Marcos Corrêa/Presidência da República
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Uma nova lição

Preconceitos e disputas partidárias não devem contaminar a política externa

Lourival Sant'Anna, O Estado de S.Paulo

24 de janeiro de 2021 | 05h00

Os transtornos no acesso do Brasil a vacinas deveriam servir de lição ao governo brasileiro. Pautar as relações entre países pela ideologia, tratar os parceiros em função de preconceitos e dogmas, requereria algo inexistente, mesmo para uma potência hegemônica: a autossuficiência.

Até muito recentemente, o presidente Jair Bolsonaro e pessoas muito próximas a ele atacavam a qualidade das vacinas chinesas. Eu adverti neste espaço que essa ofensa não seria facilmente esquecida pelo regime chinês, porque o desenvolvimento da vacina é estratégico para o presidente Xi Jinping restaurar o próprio prestígio e o de seu país, depois de dar origem a esse vírus.

Não estamos na guerra fria entre capitalismo e comunismo. A disputa pela supremacia econômica, tecnológica e militar entre EUA e China não passa pelo questionamento do capitalismo, não é essencialmente ideológica.

Mesmo o presidente Donald Trump adotou uma abordagem mercantilista, ameaçando sobretaxar os produtos chineses até alcançar um acordo há um ano, que garantia US$ 200 bilhões a mais em exportações. 

Quando ainda negociava esse acordo, Trump paparicou Xi ao longo de 2019. Elogiou os campos de “reeducação” de uigures, a minoria muçulmana de origem turca da Província de Xinjiang, e explicou ao presidente chinês que, se ele não comprasse mais produtos agrícolas do Meio-Oeste, os democratas poderiam voltar ao poder, e com eles estratégias mais agressivas contra a China. Tudo isso está relatado no livro 'A Sala Onde Aconteceu' de John Bolton, que presenciou as reuniões como conselheiro de Segurança Nacional.

Entre 22 de janeiro e 29 de fevereiro, Trump elogiou publicamente 15 vezes a resposta de Xi à pandemia. Só quando ele percebeu que o vírus ameaçaria sua reeleição foi que passou a responsabilizar a China por seus problemas. Trump não é um bom estrategista nem gestor, mas age movido pelo pragmatismo.

Noutro sentido, Bolsonaro também agiu por pragmatismo: ele acreditou que atendia aos instintos racistas e às ilusões de superioridade de parte de seus seguidores ao menosprezar os chineses e aparentar uma aliança inquebrantável com a América de Trump. E assim se alinhou com ataques do governo Trump à China nos organismos internacionais.

No dia 2 de outubro, a Índia e a África do Sul pediram à Organização Mundial do Comércio que isentasse as vacinas contra covid-19 da proteção de patente, para agilizar a disseminação de sua fabricação nos países em desenvolvimento, em face da emergência humanitária. O Brasil ficou do lado dos EUA e outros países desenvolvidos, no interesse dos laboratórios, e não apoiou a proposta.

Tudo isso aconteceu há poucos meses. E veja em que lugar estamos agora. As primeiras vacinas aprovadas são dos laboratórios americanos Pfizer e Moderna, mas o Brasil não tem acesso a elas. A China enviou 6 milhões de doses da Coronavac e ingredientes farmacêuticos ativos (IFAs) para 4,8 milhões de vacinas enquanto era um projeto do governo de São Paulo. Com sua incorporação pelo governo Bolsonaro como “a vacina do Brasil”, as encomendas dos restantes insumos para 46 milhões de doses foram retidas. A China é o grande fornecedor mundial de insumos farmacêuticos, incluindo para a vacina da AstraZeneca/Oxford.

No seu desespero em neutralizar o ganho político do governador João Doria, o Ministério da Saúde fez alarde sobre o envio de 2 milhões de doses da AstraZeneca pelo Instituto Serum, da Índia, maior fabricante mundial de vacinas. Isso constrangeu o primeiro-ministro Narendra Modi, que retardou o carregamento, para não enfurecer a população indiana, que apenas começa a ser vacinada, e prefere que os países vizinhos sejam imunizados, dada a porosidade da fronteira.

Demagogia, dogmatismo, preconceitos e disputas partidárias não devem contaminar a política externa. Essa é a lição.

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