. Uma derrota eleitoral do PRI era prevista. Depois de uma série de derrotas, o partido agora governará apenas uma dezena dos 32 Estados mexicanos. É um partido que sempre se aproveitou do tráfico de influência e hoje tem pouco a oferecer.

Seu futuro é sombrio. O lugar do PRI como coluna vertebral do poder político será agora ocupado pelo Morena. “As pessoas estudarão essa eleição no México durante décadas”, disse Duncan Wood, diretor do Mexico Institute, com sede em Washington. 

O candidato do PAN, Ricardo Anaya, falou da necessidade de mudanças, mas pareceu indeciso em defender três décadas de governo tecnocrata que propiciou um progresso modesto, distribuído de maneira desigual. O PAN, que saiu prejudicado na campanha, enfrenta hoje com um duro processo de reconstrução.

O que o México vai enfrentar a partir de agora é a incerteza. López Obrador é um enigma. Aparenta ser um pragmático conservador do ponto de vista fiscal em um discurso e um demagogo messiânico em outro. Os mexicanos não estão certos quanto ao que ele se tornará a partir de 1.º de dezembro, quando assumir o governo.

Mas não há dúvida quanto a sua primeira prioridade. A corrupção é o “principal problema do México”, escreveu ele em um livro recente: 2018: The Way Out. Nos comícios, afirmou que a corrupção é um câncer que causa a divisão social. Quando sanar o país, isso trará prosperidade para os Estados pobres do sul do país e restaurará a dignidade nacional.

Mas de que maneira conseguirá isso não está claro, como muita coisa em sua presidência. Obrador parece acreditar que o próprio exemplo de virtude pessoal será suficiente.

Mas há poucos indicativos de que ele tem a mentalidade e a paciência para construir a estrutura institucional necessária para combater com eficácia a corrupção, como, por exemplo, tornar os promotores realmente independentes. Muitos grupos da sociedade civil que lutam contra a corrupção não se mostram entusiasmados com a próxima presidência. 

Em outros assuntos, a certeza é ainda menor. O presidente eleito promete um orçamento prudente e nenhum aumento de impostos, mas diz que congelará os preços do combustível e da eletricidade e oferecerá subsídios à agricultura.

E sua eleição vem acrescentar um novo fator de imprevisibilidade às negociações sobre o futuro do Acordo de Livre Comércio da América do Norte (Nafta) que inclui EUA, Canadá e o México. Um feroz crítico do tratado, Obrador diz agora que o apoia. Mas seu nacionalismo econômico se assemelha ao do presidente Donald Trump, o que poderá dificultar um acordo.

Alguns mexicanos ansiavam por um presidente de esquerda desde 1988, quando Cuauhtémoc Cárdenas perdeu a liderança que tinha depois de uma falha técnica na contagem de votos (seus partidários afirmam que a eleição foi roubada).

A alegria pela vitória de López Obrador foi profundamente sentida. Mas, a partir do início do próximo ano, os leitores exigirão resultados em lugar de retórica por parte do novo presidente. Como ele sabe bem, os mexicanos não temem punir o fracasso. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO 

© 2017 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM

 

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